“Mensagem de um homem grande a um grande jovem”


caro amigo

por interposta pessoa, que não citarei por questões de honra, soube que publicou recentemente um livro de poesia com o mesmo título de outro, de crítica literária, que publiquei há mais de 30 anos.

em primeiro lugar gostava de lhe dizer que existe uma base de dados (tempos modernos …) com os títulos de todos os livros publicados em portugal, por isso o primeiro cuidado de um autor, antes de publicar um livro, é verificar se o título já existe (trabalho meu amigo, trabalho)

noutros tempos ter-lhe-ia enviado os meus padrinhos e trocaríamos alguns golpes de espada em sítio recatado (bons tempos), agora as redes sociais são a grande arena intelectual e onde as disputas são abertas ao público em geral. e foi assim, o raio do face está-me sempre a perguntar o que é que eu penso e eu, sem pensar, farto de o ouvir, fiz a publicação que o meu amigo certamente leu.

é tudo muito rápido nestes novos tempos.

tivera eu pensado antes de a fazer … porque o meu livro, com o mesmo título do seu, de repente retornou ao mercado: voltou a ter vendas. ora isso só pode ter acontecido porque o livro do meu caro amigo, ao ter o mesmo título, fez com que os motores de busca (o que nós temos agora …) o descobrissem no sossego dos armazéns. muito bom deve ser o seu livro. parabéns.

espero que perdoe a minha impensada publicação e me ensine a eliminá-la – técnica que não domino, e por isso ela ainda se mantém activa.

receba deste seu amigo forte abraço e o desejo de que MATÉRIA NEGRA (o seu livro) tenha o reconhecimento que merece.

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O infantário do Cravo – julho 6.2026 (maria do rosário pedreira)


Aqui há tempos fui à Figueira da Foz acompanhar a Carla Pais, a vencedora do Prémio LeYa 2024 que recebemos recentemente em Portugal. Como sempre que vou às 5.ªs na Figueira (também há umas Quintas no Porto, mas são de poesia), encontro-me com o António Cravo que, há anos, faz questão de registar as sessões em filme e fotografia. Porém, no final da conversa, já a regressar, descobri que o Cravo publicou um livro de poemas e fotos em «curtição de autor» (adorei o termo) e não resisti a comprar-lho. É, como diz, ele próprio «sentado à janela do tempo» – e acredito que tenha sido irresistível fixar estes momentos em papel (as fotos são de 1972 a 1993, pelo que há belas hipóteses de contarmos um dia destes com mais um ou dois volumes deste magnífico livro que tem por título este é o meu infantário). Tendo ascendentes pescadores (na Figueira é normal), Cravo dá-nos a conhecer uma paisagem marítima belíssima, as tragédias e os bens da pesca, os naufrágios, a venda do peixe, os rostos associados ao mar, tudo coroado por um texto poético simples, mas muito bonito. Parabéns, Cravo! Que do infantário se passe à escola primária com mais fotografias e palavras.

Ver menos

https://horasextraordinariasblog.blogspot.com/2026/07/o-infantario-do-cravo.html

apresentação de “Faina” na praia da tocha


sábado às 17 horas no CIAX, na praia da tocha, irei apresentar “FAINA” , um livro cheio de mar e … tão bem escrito

venham e vamos conversar sobre literatura e arte-xávega

escreve Marta Pais Oliveira

Faina tem despertado leituras extremadas e isso agrada-me. O destaque da @gradivapublicacoes – que arrisca em novas vozes e formas de narrar e a quem agradeço muito essa crença – traz leituras positivas do livro e a nomeação como finalista do Prémio Literário Fundação Eça de Queirós.

Poderia fazer outro destaque com críticas de quem visceralmente não gostou do livro. Tenho reparado que é um texto que pode atrair ou repelir com intensidade.

Escrever é um labor de momentâneas fúrias e deleites e, na maior parte do tempo, continuada paciência. Encaro a leitura como um labor que constrói a outra metade do livro, encaro o leitor como um criador. Trata-se de um laço entre duas forças contra a incomunicabilidade.

Quando perguntam: escreves para quem? Em tempos trabalhei em publicidade com públicos-alvo. Nos livros – e por isso respiro – é o oposto. Escrevo para quem me quiser ler. Não escrevo para dificultar a vida do leitor, a construção frásica que me é natural é a que uso e não abdico do trabalho da linguagem. O que tento é criar textos com múltiplas camadas, como quem tira a roupa para chegar à pele para tirar a pele para rasgar a carne para chegar ao osso e aí entender que algo continua a escapar. Quero o que é fugidio e tremelicante. Ao leitor peço atenção e imaginação.

Escrevo como penso, e penso com contradições e hesitações. Talvez escreva para hesitar melhor. Sei que fujo da indiferença, faço exercícios arriscados nos textos e quero tentar dar forma a livros ambiciosos. Atraem-me lugares de estranheza e o contraste entre a maior precisão e a perda de nitidez, como quando abrimos os olhos debaixo de água, se o suportarmos. Procuro espaços para me desorientar melhor, fazer perguntas, peneirar as palavras para captar-lhes o que não é da ordem do verbal, um ritmo primeiro.

A praia que inspirou este livro é uma praia de excessos: de paixão, amor e de medo, revolta. Essa intensidade moldou o romance.

Tem sido uma travessia com muito afeto, é poderoso o amor pelos livros e a transformação que abrem. Este sábado há conversa sobre Faina na Praia da Tocha, Centro de Interpretação da Arte Xávega, 17h, com o leitor António José Cravo. apareçam para abraços-mergulhos!

da descoberta à conquista passando pelo achamento


(o beijo através do Atlântico, alegoria publicada na Revista da Semana do Brasil e na Ilustração Portuguesa celebrando a travessia Lisboa-Rio in Portugal século XX, Joaquim Vieira, Círculo de Leitores)

não haverá muito tempo um migrante indiano mostrava na televisão a sua filha a falar correctamente português, enquanto ele falava fundamentalmente inglês, fazia-o com o orgulho do pai que em portugal tinha encontrado uma nova vida e cuja filha estava perfeitamente integrada na escola, na língua, nesta terra que tinha escolhido.

a maior comunidade migrante em portugal é a brasileira, que tem sobre todas as outras a vantagem de falar português, embora seja o português do brasil, e por isso maior facilidade de integração. numa reunião literária a que assisti há pouco tempo, a palestrante, jornalista/escritora manifestou a sua preocupação com o facto de os filhos de migrantes brasileiros ao frequentarem a escola portuguesa, chegarem a casa e confrontarem os pais com esta “nova” forma falar português (sem gerúndios), o que poderia chocá-los.

ora bem, quer gostemos quer não, quer seja actualmente correcto ou incorrecto, é um facto, sempre, mesmo antes do regime de salazar, se falou das descobertas feitas pelos navegadores portugueses. agora considera-se que o termo correcto será “achamento”, porque não foram descobertas novas terras, porque já existiam. quem defende esta nova designação não são as populações indígenas – caso do brasil – mas os descendentes daqueles que foram “descobrir” novas oportunidades de vida nas terras “achadas”, ou seja, descendentes de descobridores reivindicam que em vez de “descoberta” se diga “achamento”. interessante não é?

mais, tendo escolhido portugal para fazer uma nova vida acham-se, alguns, no direito de exigir que nas nossas escolas/universidades aos seus filhos e aos que tendo vindo para cá concluir os seus estudos, seja ensinado o português do brasil. e assim de filhos de descobridores de terras por portugueses, segundo eles, achadas, querem-se conquistadores da terra dos achadores.

e nós, herdeiros da mentalidade salazarenta, subservientes e adoradores do que não é nosso mas do que de fora vem, preocupados estamos com tal situação.

eu que à minha maneira lutei contra o regime de salazar, que defendo as conquistas de abril, a liberdade, a igualdade, a fraternidade, e que defendo os migrantes e a sua integração na sociedade portuguesa, com direitos e deveres, em respeito mútuo; eu que me defino como homem de esquerda penso, às vezes por distracção, que este tema tem de ser clarificado pela esquerda portuguesa e não deixado em aberto, o que implica entregá-lo aos populismos de extrema direita.

politicamente incorrecto, do ponto de vista da esquerda, é “deixar andar” esta forma coxa de viver.

para o fausto (um repentismo)


porque não partiste

lembro um sonho lindo
uma viagem por um rio acima
a guerra e a rosalinda

a chula
o canto livre
a música a sociologia
a poesia

lembrarei sempre
um barco que vai de saída
uma cana verde a bailar
os trapeiros

o barco vai e vem
a viagem não pára nunca
tu és o capitão fausto
todo o porto é partida

volta breve quem nunca partiu

(figueira da foz; 01/07/2024)

Conversa com livros – António Cravo


no dia 2 de abril estive no Hospital de Sobral Cid, em Coimbra, a falar sobre livros.

não há palavras para descrever a conversa que tive com os presentes e o trabalho de Luís de Pessoa na elaboração do vídeo que vão ver.

obrigado a toda a comunidade do Sobral Cid pela oportunidade de partilhar pedaços da minha vida