os moliceiros têm vela (423)


raízes

aveiro; regata da ria; 2019
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada


homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações


foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre


às raízes

(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:

a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.

isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.

conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.

o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.

saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)

os moliceiros têm vela (414)


hoje ontem amanhã

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torreira; regata da ria; 2020; ti zé rebeço

 
sabes que o teu tempo
passou
ainda não completamente
mas
 
os teus olhos vêem por dentro
das coisas e são a memória delas
 
não queres o regresso ao passado
mas que ele se sente contigo à mesa
com amigos mais jovens
a quem passes testemunho
 
o que os teus olhos viram
toda uma geração que viu
 
és ainda
olhas a ria não como
se te despedisses
mas bebendo do copo
até à última gota
 
sentemo-nos
há gente a chegar
à tua mesa
 

os moliceiros têm vela (412)


da regata da ria 2020

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regata da ria 2019; ti abílio carteirista

 
a regata da ria 2020 foi uma boa regata, embora sendo feita contra a maré, o vento foi bom – levou até alguns a mudar de vela – e em cerca de 1h40m estava concluída.
 
10 moliceiros de classe A e 2 de classe B. inteligente a decisão da associação náutica da torreira de dar partida em primeiro lugar aos moliceiros de classe B – mais lentos – e só minutos depois aos de classe A.
 
apenas um moliceiro ficou pelo caminho e é para ele o meu abraço, porque dos que ganham se fala, mas aos que o azar atingiu, só o silêncio e o desalento acompanham. ainda por cima para quem participa pelo prazer de velejar, sem quaisquer pretensões de vencer. acontece. por isso o meu abraço.
 
uma regata pode ser vista de muitas formas: a da beleza da ria engalanada; dos painéis … tanta beleza que os olhos captam e as máquinas registam.
 
e a regata dos homens que vão nos moliceiros e que são cada dia menos moliceiros. ainda bem, porque rejuvenescida a equipagem da frota e mais promissor o futuro, pena porque a vão abandonando os “velhos moliceiros”.
 
esta foi a primeira regata que acompanhei e em que não participou o ti abílio fonseca (carteirista) e o seu “dos netos”, e também o ti zé caneira não foi arrais do moliceiro da câmara municipal da murtosa.
 
esta foi também a primeira regata do bruno dias, que comprou o moliceiro “zé rito”.
 
junto os três no mesmo abraço, o que foi criou as raízes do que vem, ambos merecem o respeito e o reconhecimento de quem não anda nisto “só pelos bonecos”.
 
a regata da ria 2020 foi uma boa regata, as fotos já publicadas por muitos assim o demonstram, a reportagem de uma televisão é elucidativa. eu, com a calma que os anos trazem, só quero que haja mais regatas, mais apoios, mais gente que aceite o desafio e que os moliceiros continuem a navegar em ria aberta.
 
as fotos que fiz na regata estão à espera que eu dê ordens.
 
os moliceiros têm vela (411)

os moliceiros têm vela (411)


regata da ria 2020

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cais do bico; 2009

quando quem manda em terra
desconhece as leis do mar
quem paga é sempre quem navega

errar é humano
repetir o erro é estranho
a terceira devia dar direito a despedimento

manda quem pode
somos um povo de brandos costumes
comer e calar

deixem que pergunte
quem manda nas datas das regatas
alguma vez andou na ria
de moliceiro

ou será que
nunca saiu dos canais
e porque manda nas comportas
julga ser senhor das marés

como dizem os murtoseiros
queria-se “bem escafunadinha”
aquela cira

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cais do bico; 2009