os moliceiros têm vela (436)


inocentes

ti abílio carteirista; cais do bico; 2019
 pedem-me que cale
 que não ligue
 
 denunciar é dar palco
 dizem e quedam-se
 no seu saber calado
 
 há a poesia a música
 o cinema o futebol
 há a cultura costas largas
 
 há o que não nos divide
 porque não é relevante
 há o silêncio que consente
  
 peço-lhes que falem  
 que digam o que pensam
 se existem além do pensar
  
 calados críticos de tudo
 aí estarão no fim do caminho
 limpos sorridentes e isentos
  
 acabados de nascer e ainda
 por lavar 

os moliceiros têm vela (431)


português emigrante

ti abílio; regata do bico; 2019
 
 partiram de bolsos vazios
 e o país no coração
 
 sonhavam uma vida melhor
 uma casa a velhice diversa
  
 foram dos primeiros e  
 voltaram
 e no voltarem foram
 os últimos
  
 filhos e netos semearam
 que outras raízes criaram
  
 mais que uma bandeira
 são um povo
 orgulhoso das suas origens
  
 é uma honra ter entre eles
 tantos amigos 

os moliceiros têm vela (429)


é tão fácil

murtosa; regata do emigrante; 2012
 venderás o peixe no mercado
 aos fregueses fiéis
 
 
 comprar-to-ão por comodidade
 hábito e cansaço
 
 
 às quintas montarás banca
 na feira venderás coisas várias
 
 
 outros caminharão à tua sombra
 serás o chefe não o líder
 
 
 nas terras piquenas é tão fácil
 parecer grande 

os moliceiros têm vela (419)


carta aos donos da terra

murtosa; regata do emigrante; 2007
ser do mundo cidadão
é destino de quem nasce
em pobres terras
que mundo também o são

ah donos da terra
guardados os palmos
de terra na terra
de que donos vos dizeis

só essa vossa será
porém a ela fugis
porque de tão vossa
a não quereis

à terra o que da terra é
digo

terra que vos ofereço
para que seja toda vossa e nela
vós todos que donos sois

quereis a paz
aí a tereis

ti zé formigo


morreu ontem, 15 de agosto de 2020, o ti zé formigo (67 anos)

era um bom amigo, do que lhe conhecia, admirava a dedicação à esposa – em cadeira de rodas – e a alegria

tinha defeitos? quem não tem… fico triste e penso que a murtosa também

à família, em particular à esposa, o meu silêncio com um sorriso do ti zé dentro – lembrá-lo-ei sempre assim

ao ti zé formigo

não ti zé

não estou na murtosa

nem você agora


era nas regatas de moliceiros

ou bateiras

ou no são paio

que nos encontrávamos

havia sempre um abraço

um sorriso uma salvação


uma salvação ti zé

agora que ninguém o salva

lembro-me do tempo

em que na murtosa

as pessoas se salvavam


vão partindo os amigos

a família desse tempo

e eu vou partindo aos poucos

bocados de mim que se foram

pedaços de outros

que comigo ficam e são raízes


ti zé

você é uma raiz

que fica comigo

abraço do “senhor cravo”

(murtosa; 2019; figueira da foz; 2020)