postais da ria (291)


tremo muito
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safam-se as redes para que se não safem os chocos

 
vêm devagar as palavras
cansadas de tanto
 
carregadas de memória
vergam-se
 
está frio cada dia mais
cubro-me com 
letras nomes sons
 
tremo
tremo muito
 
vão depressa as palavras
urge guardá-las
 
(torreira; 2018)

postais da ria (289)


gente da ria
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conheço-lhes os gestos
por vezes os nomes
 
são muitos anos
ou
foram muitos anos
 
conheço-lhes os gestos
por vezes os nomes
adivinho famílias
 
artes de pesca
artistas alguns
no engano de
 
nas malhas dos dias
muitos ficaram aqui
não presos guardados
 
(torreira; safar redes; 2016)

postais da ria (288)


sopa de letras
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cirandar para a borda

 
a menina maria
e o ti zé augusto
foram os meus avós paternos
 
na ladeira das fontainhas
em setúbal
bairro de murtoseiros
e pescadores
tiveram uma mercearia
uma taberna e seis filhos
 
quando a sopa da menina maria
era mais cheirosa
o aroma corria pela ladeira
até casas menos abonadas
de onde vinham grávidas
com uma malga para uma sopinha
senão ficavam ógadas
sorria a menina maria
 
lembrei-me desta história
a propósito de certas visitas
a malga agora é outra
e a sopa é de letras
 
(torreira; cirandar; 2013)