pescar em terra?


 

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

(meditação com a ria em fundo)
não te ofereço os dias
em que habitas
deram-te aos dias e neles
habitarás
e serás ou não

a casa será à tua medida
fa-la-ás se por ela fores

o pescador faz-se à ria
sem saber se de peixe virá servido
faz os dias onde a sorte
por vezes mora

jamais pescará em terra

 

(ria de aveiro; torreira)

o medo


 

a safar redes no chegado

a safar redes no chegado

 

 

o medo

queria-o de contornos

bem definidos

reconhecível

 

não assim

pressentido em cada frase

nos semblantes

na dúvida inserta a tudo

no tempo e nos modos

nos dias de cada um

 

amanhã

começará abril

o iluminado mês em que cravos

por armas se trocaram

 

amanhã

queria oferecer-te um país

colado no rosto de um povo

que tivesse nomes de gente desta terra

e não palavras estranhas

orçamentadas e frias

por habitantes

 

não tenho medo do medo

que dele conheci as manhas

tenho medo que tu o tenhas

e à sua sombra vivas

só por medo do medo

 

não te roubaram o sol

mas

terás de lutar por ele

de novo

a lição


 

o fernando nuno a repara as redes da solheira

o fernando nuno a repara as redes da solheira

 

(o drama do redeiro

“quanto mais malhas faço
mais buracos ficam”)

 

sabe-te aqui
um aprendiz da vida
das coisas simples
que não carecem de escola outra

em cada dia
comer o pão
suado
é lição bastante
de sabedoria

ouve

(torreira; porto de abrigo)

a imagem é a mensagem


 

 

a apanha de bivalves nos secos da ria

a apanha de bivalves nos secos da ria

 
busca a essência dos dias
nas coisas mais simples
que não as mais evidentes
muitas vezes sequer as visíveis
abre os dias por dentro

não são de oiro o suor
as dores no corpo vergado

mostra o sentir
mesmo se tiveres de mostrar
o que não se vê

a imagem é a mensagem

 

 

(ria de aveiro; torreira; mariscar)

os putos da ria (1): léo brandão


 

léo brandão

léo brandão

 
desde pequeno que o léo é um amante da ria, o pai, o joão padas, só o deixa “trabalhar” na ria durante as férias e se passar de ano.

tem tudo à sua medida, fato de borracha, cabrita alta e baixa.

é um verdadeiro homem da ria, de uma timidez e capacidade de ajuda fabulosas.

este registo é de 2011

 

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

ria de aveiro, a partilha


 

manuel branco e a esposa palmira

manuel branco e a esposa palmira

 
na pesca com a solheira, rede de tresmalho, podem-se destacar os seguintes momentos:

– largar
-alar
-safar
-arrumar

o largar é quase sempre uma acto solitário, já os 3 restantes, são frequentemente partilhados.

marido e mulher são o par mais frequente a partilhar as  tarefas

(torreira; porto de abrigo)

pai, doirei a ria para ti


 

a ria que o meu pai vê

a ria que o meu pai vê

 

hoje
fomos ver a ria pai
hoje
fomos ver o mar pai
falámos

falámos de tudo
e
não dissemos nada
nada das histórias
que me ensinaste
que me fizeste viver
quando para aqui
me trouxeste

hoje pai
o calendário diz que é o dia
do pai
de todos os pais
mas
todos os dias pai
todos os dias
têm uma história contigo
dentro

algumas já não são só tuas e minhas
já as contei e são de muitos
outras
serão sempre só nossas
como quando digo:

um beijo pai