crónicas da xávega (376)


obrigado eugénio

praia da costa de lavos; 2019
dizer
o teu nome

dizer
tantas vezes a mesma palavra
até ela perder o sentido
a sua ligação com o nomeado

dizer
como é doloroso o parto
das palavras
que ainda não disse
ou se disse como as escrevi

dizer
tanto em tão pouco
ser imenso e ínfimo
límpido e complexo

escrever 
“com palavras amo”
e escutá-las
na boca do outro

crónicas da xávega (367)


rente ao mar

praia da costa de lavos; 2019
 vêm os homens do mar  
 não deixa o mar o homem
  
 onde antes de corpo todo
 só olhos navegam agora  
  
 conheço-os pelo olhar
 pela saudade salgada  
  
 nasceram em terra e à terra
 o corpo um dia darão
 
 rente ao mar o cemitério
 assim não estranharão 

crónicas da xávega (365)


sentou-se

costa de lavos; 2017
 
gostava muito de se sentar
e ficar assim a olhar o mar
 
um livro
poisado nos braços
os olhos pendurados no horizonte
 
como era imensa a janela
incomensurável a casa 

(nota: reparem na “ferramenta” de aço inox, utilizada para suportar a manga, a conduzir e impedir que roce na areia. na praia da torreira e na de mira, conhecia a técnica do cruzamento dos bordões/estacadões que se fazia para produzir este efeito. inovação meus caros, na xávega inova-se, é bom que se inove porque é sinal de que continua. será que algum dia, alguém ao ver isto vai dizer que já não é xávega? sei lá?)

crónicas da xávega (345)


descrente

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costa de lavos; 2017

 
escrevo hoje o tempo
com o tempo que tenho
não será muito digo
mas é o meu tempo
 
no caminho dos dias
é nos outros que o vejo
em mim que o sinto
 
ao tempo que foi e
ontem ainda
 
gasto o tempo até ao esqueleto
branco do ínfimo segundo
 
não creio na reciclagem dos dias
também nisso a minha descrença
 

crónicas da xávega (335)


eu queria

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xávega; marga; costa de lavos; 2019

 
eu queria escrever
hoje
algo sobre o amor
 
eu que tanto amei
hoje
não consigo escrever
porque não
amo
 
hoje
não me basta a memória
de ter sido
apetecia-me ser
 
escrever-te a ti
o que não consigo
escrever hoje
 
porque hoje
hoje
nada sinto