os moliceiros têm vela (234)


os contribuintes, os fotógrafos, a janela e as mãos sujas

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no final da regata dos moliceiros do s. paio, quando regressávamos de uma tarde de emoções fortes, vividas na ria, fomos recebidos por alguns contribuintes que nos disseram termos estragado o visionamento da regata, por andarmos de barco a acompanhá-la. também no face houve quem o escrevesse .

ora bem, o s. paio é a festa da ria e festeja-se na ria, eram muitos os barcos de recreio e de pescadores que, em dia de descanso, andavam na ria a acompanhar a regata. é assim, sempre foi assim. os barcos com fotógrafos eram poucos, quem dera fossem mais, porque mais dinheiro deixavam nos bolsos dos pescadores que os levavam. foi neles quem quis, ficou em terra quem assim o entendeu.

sujámos a imagem da regata? e nós no meio da ria, não tínhamos também barcos no nosso horizonte visual? é tudo uma questão de saber o quando e o como disparar. há quem tenha feito belíssimos trabalhos de terra.

mas, já agora que queriam ver tudo, não terão reparado que na regata não havia só moliceiros? não ouvi ninguém manifestar a sua opinião a esse respeito. é verdade, participaram na regata duas bateiras mercantelas – conforme informação de um tripulante de uma delas. será isso correcto quando na véspera houve uma regata de bateiras à vela com duas classes?

estranho é terem dito que estavam em competição, sem qualquer reparo ou impedimento da organização e, na página do município da murtosa – https://www.facebook.com/municipiodamurtosa/posts/1096215667123441 -, quando se vê a lista dos participantes, não estão lá mencionadas.

da minha janela, a bordo de um moliceiro, assisti a tudo.

afinal, competiram ou não? era interessante esclarecer essa situação.

quanto a mãos sujas, também eu as tenho de andar a trazer muita “porcaria” ao de cima, só que não estou agarrado a ela.

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(regata do s. paio, 2016, a bordo do moliceiro “Dos Netos)

postais da ria (186)


dia de s. paio

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hoje é dia de s. paio, na torreira, dia do santo padroeiro da terra e dos pescadores. e eles bem precisam de um santo que os proteja da fraca safra, dos baixos preços, das viagens para que muitos partem em busca do pão que a ria nega

“mamã! papá! encontrei uma concha fechada, mas não tem nada, é tudo negro”

uma menina de 6 ou 7 anos, espanhola, dizia assim aos pais o que tinha encontrado na ria. em palavras simples, dizia afinal como estava a ria.

o choco rareou, o berbigão cada vez menos, o linguado pouco, a amêijoa quase nenhuma. os preços de venda ….. não os digo que vergonha tenho.

não há futuro na ria e os jovens partem para o bacalhau, os menos jovens também, se não é para o bacalhau é para a pesca noutros países.

quantos não estiveram nas festas do seu santo? não remaram, não velejaram, não viram sequer os seus amigos.

será que o s. paio lhes vai valer? se não for ele, haverá alguém?

é para os pescadores da torreira esta publicação, onde as velas brancas são o desejo de que consigam sobreviver e fazer vida. são senhores da ria e patrões do mar: brava gente.

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(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2016)

postais da ria (185)


bota c …..

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o trabalho começa dias antes com a reparação e pintura das bateiras e dos remos. têm de estar lindas e em condições de correr na grande festa do s. paio, na corrida a remos.

são “bateiras de bicas”, “chinchorros”, maiores que as “bateiras caçadeiras” e já não são muitas. formam-se as equipas, fazem-se as inscrições e recebem-se as camisolas, de cores diferentes por bateira e equipa.

no sábado é a corrida, a mais emocionante e rápida de todas as que se realizam no s. paio: não chega a durar 8 minutos e é só emoção.

espetadas do lado da serra – para os pescadores os pontos cardeais são: mar, serra, baixo e cima – as varas que marcam a posição de partida, cada bateira tem a sua, as equipas partem da zona do guedes – um nome que ficará para além do tempo – e, a remos ou a reboque, vão calmamente ocupar o seu lugar.

há sempre uma ou duas equipas de mulheres, ou com mulheres. numa dessas equipas ia o meu amigo setenove, já no meio da ria, quando lhe pedi para montar a câmara na bateira em que ia, disse que não e indicou-me aquela em que a montei, gritando:

bote na “marisa e andré” que essa ganha!

montar a câmara foi uma aventura, quando saí da bateira não sabia se tinha ficado a gravar ou não – a pressão da equipa, a ondulação da ria com nortada e, no fim, o cinto preso nos golfiões…. foi só stress.

quando vi que tinham de facto ganho a corrida, a minha tensão aumentou de novo: e se não tivesse gravado?

quando cheguei à bateira, um pescador, membro da equipa, sossegou-me:

gravou sim, que eu pus a mão à frente e vi que estava a gravar.

só em casa descansei quando visualizei a gravação e depois de tomar um calmante.

o resultado está aqui, mas não chega aos calcanhares da emoção que se vive a acompanhá-los, quanto mais participando.

nota: as palavras valem pelo modo e contexto em que são ditas. no meio da ria, em plena competição, as palavras nascem das vísceras de cada um e chegam à boca limpas de qualquer outro significado que não seja: bota! o mais são adornos locais. sintam-nas nesse contexto e se, por acaso, da vossa boca saíssem outras, lembrem-se de que o significado seria o mesmo.

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o fime

(torreira; 3 de setembro de 2016)

os moliceiros têm vela (233)


insurrecto!

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o ti abílio carteirista ao leme e controlar a vela

se há alguém que diz esta palavra de uma forma muito especial é o ti abílio fonseca (carteirista), dono do moliceiro “Dos Netos”. ora bem, este ano, na regata do s. paio foi, pelo menos, um insurrecto com ele: eu. ia mais uma pessoa a bordo, o carlos lopes franco, mas não serei eu dizer o que ele é, para além de ser um grande fotógrafo.

feita esta pequena nota, comecemos a aventura. o ti abílio não tinha camaradas para o ajudarem no manobrar do barco, por isso e porque parecia que não teríamos grande vento, perguntei-lhe se podia ir sozinho, comigo e com o carlos. lá fomos – entrámos e saímos do moliceiro no meio da ria!

as fotos que fiz, não muitas, foram de dentro do moliceiro e ao moliceiro com mais idade inscrito nesta regata, 79 anos, que manobrou sozinho o barco. eu e o carlos, recebíamos ordens, mas do género: saiam daí! vão para cima do vento! olhem a toste! baixem a cabeça! ponham os pés nas cavernas! (aqui o carlos olhou-me interrogativamente: que diabo ele tinha vindo de lisboa para fotografar uma regata de moliceiros e estava debaixo de fogo, numa guerra em que nunca tinha estado) …. e outras.

impressionante a agilidade e a força com que, repito, aos 79 anos, o ti abílio corria do leme para as tostes, das tostes para a vela ….. saiam da frente!

espero que os registos fotográficos e fílmico que fiz desta aventura, retratem a fibra de um homem e mostrem como se manobra um moliceiro. se conseguir, por pouco que seja, mostrar algo deste fenómeno sinto-me feliz.

ficam para outra publicação, algumas meditações sobre a regata. o insurrecto ainda está vivo

(torreira; 4 de setembro de 2016)

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dentro do moliceiro “Dos Netos” e com “O Amador” na peugada

construção de um moliceiro – 31 de agosto


era uma vez “Um sonho”

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foram muitos os que hoje vieram assistir ao bota-abaixo do moliceiro “Um sonho”, fotógrafos, amantes do moliceiro, a televisão, autoridades locais, curiosos, gente da terra e de fora…

o barco passou nas provas e regressou de uma breve viagem na ria, em que o mestre zé rito mostrou o que valiam: ele e o barco que acabara de fazer.

queria lembrar aqui que, em 2015 e 2016, 3 novos moliceiros tradicionais foram construídos:

2015

– o “Marco Silva”, feito pelo arrais/mestre marco silva, com o apoio do mestre firmino tavares, filho do mestre agostinho tavares de pardelhó.

2016

– o “Bulhas” feito pelo mestre antónio esteves, da escola do mestre henrique lavoura, também de pardelhó

– o “Um sonho”, feito pelo mestre zé rito, da escola da família raimundo, da murtosa.

são dois anos de luxo para a ria de aveiro. há muito que se não assistia a esta intensidade de construção de moliceiros.

convém lembrar que todos os custos com a construção, pinturas, palamenta e licenças, foram suportadas pelos proprietários, sem quaisquer apoios oficiais.

mais que um barco, o moliceiro, repito-o e repeti-lo-ei tantas vezes quantas as necessárias, é a mais forte expressão da cultura de um povo e um barco único no mundo – o mais belo de todos.

desculpem então se pergunto, e perguntarei tantas vezes quantas as necessárias, porque não é apoiada financeiramente a sua construção?

ao menos para compensar o tempo de antena na televisão.

mas, eu sou dos tais fotógrafos que só aparecem por aqui em certas alturas, nas férias, não têm nada a ver com a terra e só fazem perguntas estúpidas.

“tende-vos calmos que estou de partida.”

viver é ter coisas para fazer e eu tenho muitas para fazer ainda.

parabéns zé rito, boa sorte zé rebelo, obrigado amigos com quem reparti estas últimas semanas e me fizeram sentir mais um entre vós.

estou vivo e recomendo-me.

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(torreira; 31 de agosto de 2016)

(nota: as crónicas que têm acompanhado este diário, são da minha autoria e assumo por elas a inteira responsabilidade, independentemente de quem está nas fotografias ou é nelas identificado. as minhas opiniões são minhas e de mais ninguém)