(ainda estás bem filho
ainda)
ainda
me dói a cabeça
o joelho de quando em vez
ainda
leio muito compro livros sem tino
escrevo quando me provocam
ainda
tenho de andar pela sombra
besuntado de protector
ainda
passeio pelas redes sociais
virtuais e reais e armo broncas
ainda
continuo a dormir mal
a ter cuidado com a boca
ainda
me indigno com a ordem das coisas
me revolto como posso
ainda
morro a qualquer momento
o cardiologista diz que estou para durar
ainda
alimento o sonho de que isto
não é para sempre
ainda
gosto de beijar
apaixono-me todos os dias
ainda
falo sozinho
mas agora gravo poesia
ainda
gasto balúrdios
na manutenção do corpinho
ainda
estou vivo e é demasiado tarde
para me comprarem
(kitesurf; mamaparda; bunheiro; 2013)

