os moliceiros têm vela (466)


tem os olhos límpidos
que lembram a ria 
quando ainda enguias havia

será o moliceiro que mais anos carrega no barco. a casa dos pais do ti zé rebeço, ficava em frente à casa dos meus. era de lá que vinha o leite que bebíamos. 

tem os olhos límpidos
"até os matamos, cravo"
esta é a única mentira que lhe conheço
mas é tão nossa que é verdade

mais de 80 anos e um sorriso de criança no olhar
o meu amigo ti zé rebeço

(torreira; são paio; 2010)

crónicas da xávega (482)


o que é o quê

xávega, arte, artes ou arte-xávega, são formas diversas, e as correctas, para designar a mesma “arte de pesca”.

assim como, passer domesticus, pardal, pardal ladrão, pardal dos telhados, pardal da igreja, etc., são formas diversas de designar a mesma ave.

(praia da leirosa; 2019)

postais da ria (394)

postais da ria (394)


eternidade breve

o assassínio do futuro
condena-me a conjugar
os verbos no passado
se os nomeio

folhas secas juncam o chão dos dias
inscrevem nomes na memória
povoam o silêncio

estar vivo é saber
da morte dos outros
ser a sua eternidade breve

outra não há

torreira; regata bateiras à vela; são paio; 2013

a beleza do sal (122)


in memoriam luís cardoso

na salina do corredor da cobra (ecomuseu do sal) a alegria, o saber, o amor pelo sal, tinham um nome: luís cardoso.

bom conversador e conhecedor da história e das técnicas de fazer sal, era um excelente guia para quem visitava a salina.

partiu este ano e continua connosco. é esse o mistério da ausência presente, que pessoas como ele nos deixam.

abraço luís, salgado abraço

(este pequeno e mal amanhado registo, com uma nortada forte a perturbar o som, foi feito com o smartphone, em setembro de 2020, naquela que seria a última redura do ano.)