ana madureira diz jorge de sena


Jorge de Sena | Centenários Culturais (1919-2019)
 
“No mês e ano em que se assinala o centenário do nascimento de Jorge de Sena, figura ímpar da literatura, considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das personalidades centrais da cultura do século XX, sendo a sua obra de ficção mais famosa o romance autobiográfico “Sinais de Fogo”, pretendemos recordar o autor que eternizou a Figueira da Foz do ano 1936.
 
 
Nesse sentido, através do programa para o mês de Novembro’19, o Município pretende reforçar a ligação entre Jorge de Sena e a nossa Cidade. Entre palestras, projeção de filmes, mostra bibliográfica, exposições, declamação de prosa e poesia, teatro e percursos, procuraremos abranger todos os públicos e envolver várias entidades locais, regionais e nacionais, nomeadamente Casino Figueira, Associação Portuguesa de Escritores, Associação Cultural Fila K Cineclube – Viagens Literárias, Associação Viver em Alegria, estudiosos e atores de teatro.”
 
 
“APETECE-ME EXPLICAR, AGORA, AS ASAS “
 
no dia 5 de novembro de 2019, na quinta das olaias, no âmbito das terças com poesia, a biblioteca municipal da figueira da foz, promoveu, entre outros, este momento de encontro com a poesia de jorge de sena, dita por ana madureira.

a beleza do sal (71)


homens de palavra
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morraceira; achegar; enfeitar; 2019

 
serem de pedra
as palavras
salgadas cristalinas
de homens
 
homens de palavra
 
esculpi no tempo
a tua voz o teu nome
fizeste-me fiz-me
no tempo em que
 
continuo de pedra ainda
 
a vida por vezes
é que tem sal a mais
 

crónica no jornal “Notícias de Aveiro”


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Mais grave, não é atribuírem ao arrais Ançã o salvamento do Nathalie, grave é que para o fazerem ignoram completamente os pescadores da Torreira, eles sim os verdadeiros salvadores – e aí temos documentos que suportam a sua presença e coragem.”
O NAUFRÁGIO DO NATHALIE E O ARRAIS ANÇÃ (QUE NÃO ESTEVE LÁ) II
 
Em Dezembro de 2017, já lá vão dois anos, iniciei uma colaboração, com artigos de opinião, que se prolongaria por 13 meses. O primeiro artigo que publiquei tinha o mesmo título deste em que retomo o tema porque, se então demonstrei, e não houve contraditório expresso, que não havia qualquer evidência documental da participação do arrais Ançã no salvamento do Nathalie, fiquei sempre com uma questão em aberto:
 
Como teria começado esta estória que muitos transformaram em “história” com estórias?
 
A resposta encontrei-a num documento que já tinha consultado, mas não na totalidade – pesquisa em documentos físicos começa no seu início, em documentos encontrados pelo dr. Google leva-nos para onde ele nos indicou e, nem sempre, os lemos a totalidade. Foi um alerta com que fiquei.
 
Espero que com a crónica de hoje o caso fique esclarecido e que, se assim não fôr, venham os defensores com documentos coevos e demonstrem o contrário. Infelizmente estou habituado ao silêncio dos que não concordam com o que escrevo, mas também não têm argumentos que suportam a sua discordância.
 
Em resumo, e usando um ditado popular, “quem cala consente”…. era bom era, deixam que o tempo passe e, sem rebaterem teses com argumentos, lá vêm com as suas teorias.
 
Feita esta breve introdução entremos naquilo que importa: o início da “lenda”
 
 
Da história à “estória” vai uma proposta de lei
 
O documento que está na base da atribuição ao arrais Ançã do estatuto de “salvador do Nathalie “ é a Proposta de Lei nº 737-E, do Ministério da Marinha, apresentada à Câmara dos Deputados em 02 de Agosto de 1922
 
 
A proposta visava a atribuição de uma pensão de 100$ mensais, ao arrais Gabriel Ançã e foi aprovada.
 
Interessante a introdução à Proposta:
 
….. Desejava o Ministério da Marinha trazer ao conhecimento dos representantes da nação a longa lista dos actos de abnegação praticados por este benemérito da humanidade e para tal fim tinha encarregado a Capitania do Porto de Aveiro de colher os necessários elementos junto do próprio Ançã, visto que, não sendo funcionário público, a resenha dos salvamentos por ele efectuados, em barco ou a nado, não consta, na sua maior parte, no registo das estações oficiais.
 
Baldado intento, porque tendo o velho pescador considerado como simples incidentes da sua vida, e sem importância muitos desses salvamentos e ainda porque se lhe obliterou a sua lembrança, não pôde relatá-los tendo aquela capitania procedido à consulta de documentos e informações para poder apontar os seguintes factos: …..
 
Seguem-se as intervenções do arrais Ançã em diversos naufrágios, entre os quais se refere o naufrágio do Nathalie, nos seguintes termos
 
Em 1880 encalhou ao sul da Praia da Torreira, com cerração e mau tempo, o vapor francês Nathalie, começando logo a ser demolido pelo mar, tendo-se refugiado a tripulação, e alguns passageiros, nos mastros.
 
Tendo-se organizado um serviço de salvação com os recursos locais, foi Gabriel Ançã arrais do barco, que, depois de ter atravessado mais de 200 metros de perigosíssima rebentação, conseguiu recolher dezoito náufragos, entre estes uma senhora que numa violenta crise nervosa se lhe prendeu ao pescoço, obrigando-o a dirigir a manobra nesta crítica situação …..
 
E aqui começa a estória do “arrais Ançã salvador do Nathalie”. Quem consultar este documento, ainda por cima Proposta de Lei do Ministério da Marinha, e não for mais além, tem a consagração do salvador, com detalhes muito interessantes – então o da senhora francesa é excelente.
 
Apetece dizer, como na canção, que “afinal havia outro”. repito: o jornalista do Campeão das Províncias não escreveu que o arrais Ançã era o arrais do barco – coisa estranha numa notícia tão minuciosa. O Diário do Governo que identifica e distingue os salvadores do Nathalie, não refere o arrais Ançã, sequer para dizer que estando presente e sido o arrais do barco, lhe era destinada outra distinção noutro diploma.
 
Note-se, no entanto, que no preâmbulo da Proposta do Ministério da Marinha se pode ler: “ não sendo funcionário público, a resenha dos salvamentos por ele efectuados, em barco ou a nado, não consta, na sua maior parte, no registo das estações oficiais”. Logo não há registos oficiais de todos os salvamentos, pelo que as fontes de informação complementares, a que a Capitania do Porto de Aveiro poderá ter recorrido, serão a imprensa local ou depoimentos orais.
 
Entende-se agora porque motivo o Ministério da Marinha refere o arrais Ançã como salvador do Nathalie – há uma lei que o consagrou – e porque é que não há registos no Arquivo da Marinha de qualquer intervenção do arrais Ançã no mesmo naufrágio. Azar, mas este foi um dos registos que não foi feito porque ele não era “ funcionário público”, dirão os defensores da tese da sua participação no salvamento, que não encontram qualquer registo oficial que o confirme -, enquanto outros, como eu, dirão: não há no Arquivo da Marinha, mas também não há nos documentos/relatos à data produzidos – reportagem e Diário do Governo.
 
No caso do Nathalie as únicas fontes escritas conhecidas são a reportagem do Campeão das Províncias e o diploma do Governo de atribuição de medalhas de mérito aos cinquenta e um pescadores da Torreira. em nenhum se fala do arrais Ançã.
 
Mas, mais grave, não é atribuírem ao arrais Ançã o salvamento do Nathalie, grave é que para o fazerem ignoram completamente os pescadores da Torreira, eles sim os verdadeiros salvadores – e aí temos documentos que suportam a sua presença e coragem.
 
Em conclusão, a Capitania num acto, penso eu, de boa vontade, para dar maior força ao pedido de atribuição de pensão ao valoroso arrais Ançã, acrescentou, não sabemos como, o salvamento do Nathalie aos salvamentos feitos pelo arrais Ançã. Começa assim a “estória” do salvador do Nathalie ter sido o arrais Ançã.
 
Numa geração, como a minha, a quem ensinaram, na escola primária, que tinha existido uma “Escola de Sagres”, de que hoje ninguém fala e os que falam sabem que nunca existiu, há dois tipos de atitude face à informação: a confiança nas fontes ou a dúvida e pesquisa sistemática, ou ainda a aceitação passiva do que se escreve, ou vai escrevendo.
 
Tenho o maior respeito pelos homens e mulheres dedicados à escrita da chamada “história local” ou “pequena história”, e ao contributo fundamental que dão para o entendimento e conhecimento de factos a que os historiadores diplomados raramente se dedicam, mas lamento que quando vão para além do que conhecem, e alguns com formação de base em ciências exactas, romanceiem de tal forma os factos, que em vez de serem fornecedores de informação se transformem em incrementadores da confusão.
Certamente que, lá onde está, o arrais Gabriel Ançã muito se ri, e continuará a rir, quando lê certos documentos e, provavelmente pensará: estão-se a afogar e agora é que não os posso salvar.
 

crónicas da xávega (327)


no dia a seguir
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leirosa; carregar o saco; 2019

 
não bastava ser inverno
fizeste que o fosse
também dentro de mim
 
o amor por vezes desacontece
devia sabê-lo
 
não sou cínico
não te agradeço a lição
 
invento o sol
vou ver o mar
 
entro em mim
fabrico um verão