a beleza do sal (22)


o trilho estreita-se

0 ahcravo_DSC_3483 buíça

diz-se “mexer” (buíça)

o trilho estreita-se
desce entre precipício
e rocha a pique

a espaços um recanto
acolhe o corpo cansado

inesperadas pedras
tombam de onde nunca
ferem mais por isso

mas
não foi sempre assim?

(armazéns de lavos; 2017; mexer)

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os moliceiros têm vela (280)


sonharei sempre

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sonharei sempre
de olhos abertos
atento às palavras

recuso-me a ser
o que cala e aceita
sem questionar

também o sol
que aquece e ilumina
projecta sombra

que dizer da lua
e das suas duas faces

sonharei sempre
de olhos atentos
questionarei

deixo as certezas
para os treinadores
de bancada

levo comigo a dúvida
companheira amiga
na busca de saber

sonharei sempre

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o “A. Rendeiro” com o ti zé rebeço e manel antão

(torreira; regata do s. paio; 2015)

o caminho imperfeito


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lê o livro e entenderás

em coimbra, no dia 11 de outubro, josé luis peixoto em conversa amena e intimista apresentou a sua última obra.

aquilo que de início poderá parecer uma incursão do autor pela literatura de viagens transforma-se, ao longo da leitura, numa obra que mais do que a países nos leva ao interior do mundo de josé luís peixoto.

um livro a não perder.

pelo interesse da conversa entre o autor e a assistência que durou quase duas horas, desdobrei a gravação em 2 vídeos

nota: a ilustração/miniatura que dá capa a este vídeo só será entendível por quem tiver lido, ou depois de ler, o livro

 

postais da ria (224)


durmo mal

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safam-se as redes, limpa-se o lixo

sei demais
mesmo sabendo pouco

vivi muito
durmo mal

não me digas o que és
poderás iludir-me
com o dizeres-te-me

as ilusões são breves
por isso são

o tempo e tu mesmo
me dirão de ti
o que não me disseste

espero-te sentado
enquanto leio

não sei muito
mas vivi quanto baste
e durmo mal

não me embalas
com cantigas

(torreira; 2017)

vim de onde


vim de onde

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Enter a caption

vim de onde quase
tudo ardeu
se de luto os homens
de negro foi a terra
que se vestiu

fumos brancos breves
brotavam das cinzas
memórias do inferno

depois de ter visto
sentido e cheirado
as palavras são só isso

para que não se repita
a espada tem de cortar o fogo
antes de mais fogo haver

há quem ateie agora
o fogo que lhe dá jeito
por mim deixo-os arder nele

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(19/10/2017)

crónicas da xávega (213)


o meu país

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o carregar do saco

o meu país é habitado
mora nas minhas fotos
nas minhas palavras

o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago

o meu país dói-me
e se luto faço
é porque luto
todos os dias

o meu país
é habitado
ainda

o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago

até quando?

(praia da leirosa; 2017)

mãos de mar (31)


há mão humana

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o meu país arde
a galiza arde
há mão humana
do início ao fim

há mão humana
nas alterações climáticas

há mão humana
no abandono
no desleixo
no é meu
aqui mando eu

há mão humana
no crime

há mão humana
nos salvamentos
no heroísmo
na impotência
no espanto

no que resta nas cinzas
onde descobrem nome
há mão humana

há mão humana
há mão humana
há mão humana

não conheço outra

(torreira; 2014)