postais da ria (307)

postais da ria (307)


cigano dos afectos
 
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descanse em paz ti antónio

regresso e a minha ausência
foi também a ausência de outros
definitiva
 
como está o teu pai
partiu em outubro
 
você já cá não vem desde quando
e são avcês doenças que
 
regresso e não são só abraços
sorrisos palavras boas
 
um dia quando não regressar
serei eu o ausente
 
sim
mas de uma comunidade onde
por não estar sempre presente
só se perguntará por mim
se perguntarem
depois
muito depois de eu ter partido
 
destino de cigano dos afectos
 
(torreira; 2016)
 
postais da ria (306)

postais da ria (306)


cravo qualquer coisa
 
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torreira; 17/06/2019

 
guardo as palavras
para depois
de hoje ficam apenas
 
a primeira imagem
e a primeira mensagem
de boas vindas
 
eu conheço-o chama-se
cravo qualquer coisa
já me fotografou na ria
 
é talvez esta a melhor
saudação
vinda de um miúdo
 
terei sido isso
quando ele homem
de mim se lembrar
se
 
cravo qualquer coisa
é tanto
 
 
postais da ria (305)

postais da ria (305)


o que é cravo?
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torreira; safar redes; porto de abrigo; 2013

não escrevo o teu nome
falo de ti
como se da ria do mar
memória de um tempo
 
agora que o retornar
se aproxima
são mais fortes os gestos
os silêncios
as bateiras
as cabritas as redes
a ausência
 
imagino-te aqui
onde estás sempre
sem nunca teres estado
mas és tantos quantas
as imagens de ti
 
não escrevo o teu nome
porque não o podes ouvir
para me responderes
como era costume
 
o que é cravo?
os moliceiros têm vela (360)

os moliceiros têm vela (360)


um povo que faz
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regata da ria; 2010

pequena a terra
para tão grande povo
um povo que regressa
para ver voar
o sonho sonhado longe
um povo que sonha
sem ter partido
e é inteiro aqui onde
um povo que resiste
ser um barco tudo isto
é ser moliceiro
vela içada sobrevoar
a ria como se ave
bandeira
de um povo que faz
SONY DSC

regata da ria; 2010