postais da ria (399)


águas vivas

outras as artes outras redes
malhas mais finas
prenderam o sonho
o sol uma vida

o testemunho do tempo
o olhar a guardar a memória
onde agora

safam-se os dias
onde algas secas ainda

a paciência é a arte
da sobrevivência

a reinvenção dos dias
é um tempo cheio de tempo
uma navegação em águas
vivas porque revividas

(torreira; safar redes; 2019)

os moliceiros têm vela (467)


se não houvesse homens
quem faria os barcos
quem os manejaria

o futuro dos moliceiros
se o houver
está no querer de quem manda

que homens de fazer
os temos

o rui miguel (russo, índio…) na preparação da regata da ria 2020

foi um dos jovens tripulantes que ganharam a regata do s. paio, de 2021

postais da ria (398)


mais que o nome a alcunha
conta uma história

assim os pescadores

a do henrique nunca a soube
nem é aqui lugar para

homem rico o henrique
de duas alcunhas penso
ser dono

haverás mais ricos 
de alcunhas claro

mas de voz
mais nenhum 

safa as redes como todos
não safa a vida

torreira; porto de abrigo; 2013

os moliceiros têm vela (466)


tem os olhos límpidos
que lembram a ria 
quando ainda enguias havia

será o moliceiro que mais anos carrega no barco. a casa dos pais do ti zé rebeço, ficava em frente à casa dos meus. era de lá que vinha o leite que bebíamos. 

tem os olhos límpidos
"até os matamos, cravo"
esta é a única mentira que lhe conheço
mas é tão nossa que é verdade

mais de 80 anos e um sorriso de criança no olhar
o meu amigo ti zé rebeço

(torreira; são paio; 2010)

os moliceiros têm vela (465)


entre 2010 e 2021 foram muitos os moliceiros que desapareceram. os que de novo foram feitos não os superam.

não vou citar nomes de homens e barcos, mas seja o ti abílio, amigo do peito, mestre das artes do mar e da navegação – que já não tem moliceiro e por isso não estará presente na regata de hoje -, o símbolo do amor a estas aves tão belas a que deram, por arte e ofício, o nome de moliceiros

torreira; regata do são; 2010