a beleza do sal (104)


“Recriação da safra à moda antiga” – foto 15

salina do corredor da cobra; 2020
vê-las caminhar
com a giga carregada
e a elegância de desfile


explica o ser salgado
o sangue e intemporal
a tradição revivida

postais da ria (368)


salvé salvador

torreira; 2019
regresso ao sábio labor
das pequenas malhas
à paciência do pescador


encontro o homem
escuto-o e aprendo


vão colhendo as malhas
gélidos os dedos do meu amigo


dentro do barco agulha na mão
um homem bom espera melhores dias


um homem bom que repara redes
porque não pode reparar os dias

os moliceiros têm vela (423)


raízes

aveiro; regata da ria; 2019
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada


homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações


foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre


às raízes

(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:

a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.

isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.

conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.

o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.

saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)

postais da ria (366)


enredado

torreira; safar redes; 2017
encontrar a primeira malha
seguir o rasto ao fio
caminho inverso ao da agulha


depois da primeira muitas mais
fizeram a rede
mas essas vieram depois


encontrar a primeira malha
é contar a história da rede
da rede toda a começar pelo fim


minuciosos os dedos são
a ferramenta primeira na escolha
cuida deles como da verdade


encontra a primeira malha
ou em vez de redeiro serás
enredado

postais da ria (365)


o silêncio é uma vela

torreira; regata do s. paio; 2020
começas a escrever os dias
a repetir a palavra ontem
cada dia mais vazia de vida
mais cheia de memória


em ti habitam os que partiram
em ti se demoram
no sobrevoar da ria tão deles


olhas como te ensinaram
e lembras os nomes os rostos
ainda ouves as vozes


o silêncio é um barco
e tu a vela que o tempo enche