os moliceiros têm vela (477)


era uma vez no oeste

falarei ainda do
silêncio
da memória de 
ter sido
do sopro no teu
ouvido

de dois corpos 
nus 
de duas sedes
de duas fomes
de um só desejo
no mesmo beijo

falarei ainda do 
silêncio

até que não me
oiçam

até que dentro de ti
me sintas

e  seja o nosso
o grito

(murtosa; regata do bico; 2010)

postais da ria (404)


infinitas manhãs

cais do bico; murtosa
infinitas manhãs
de gestos suspensos
no vazio de não haver tecto

infinitas manhãs
de impiedosas mãos desfiguradas
num enclavinhar de dedos
na lisura das paredes

infinitas manhãs
de doridos olhos encovados na palidez do rosto
arrastando-se fundos pelo dia imposto

infinitas manhãs
porque não me deixais dormir

cais do bico; murtosa

os moliceiros têm vela (468)

os moliceiros têm vela (468)


a luz corta o silêncio

a luz corta o silêncio
uma vela poisada na memória
acende os dias por

iluminado tempo este
que o silêncio habita

o sol fere magoa sara
a luz quebra-se na ria

o moliceiro cresce no vento
é ave e voa 
é a luz que corta o silêncio

(regata do emigrante; cais do bico; 2008)