mãos de mar (21)


do meu fotografar

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no tribunal do tempo
a fotografia é testemunha

(torreira; 2016)

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postais da ria (178)


boas fotos

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chegaste agora
não sabes os nomes
não conheces as histórias
trazes contigo uma máquina de fotografar
olhas e encontras o motivo

disparas repetidas vezes
gostas do que viste e registaste
ignoras tudo o que para além do registo
desfrutas do olhar e sorris
quando lês o exif

e se
a perspectiva real for inversa da registada ?
e se
aquele homem ao fundo tiver nome ?
e se
o que ele traz no braço for parco para tantas horas
de esforço quase insuportável ?

e se
em vez de olhares e fazeres (digo eu)
um registo interessante de perspectiva
procurasses respostas para o que registas ?

então
não estarias aqui de férias em busca de imagens
serias mais um na comunidade e isso
meu amigo aqui pode ser perigoso

boas fotos

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(torreira; junho; 2016)

os moliceiros têm vela (223)


a fotografia, a tradição, a memória e os interesses

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a limpidez da memória no registo do momento

não há nada pior que um povo sem história, não é povo sequer. e o que é a história senão o somatório das memórias preservadas?

a fotografia é, desde que surgiu, mais um instrumento de construção da história, porque produtora de memória, com a relevância de ser um registo visual e de impacto.

desdenhar da fotografia é desdenhar da história e da memória. é desdenhar do povo e da sua cultura.

sujar o campo visual da reconstrução da memória é sujar a memória do registo intemporal, quem dera, do momento.

entendam agora porque sou contra o acompanhamento da “regata da ria” por praticantes de kite surf: sujam a memória, impedem o registo limpo de um tempo recuperado.

virá o tempo em que perguntarão porque se estragaram momentos tão belos. mas será tarde para impedir a ganância de alguns, a ignorância de outros, a falta de cultura de muitos e a indiferença da maioria.

poderíamos cantar aqui, assim: assim se desfaz portugal!

0 ahcravo_DSC_1442_regata bico 2012, a partida

é tão frágil esta beleza perante a ignorância

(murtosa; regata do bico; 2012)

crónicas da xávega (154)


dar voz a quem

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saco seco, sacudido, para cima da zorra

a fotografia aos fotógrafos
a poesia aos poetas
nada mais vos quero deixar
que a memória das gentes
as palavras do que sinto
sou ou tento ser

tenho a noção
do quão pouco valho
mas não seja por isso
que nada faça

como esta gente carrega
as redes que ao mar se hão-de fazer
também eu dou o que tenho
sabendo que mesmo pouco
falta fará que seja feito

leio vejo escuto
com nada fico
se tenho dou reparto
migalhas sejam
como estas

pão à mesa de quem
não tem voz

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a companha são todos

(torreira; companha do marco; 2015)

povo que lavas no rio


 

o meu povo

 

na água fria
os dedos mergulham
gretados dedos
mãos brancas
mais que a roupa
que lavam

o tempo foi
o tempo voltou
o meu povo
volta a lavar no rio
de lágrimas feito

(a electricidade sobe 3,8%
mexia mexe-se na cadeira
pensa no prémio, satisfeito)

na pedra a roupa
o sabão por sobre ela
arranha, e não rasga
limpa as nódoas de um dia
a dia cada vez
mais negro

o meu povo
tem os dedos gretados
e vê passar os carros
com os olhos que nas costas
lhe inventaram