a beleza do sal (126)


silencio
as palavras
planto-as algures
no canto mais luminoso
do jardim que tenho
para esse fim
(o fundo do bolso)

hoje não é dia de abrir
janelas
nem de as deixar voar
quero-as todas
para mim

e ficar assim
em silêncio
a pensar
tão somente
porque sim
morraceira; 2019

postais do arroz (16)


ser ainda vertical
saber o valor da palavra
dada

ler nos olhos
não nos lábios

dizer não
com a convicção
que dizer sim
seria verdadeira
negação

resistir e sobreviver
sabendo que os valores
não têm cotação na bolsa
se bem que pela sua venda
muitos encheram o bolso

ser eu ainda
apesar de

crónicas da xávega (489)


sê grato às portas que te abrem
e às que te fecham também

ser de todos é não ser de ninguém
de ti primeiro que todos quiseste ser

fizeste-te dizendo não calando
disseste presente ao mau tempo

sê grato às portas que se fecham
e às que te abrem és tu em todas

sê grato à diferença
como o vento despenteia as ondas
torreira; 2010; a escolha

a memória dos dias 19012011


agostinho trabalhito

do agostinho trabalhito (canhoto) muito haveria que contar, mas fico-me pelos últimos anos.

trabalhou na companha do falecido zé murta e trabalha agora na companha do marco. a corda ao pescoço serve para atar a manga antes do calão e, assim, impedir que alador “coma” e quebre o calão.

pelo caminho lavou pratos num restaurante e dedica-se à pesca à cana (ainda de bambu) para apanhar peixe mais “grosso” que aumente a dispensa da família ou para vender aos restaurantes.

dos muitos irmãos que tem não posso deixar de recordar dois já falecidos: o zé trabalhito e ti antónio trabalhito, ambos homens de mar, ambos homens da torreira

( torreira_companha do marco_2010)