postais da ria (242)


dos deuses

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como se da caverna
saído
ofusca-me tanta luz

vejo o bisturi cortar
preciso
os mais ínfimos
detalhes
matando os deuses

sombras caminham
sombras
que sombra fazem
nada mais

como se da caverna
saído
ofusca-me tanta luz

os deuses
também morrem

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(torreira; 2011)

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postais da ria (241)


dos homens e dos barcos

barcos sem homens
são fantasmas
poisados na ria

belos em horas felizes

tristes órfãos
porque lhes ignoraram
o terem pais

é urgente contar
dos homens
para que haja
barcos

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(torreira; safar redes; 2013)

mãos de mar (45)


redeiros

arte minuciosa essa
como se de aranha
labor de mãos sábias

recolho nelas
o terem sido antes de mim
muito antes
as mãos dos meus maiores

mãos duras e simples
de trabalho
mãos transparentes
e límpidas

mãos que faço minhas
com orgulho
de ser deles mais um

não escrever eu
como eles rede faziam
é o que me dói

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(torreira; 2015)

postais da ria (240)


deixa-os descobrir

deixa que pensem
a higiene mental diária
só lhes faz bem

ignoram porém
que tu também

as pedras no caminho
há sempre pedras no caminho
não são exclusivo de ninguém

deixa que pensem
que só as há no teu

entre a ignorância
e a sabedoria
a fronteira é ténue

deixa-os descobrir

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(torreira; saco de berbigão de 20 kg; 2009)