postais da ria (260)


torreira

torreira é nome
de mulher
feito terra

escuto a sua voz
a camaradagem
o ser completa

torreira é o mar
os barcos
as companhas

é o rio as gentes
os saberes
o pouco de tanto

o mais por belo
que seja
vazio de corpos
é paisagem

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(torreira; safar redes; 2018)

postais da ria (259)


vêm devagar

vêm devagar os amigos
chegam pela mão da memória
por vezes tarde demais

partem depressa os amigos
olho-os como se ainda
mas é tarde muito tarde

sei que partiram alguns
cada dia mais
enquanto eu vou resistindo

enquanto passear pelos dias
levo-os pela mão
e deixo-os convosco à conversa

nada mais posso fazer

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o falecido manuel vieira (valas)

(murtosa; regata do bico; 2007)

 

postais da ria (258)


é tarde

enevoado tempo
o das memórias

acordo e recordo
não consigo
esquecer
o que me lembra
ao adormecer

sofro de memórias
de violentados dias
fracas palavras
pobres gestos

vem vazia a rede
vem vazia
vem

é tarde

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alar com salvador rilho (chalana)

(torreira; alar da solheira; 2010)

 

crónicas da xávega (260)


cacilda

quantos instantes tem o ano
cacilda
quantos anos um momento

perdi a noção do tempo
cacilda
voou como as gaivotas
em torno de ti e são muitas

o tempo tem muitos tempos
cacilda
é enorme o tempo dos amigos
o teu tempo

há quanto tempo te conheço
não sei

no esvoaçar dos dias salgados
perdi a noção do tempo
é infinito todo o instante
se ao pé do mar dos amigos

cacilda
neste instante cabem muitos anos

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cacilda brandão (gamelas), mulher de mar e da maior família da torreira, os gamelas

(torreira; 2011)

 

crónicas da xávega (259)


mergulho no tempo

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tudo o que sou
fui para ser

gostar do que sou hoje
é aceitar o que fui
no tempo que me coube

há bois na praia
gestos e fazeres recriados
memória viva

olhar o ontem
é ver mais além
é ser de novo

mergulho no tempo
refresco-me de mim

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(torreira; recriação da xávega;2013