crónicas da xávega (379)


aos amigos

torreira; ti alfredo fareja; 2005
aos amigos o abraço
braços de dar

aos amigos ainda mesmo se
aos amigos sempre
só porque

pela metade nada nunca
que só tudo aos amigos

por entre os braços a rede
corre como o tempo
que os levou e os trouxe

nem sempre partiram como
chegaram amigos foram
incertos no tempo de ser

aos amigos o abraço
o abraço aos amigos
sempre

crónicas da xávega (377)


nada

xávega; arribar; torreira; 2013
nada se repete nada
é o mesmo nunca

chegarei sem regressar
cansado de ver 
 
desiludido de conhecer 
de já o saber 

a costa é longa diversos
os homens não as raízes

são cada dia mais ténues
os elos que a desilusão corroeu

outros homens virão
outros eus mais sábios

o mar de antes de sempre
não é de ninguém 
mesmo de quem dele dono se julga

fábrica de desilusões este
estar aqui ainda

por entre os dedos escorreram
os dias e os homens
postais da ria (389)

postais da ria (389)


caminho andado

torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013
caminho descalço
pelos dias de estar aqui
olhos abertos como mãos
em tempo de fruta madura

caminho descalço
dorido de tantos cacos
pedras vidros pregos

recuso o conforto da cegueira
auto imposta felicidade
falsa de luas inventadas

doem-me os olhos de ser 
torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013
os moliceiros têm vela (442)

os moliceiros têm vela (442)


de abril a vinte e cinco

torreira; regata da ria; 2013
de abril a vinte e cinco
o cravo barato vulgar povo
foi símbolo sem querer

sem espinhos foi sonho
sem espinhos foi ilusão

sem sangue cansados de tanto
abril a vinte e cinco foi porta
foi janela o poder ser se

fosse o cravo cacto espinhoso
no extremo a flor a colher
tivessem sangrado as mãos

fosses tu a colhê-lo
não o sonho ofertado

fosses tu a colhê-lo
fosses
; 2013torreira; regata da ria