os moliceiros têm vela (417)


1 de agosto de 2020, regata do emigrante, um olhar
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o bruno daniel e o mestre zé rito

 
não foi ao domingo, foi no sábado, também não foi o percurso habitual, mas foi no bico. não estamos num ano comum, esperemos que não se prolongue.
 
uma regata de moliceiros é sempre um espectáculo e esta foi um grande espectáculo.
mas dentro dos moliceiros vão homens, homens que compraram moliceiros, homens que os fizeram.
 
este ano, em que perdemos um moliceiro para os canais de aveiro, ganhámos mais um “moliceiro” , o bruno daniel marçal dias que comprou o moliceiro do mestre zé rito. um jovem. mais um.
 
e é de jovens que quero falar, não os contei, mas em quase todos os moliceiros havia tripulantes jovens a mostrar ao resistente, ti zé rebeço, que os moliceiros continuam, haja vontade e apoio de quem decide – e este ano houve.
 
espero em 2021, voltar a ver a frota de moliceiros reposta – verdade, mestre zé rito?
 
parabéns bruno daniel – esta já é a tua segunda regata – aprendeste, como alguns mais velhos ainda não aprenderam, que não se pode ganhar sempre, que as regatas são uma festa, que há erros mas que não são propositados, que nas festas só pode haver festa, que o importante é participar e fazer da ria aquilo que ela merece: um lago de cisnes.
 
(torreira; 1 de agosto de 2020)

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mãos de pescador
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torreira; 2006

há quem olhe para os carros, outros para a marca da roupa, outros para os rostos …. outros devoram com os olhos o que não comem
 
todos buscam o mesmo: conhecer
 
eu olho para as mãos e sei que aqui, aqui, encontro tudo.
 
as mãos do pescadores são rudes, gretadas, feridas, mas extremamente limpas.
 
são mãos que o mar lava e areia esfrega.
 
são mãos de trabalho, mãos de homens e mulheres que trazem nelas a história de uma vida, de um amor, de uma guerra, de uma faina,….
 
de uma gana de ganhar a vida no mar

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lurdes catelhana (canhoto)
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todos os dias, de acordo com as instruções do arrais chico giesteira (chico de ovar), a companha faz as viagens de ida e volta: furadouro-torreira.
instalam-se ao sul do molhe sul, onde têm tudo o que é necessário para passar o dia: uma caixa térmica de uma carrinha, que serve de dispensa, um coberto que abriga uma mesa e equipamento de cozinha.
um depósito industrial de gasóleo para abastecer tractores e motores.
da companha fazem parte duas mulheres, que ajudam na escolha do peixe e cozinham para toda a companha. a organização imposta pelo arrais e voluntariamente aceite por todos, é a melhor que até hoje vi.
se há ainda lobos do mar, o chico é certamente um deles.
(companha do pepolim – do furadouro a trabalhar na praia da torreira; 2006)

xávega – memória de 2011


a memória dos dias
2011
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(torreira; 2007)

à memória do arrais zé murta
o meu grande amigo agostinho trabalhito (canhoto) enrola as calas ainda a escorrer areia.
sempre o conheci com um sorriso e uma palavra de esperança, mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo quando no ano passado a morte lhe levou dois irmãos.
se há rosto que fascina pela riqueza de feições e expressões é o do agostinho. é o meu modelo favorito.

crónicas da xávega (297)


xávega, os rolos de corda

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o reçoeiro e a mão de barca são das duas cordas (cordadas) que fazem fixe no calão e através das quais se faz a alagem do aparelho.

cada uma destas “cordadas” é constituída pela união de “rolos de corda” ou “peças de corda” com 220 metros de comprimento.

o arrais marco, chega a utilizar 8 a 9 rolos num lanço, ou seja a rede é largada entre 1760m e 1980m da costa.

o enrolar dos rolos, no momento da alagem e a sua disposição correcta durante o aparelhar do barco, garantem um desenrolar sem problemas durante o “largar” do aparelho.

(torreira; companha do marco; 2010)

ti miguel bitaolra

crónicas da xávega (217)


recriação de um lanço de xávega com bois

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em 2001, a companha do joão da calada, na torreira, fez a última safra com juntas de bois. foi a última praia onde se viram bois a trabalhar no mar.

depois dessa data houve, que eu tenha registado, sabido e estado presente, duas recriações na vagueira, outras duas em espinho e uma na torreira, em 22 de setembro de 2013.

recordo que em 1852 foi promulgado o “Regulamento para as companhas de pesca da costa da Torreira”, não conheço mais nenhuma praia que a tal tenha tido direito. porque seria? talvez porque a torreira, à época era a praia em que mais companhas trabalhavam. era a capital da xávega.

era……
em 2013, ano de eleições autárquicas, o executivo da câmara municipal da murtosa decidiu, no dia 22 de setembro, levar a cabo uma recriação de um lanço de xávega – o mais bem conseguido de todos aqueles a que assisti.

quem conhece a torreira sabe que depois do s. paio começa o despovoamento e só volta a haver algum movimento ao fim de semana e retoma no verão do ano seguinte. pois no dia 22 de setembro de 2013 parecia, não só pelo tempo que fazia, que era verão outra vez: o areal estava cheio de gente que tinha vindo para assistir à recriação.

de então para cá, nem mais uma. a autarquia publicou um livro sobre o acontecimento e pronto.

nas festas do s. paio não há tradição de recriação de um lanço de xávega, os eventos tradicionais são na ria – regatas de moliceiros e bateiras à vela e corrida de chinchorros – fica para o mar a modernidade – cerveja, shots, djs ….. entre ria e mar, as noites no largo da varina.

nada tenho contra a modernidade no mar nem é, aqui e agora, o momento de as analisar, mas a verdade é que há que rentabilizar os investimentos.

mas ….

será que, uma vez que a autarquia não tem apoiado uma recriação anual, os privados – restaurantes, bares de praia e comércio em geral – , não poderiam financiar a recriação? ao fim e ao cabo lucrariam com a sua realização, provavelmente mais do que investiriam nela – porque é de investimento que falo e não de outra coisa.

não basta defender que a iniciativa privada é o motor da economia, é preciso prová-lo na prática. se o estado, neste caso a autarquia, não avança com o capital, porque é que os que privados não tomam a inciativa a seu cargo?

a iniciativa, a iniciativa, a iniciativa …. a iniciativa?

um ano tentavam, digo eu, se não desse tinham mostrado do que eram capazes e talvez a autarquia vendo o que tinham feito sem ela, viesse em vosso apoio.

ficam dois ditados populares: “quem não arrisca não petisca” e “quem tem barriga para caldos não vai a casamentos”.

será que a torreira já foi ou quer continuar a ser?

(torreira; 22 de setembro de 2013