“Mitos e figurações do diabo” – o registo


registo do colóquio: “Mitos e figurações do diabo” com José Manuel Anes, Saliu Djau e Paulo Mendes Pinto

do catálogo da exposição

Cada um vê mal ou bem… conforme os olhos que tem!

“O Diabo é um ser de razão. Não se trata de uma criatura irracional. Pelo contrário, é o fruto dos esforços do espírito humano para encontrar uma explicação lógica para o problema do mal.” Georges Minois

A figura do Diabo, personagem do mundo do fantástico, é omnipresente na longa história da Humanidade. A sua origem perde-se no tempo, no imaginário popular e no quotidiano das gentes, assumindo as mais diversas formas, seja nos contos, narrativas e lendas, seja nas representações pictóricas e escultóricas. Ao longo de milénios, o arquétipo do Mafarrico foi sendo paulatinamente delineado, reinventando-se não só através da tradição oral e da literatura, mas também pela assimilação das conceções pagãs e da iconografia judaico-cristã. Esta personagem rebelde, que encarna o grande opositor cósmico, soube adaptar-se a todas as civilizações e a todas as mutações.

Um “Ser” do sobrenatural, transversal às mais variadas culturas mundiais e que se manifesta na cultura popular portuguesa, através do artesanato, numa multiplicidade de interpretações, que diferem de região para região. Esta forma popular de expressão artística, numa miscelânea entre o sagrado e o profano, retrata o quotidiano e a criatividade dos artesãos que modelam essas figuras demoníacas em metamorfoses de cores aguerridas.

Após tomar conhecimento da Coleção de Diabos de José Santos Silva e de perceber o valor artístico daquelas admiráveis peças de estatuária de expressão popular, imbuídas de criatividade, nasceu a ideia de conceber e realizar uma exposição

O desafio era grande: como abordar a temática de forma despretensiosa e sem ferir suscetibilidades? Que critérios conceptuais seguir no discurso expositivo? Num sistema de comunicação não-verbal, como “dialogar” com o público proporcionando-lhe um espaço de experiências?

Em resposta a todas estas questões intuímos que o melhor caminho era associar o figurado à tradição dos provérbios populares e às designações que este Anjo-caído assumiu ao longo dos tempos. Nas nossas pesquisas deparámo-nos com um número infindável de provérbios que aludem ao Diabo e ao Inferno, compelindo-nos, numa análise crítica, a selecionar os que melhor se coadunassem com as peças a expor. O mesmo se passou com os nomes atribuídos a este Ser Infernal – Demónio, Lúcifer, Satanás, Baphomet, Cornudo, Tinhoso, Belzebu, entre muitos outros – que povoam o imaginário e as crenças do povo. São estas gentes que exorcizam os seus medos transpondo-os para a arte do barro, modelando notáveis peças, umas seguindo os cânones mais formais com figurações andróginas e animalescas, enquanto outras sobressaem pelo seu caráter jocoso, brincalhão e provocador, qual Diabo tentador.

Da confluência destas ancestrais tradições populares aconteceu a exposição A Figueira tem o Diabo à beira. Anjos Caídos, Figuras Demoníacas e Seres Infernais, não sendo nossa pretensão conceber uma exposição sobre o figurado popular, mas tão somente partilhar com o público uma fascinante Coleção de Diabos.

Anabela Bento

Museu Municipal Santos Rocha

Câmara Municipal da Figueira da Foz”

do colóquio fica o registo possível