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Pensar o moliceiro hoje: Ria de Aveiro Radical (RAR) – parte 1

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22 mar 2018, 20:33

É preciso aproveitar o que já temos: os barcos, os “velhos” e “novos” moliceiros e as escolas de vela existentes na ria.

ahcravo gorim *

Fiquem desde já claras as seguintes questões: a Ria de Aveiro não são os canais da cidade de Aveiro; os barcos que circulam nos canais são “caricaturas”, algumas de muito mau gosto, dos verdadeiros barcos moliceiros, para não falar das de mercantéis que também por lá andam; todos sabemos e está por demais escrito que a função para que o moliceiro foi criado – a apanha de moliço – terminou e, com ela o papel que o moliceiro desempenhava na cadeia económica em que se encontrava inserido.

Importa pois pensar como é que este barco único no mundo, símbolo de uma terra, de uma região e até de um país, tem sobrevivido ao longo dos anos e como poderá continuar a existir.

As regatas

Uma das formas de os moliceiros “encaixarem” algum dinheiro é na participação em regatas, onde lhes são atribuídos prémios de presença, competição e painéis. Ao longo do ano realizam-se três, a da Ria – Torreira/Aveiro – a do Emigrante e a do S. Paio – no município da Murtosa.

Destas três regatas aquela em que os donos dos moliceiros amealham mais é na da ria mas, mesmo nessa, só lhes chega aos bolsos pouco mais de metade do subsídio que acttualmente a Comunidade Intermunicipal região de Aveiro (CIRA) lhe atribui – cerca de 17.000 euros.

A outra metade vai para a associação que organiza a regata e que tem de suportar os custos com dois almoços, seguros, taças e medalhas – se gastarem 2 mil euros é muito, se gastarem mais é desperdício. Quem tem ganho são as associações organizadoras, durante muitos anos a Associação dos Amigos da Ria, depois o Clube Náutico da Torreira e agora o rancho Camponeses da Beira Ria.

Claro que os donos dos moliceiros não ficam isentos de culpa, por receberem só metade. PORQUE NÃO CRIAM ELES UMA ASSOCIAÇÃO?

Escreveu Diamantino Dias: “Quando, em finais de Outubro de 1957, entrei para a Câmara Municipal de Aveiro como Fiscal Informador dos Servicos de Propaganda e Turismo, já se realizava, há alguns anos, o “Concurso dos Painéis dos Barcos Moliceiros”, que tinha sido criado por iniciativa de Arnaldo Estrela Santos, quando foi Vereador e Presidente da Comissão Municipal de Turismo.”

Durante alguns anos terá havido ainda uma regata entre S. Jacinto e Aveiro, em que a partida era, também ela, um espectáculo: os barcos estavam varados na areia e a regata inicia-se com a tripulação a saltar para o moliceiro e pô-lo a navegar (contado pelo mestre Zé Rito).

Será, no entanto, o mesmo Dimantino Dias que em 1978 – veja-se o anexo constante da segunda edição do livro “Moliceiros” de Ana Maria Lopes – terá a ideia de a regata partir da Torreira e terminar em Aveiro. O modo como expressa a necessidade de o fazer ainda não encontra, nos dias de hoje, uma visão tão ampla em quem a deveria ter. Fica aqui um breve excerto do que então pensou, concretizou e fixou em papel : “A minha ideia, quando propus a realização desta Regata, foi proporcionar, aos fotógrafos e cineastas, amadores e profissionais, 9 milhas náuticas ou 12 quilómetros – dos quais 8, pela estrada que liga a Torreira a S. Jacinto e 4, pela antiga estrada da Gafanha – e duas horas de hipóteses para fazerem excelentes imagens, que constituíriam óptimos elementos publicitários, susceptíveis de despertar a vontade de nos visitar a quem os visse.” (texto integral emhttp://www.prof2000.pt/users/avcultur/DiamDias/Ficcoes/Page280.htm)

Claro e simples, ninguém, nunca mais, escreverá melhor.

O turismo em ria aberta

Os passeios turísticos em moliceiros tradicionais têm sido uma das formas dos moliceiros, com licenciamento para tal, irem angariando alguns meios de financiamento – convém lembrar que o custo de um moliceiro pronto a navegar andará pelos 25.000 euros e a sua manutenção anual pelos 2.000. Mesmo que ganhasse todos os primeiros prémios das regatas existentes, nenhum moliceiro recebia o suficiente para a manutenção, quanto mais para amortizar o investimento.

A 29 de Janeiro contactei por email a Capitania do Porto de Aveiro, manifestando a minha intenção de mandar construir, ou recuperar, um moliceiro para a realização de actividades turísticas em Ria Aberta, pelo que solicitava informação sobre legislação e custos legais com aquisição e manutenção de actividade. Ao fim de duas semanas, sem qualquer resposta, recorri ao telefone. Fui muito bem atendido mas…. remeteram-me para o Capitão do Porto, a que me deveria dirigir por correio electrónico. Até à data em que escrevo esta crónica continuo à espera.

RIA DE AVEIRO RADICAL

Nunca ninguém tinha pensado que a Ria de Aveiro poderia ser palco para desportos radiciais, até que ao sul da Bestida nasce, pela mão de um homem de Espinho, Adriano Coutinho, o clube Nortada Aventura e o Kite Surf encontrou o seu “spot” perfeito.

E o moliceiro? Não será tripular um moliceiro um desporto radical? Porquê limitá-lo a velejar nas regatas, ou por puro prazer dos seus donos em dia de sol e algum vento?

Porque não pensar num moliceiro em que a tripulação é constituída por amantes da vela, devidamente treinados e que querem sentir emoções fortes tripulando um moliceiro? Para quem já andou num, à vela, em dia de vento, sabe o que tem de radical uma viagem destas.

Isto num moliceiro tradicional, sem quaisquer adaptações ou alterações. Raul Brandão pensou que ele era um barco de pesca quando viu as enguias misturadas com o moliço, é preciso agora pensar no moliceiro como barco radical e dar-lhe asas.

Claro que é preciso haver timoneiros que ensinem a tripular um moliceiro, que é preciso uma escola de vela para moliceiros, que será preciso definir em que zonas da ria onde poderão velejar e muito mais. Mas, fundamentalmente, é preciso aproveitar o que já temos: os barcos, os “velhos” e “novos” moliceiros e as escolas de vela existentes na ria.

Claro que é preciso muita coisa, mas o fundamental é que esta pode ser mais uma que poderá salvar DEFINITIVAMENTE o moliceiro.

Os desportos radicais têm cada vez mais aderentes e que de bom gosto pagarão para sentir todas as emoções que o moliceiro pode proporcionar.

O futuro do moliceiro está numa RIA DE AVEIRO RADICAL, com o moliceiro sempre como símbolo. Depende de nós e de quem “MANDA”. MAS FUNDAMENTALMENTE DE NÓS.

(continua na próxima crónica)

* mestre de artes e ofícios

link para a crónica

http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/47604/pensar-o-moliceiro-hoje-ria-de-aveiro-radical-rar-parte-1/

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“Portugal primeiro” (Notícias de Aveiro_24/02/2018)


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“Portugal primeiro” pode servir para um campeonato, um festival, uma guerra, mas é com certeza o país onde gostei de nascer e espero morrer. 

ahcravo gorim *

Vejo um jovem másculo, dinâmico, barbeado, praticante de culturismo, num concurso mundial de beleza masculina.

Das bancadas uma jovem, digna de capa de revista, grita: “Portugal primeiro”.

O jovem responde pelo nome, olha na direcção de onde veio a voz, enche o peito de ar, exibe os bícepes e os peitorais esplendorosos.

O júri, perante as amostras a concurso, mostrava-se indeciso na atribuição da classificação final. Porém aquele grito despertou-o da dúvida e a decisão foi tomada a quente.

Num placard erguido por sobre as cabeças ilustres dos membros do júri pôde ler-se de imediato: “Portugal primeiro”.

Depois acordo e estou a assistir pela televisão ao congresso de um partido, onde o candidato a líder afirma “Portugal primeiro”. Esfrego os olhos, não sei se ainda sonho. Utilizo o comando para voltar a rever e ouvir. Confirmado.

Ora Portugal é um País, ponto final, parágrafo.

Para uns é identificado pela Língua, Cultura, População, Geografia, Hino, Bandeira, selecções várias e por aí fora. Mas quantas Culturas há dentro da Cultura? E que dizer da População? Até na Geografia há tanta diversidade!

Para outros é um conjunto de indicadores que a deusa da estatística fornece e que podem ser manipulados consoante os fins pretendidos, há deusas assim. Números, números e mais números, frios, calculados e calculistas. Os escravos dos números só se libertarão com letras.

Siga o congresso!

“Portugal primeiro” pode servir para um campeonato, um festival, uma guerra, mas é com certeza o país onde gostei de nascer e espero morrer.

“Portugal primeiro” não é um projecto político, sequer um projecto para um projecto de uma proposta de uma política, é um vazio cheio de muita coisa e de nada.

Se a “demagogia é o principal inimigo da democracia” falar de tudo sem nada dizer e fazer disso uma bandeira o que será? “Portugal primeiro” o que é?

Estaria perfeitamente de acordo com a frase se me dissessem: somos contra os offshores, contra as mudanças de sedes de empresas para outros países, por exemplo. Gostava de ouvir isso claro e explícito. Mas será que é isso que se pretende?

“Portugal primeiro” não deverá ser encarado como o “America first” de Trump, mas que o pode fazer lembrar, isso pode e é perigoso. Até porque Rio não é Trump, embora muitos portugueses ainda sonhem com a América.

* Aposentado da função pública, mestre de artes e ofícios.

o link para a crónica

http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/47232/portugal-primeiro/

 

O moliceiro Património Nacional, quando?


 

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Único no país e no mundo, objecto de estudos, livros, teses, publicações, o moliceiro ainda não está inscrito como Património Imaterial Nacional, na Direcção Geral do Património Cultural. Custa a acreditar, mas é verdade.

A foto que ilustra estas palavras é a da capa, das primeiras edições, do livro “Os Pescadores” de Raul Brandão e, por estranho que possa parecer, tratando o livro de pescadores e de artes de pesca, é o moliceiro que lhe serve de capa; o moliceiro que nada tem a ver com pesca e pescadores.

Segundo o Professor Doutor Vitor Pena Viçoso, estudioso da obra de Raul Brandão, tal acontece porque foi na ria de Aveiro, que atravessou de moliceiro, que Raul Brandão se sentiu plenamente feliz. Eis pois a maior distinção que alguém deu, até hoje, ao moliceiro: ser capa de um dos livros de referência para a história das pescas costeiras e interiores, do Portugal dos inícios do século XX, não sendo um barco de pesca.

No âmbito da candidatura da Cultura Avieira a Património da Humanidade, promovida pelo Instituto Politécnico de Santarém, que se iniciou em 2006, foi elaborada uma candidatura específica para as “ Artes e saberes de construção e uso da bateira avieira no rio Tejo, Caneiras “, a Património Imaterial Nacional, a qual foi aprovada – Anúncio n.º 121/2016 – Diário da República n.º 86/2016, Série II de 2016-05-04 – e que pode ser consultada em http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/Inventario/InventarioConsultar.aspx?IdReg=475 e

A bateira avieira e os seus processos contrutivos estão assim protegidos pela classificação de Património Imaterial Nacional, que lhes foi atribuída. Mérito de quem para tal trabalhou. Acontece porém, e isso é consensual – vejam-se as fotos – que a bateira assim classificada, não é mais que uma bateira labrega murtoseira com pequenas adaptações.

Da labrega murtoseira resta um exemplar no cais da Bestida, Murtosa, à espera de … a avieira, sua descendente, é Património Imaterial Nacional!

O que é que isto tem a ver com a candidatura do moliceiro a Património Imaterial Nacional ? Tem tudo. Santarém tem um Instituto Politécnico e a região de Aveiro uma Universidade, o museu de Ílhavo e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – em que se inclui a “Pátria do Moliceiro”. Se em Santarém uma bateira com matriz na ria já foi considerada Património Nacional, o que espera a Região de Aveiro para candidatar o moliceiro?

Leia-se o Dec. Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro, para fique clara a importância desta classificação e a quem compete a sua obtenção, na preservação do inventariado, de que ficam destaques, por mim seleccionados, só como exemplo:

“Artigo 3.º

Tarefa fundamental do Estado

1 — Através da salvaguarda e valorização do património cultural, deve o Estado assegurar a transmissão de uma herança nacional cuja continuidade e enriquecimento unirá as gerações num percurso civilizacional singular.

2 — O Estado protege e valoriza o património cultural como instrumento primacial de realização da dignidade da pessoa humana, objecto de direitos fundamentais, meio ao serviço da democratização da cultura e esteio da independência e da identidade nacionais.

3 — O conhecimento, estudo, protecção, valorização e divulgação do património cultural constituem um dever do Estado, das Regiões Autónomas e das autarquias locais. “- sublinhado da minha responsabilidade

e
CAPÍTULO III

Protecção dos bens culturais inventariados

Artigo 61.º

Inventário geral

1 — Os bens inventariados gozam de protecção com vista a evitar o seu perecimento ou degradação, a apoiar a sua conservação e a divulgar a respectiva existência. “

(Versão integral em https://dre.pt/application/dir/pdf1s/2001/09/209A00/58085829.pdf )

O moliceiro já tem teses e livros que cheguem sobre ele, só lhe falta uma coisa: a classificação como Património Imaterial Nacional, no mínimo, porque o objectivo de qualquer amante e conhecedor da região é a sua inscrição como Património Imaterial da Humanidade. Será o moliceiro menos que os bonecos de Estremoz, ou serão os alentejanos mais dinâmicos e promotores da preservação da sua identidade regional?

Para os interessados em saber o que está classificado como Património Imaterial Nacional aqui fica o caminho

http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/Inventario/InventarioListar.aspx?TipoPesq=1&NumPag=1&RegPag=50&Modo=1&Criterio=&Inpci=True

Para o que já está protegido e inscrito na UNESCO

https://www.unescoportugal.mne.pt/pt/temas/proteger-o-nosso-patrimonio-e-promover-a-criatividade/patrimonio-cultural-imaterial-em-portugal

Repito, “Santarém tem um Instituto Politécnico e a região de Aveiro uma Universidade, o museu de Ílhavo e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro– em que inclui a “Pátria do Moliceiro.”

O que falta?

http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/46854/o-moliceiro-patrimonio-nacional-quando/