“Sei que os figos, na fruteira …” de josé rui teixeira
crónicas da xávega (624)
“em pequeno se me perguntassem…” de helder magalhães
“Vazio” de josé manuel barroso
“ELOGIO DA DIVERGÊNCIA” (2) de elisa scarpa
O moliceiro é património de quem o pagou
“a pátria onde Camões morreu de fomee onde todos enchem a barriga de Camões! “
Almada Negreiros
Duas histórias
Era miúdo quando o conheci e enquanto o avô construía um moliceiro ele copiava os moldes e fazia miniaturas e ajudava no que podia. Aos treze anos, como timoneiro de um moliceiro com uma tripulação jovem, quase ganhou a regata da ria. Quando teve idade para começar a trabalhar, foi na ria que fez vida. Quando pôde, junto com o avô construiu o seu moliceiro.
Entre as artes da ria e as campanhas no alto mar foi ganhando a vida, nunca perdendo uma regata de moliceiros. Até que um dia comprou o seu.
Dois jovens, dois torrecos, duas apostas no futuro do moliceiro.
O primeiro, em comentário a uma publicação que fiz no facebook, escreveu:
“Os moliceiros só sao lembrados nos dias de regatas e dois ou três dias depois de cada uma delas.
É pena mas é o que temos
Um abraço a si senhor cravo e muita saúde”
Por essa altura, antes ou depois, o moliceiro foi posto à venda.
O segundo, quando os meios de comunicação noticiaram que “ o Barco Moliceiro é Património da Humanidade”, deitou o moliceiro à ria, içou vela, festejou e divulgou um vídeo em que a alegria era transbordante.
Dois jovens, dois sonhos que não merecem ser enganados e deixados por conta própria, a alimentar o sonho com o suor de cada dia, enquanto nas varandas do poder se enche o peito e os negócios as gavetas.
Não merecem ser enganados, mas apoiados e incentivados, eles e todos os que como eles, seja qual for a idade, amam o moliceiro e a ria aberta – a única onde há moliceiros.
Isto só para citar dois casos, que mais haverá.
“Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro “
Vem isto a propósito da candidatura apresentada pela CIRA ao Instituto do Património Cultural e mais recentemente à UNESCO, do projecto “Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro “ e que ficou inscrita no Património Cultural Imaterial Nacional e da Humanidade.
Leia-se bem: “Património Imaterial”. O moliceiro é imaterial? Quem acha que, a partir da aprovação do projecto pela UNESCO, o moliceiro é Património da Humanidade faça a seguinte experiência: dê uma cabeçada na proa do moliceiro e veja se doeu ou a atravessou como se nada fosse. Se doeu, meus amigos, não é imaterial e se não é imaterial não é Património da Humanidade. Simples não é?
No Património Cultural Imaterial, segundo o Instituto do Património Cultural, inscrevem-se “expressões orais de transmissão cultural e das técnicas e saberes tradicionais, e da promoção do registo gráfico, sonoro e audiovisual do Património Cultural sem suporte material”, assim sendo jamais o Barco Moliceiro pode ser inscrito no Património Cultural Imaterial, mas a arte da carpintaria naval que o constrói, essa sim, e foi essa que foi inscrita na UNESCO. Aparecer na designação da candidatura “Barco Moliceiro” é como a cereja no cimo do bolo, pura decoração (aparentemente, mas fico por aqui porque em artigo anterior já disso falei).
O Barco Moliceiro poderia, quando muito, ser inscrito no Património Cultural Material Móvel,e era por aí que deveria ter sido conduzida uma candidatura, se houvesse interesse efectivo em que o Barco Moliceiro fosse Património da Humanidade.
Mas nem tudo são más notícias a “ Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro” é Património da Humanidade, ficou definido o que é um Barco Moliceiro(os barcos que andam nos canais de Aveiro também o são), está preservada a tradição da construção. Haja quem tenha dinheiro para os mandar construir.
Resumindo e concluindo, para quem quiser mandar construir um moliceiro, e usando um ditado popular, “Tudo como dantes, quartel general em Abrantes”. Ou será que, face à aprovação, os Municípios da Beira-Ria vão conceder apoios directos e a fundo perdido, com condições claro, a quem quiser mandar construir um moliceiro? O custo de um Barco Moliceiro rondará de 20.000 euros, completamente aparelhado.
É esta a questão de fundo e da qual pode depender a sobrevivência do Barco Moliceiro, ou somente dos “turisteiros” – depois da candidatura aprovada são “Barcos Moliceiros adaptados para fins turísticos” – que circulam nos canais de Aveiro e geram fluxos financeiros consideráveis.
CIRA e Municípios da Beira-Ria a bola está do vosso lado e com ela o futuro do Barco Moliceiro.
artigo publicado no jornal “Notícias de Aveiro” de 23 de janeiro de 2026
https://www.noticiasdeaveiro.pt/o-moliceiro-e-patrimonio-de-quem-o-pagou/
(regata do s, paio; torreira; 2014)
https://www.noticiasdeaveiro.pt/o-moliceiro-e-patrimonio-de-quem-o-pagou/


