conversas murtoseiras (4)


nascido na década de 40 do século XX na murtosa, onde viveu, francisco faustino é testemunha de um tempo que urge preservar.

veio ao mundo junto à ria e é descendente de gentes do mar, a sua vida profissional e o exercício pleno e permanente da cidadania, aliados a uma memória invejável e uma capacidade invejável de comunicação, tornam-no uma fonte de saber que não se esgota nas conversas que ficam registadas nos 4 vídeos.

o que destas conversas mais fica é o muito que haverá por saber e registar.

falar com o chico é um prazer e uma lição. isso aprendi

de 4 horas de conversa, ou melhor, de lição, este é o último registo.

conversas murtoseiras (2)


a memória de um tempo, de um lugar, de uma gente.

a nossa memória contada por francisco faustino em 23 de junho de 2018

aqui se fala do moliço, da emigração, de um tempo de águas mais doces

de seres e estares que não voltam e por isso são memória a não negar, esconder ou ignorar.

somos nós, agora ainda, frutos de

 

crónica de setembro no “Notícias de Aveiro”


A labrega do segredo

labrega museu ilhavo

a “labrega murtoseira” em exibição no museu de ílhavo

o segredo é a alma do negócio”

(ditado popular)

Que seria de nós sem memória? A nossa, a que vamos encontrar deixada por outros, seja ela qual for, faz de nós mais sabedores e conhecedores do que somos. É de memórias esta crónica.

Em 2009, enquanto convidado das VII Jornadas da Gândara na Praia de Mira, apresentou-se-me uma jovem aveirense dizendo estar a preparar tese de mestrado sobre “Embarcações Tradicionais da Ria de Aveiro”. Porque sempre entendi que saber escondido é saber perdido, apresentei-a a amigos com trabalho na área e, mais tarde, desafiei-a a fazer a tese sobre a última “labrega murtoseira” a trabalhar na ria.

A “Rosinha” do falecido Ti Manel Viola (Calado), da Bestida, que ainda praticava a arte do saltadoiro e cuja companha era, à data, formada pelo Ti Manel e o filho Alfredo, com quem mais tarde fui à pesca e das 8 horas que com eles passei na ria resultou um fotofilme com descrição da arte e que pode ser visto no youtube.

A tese foi defendida, estive presente, embora não tenha conhecimento de qualquer publicação, em papel ou na net, que a aborde.

Em Janeiro deste ano, na minha crónica “O moliceiro património nacional, quando?”, abordei o facto de a “bateira avieira”, bastarda da “labrega murtoseira” já ser património nacional.

miniatura

a miniatura que tenho em minha posse e foi feita pelo artesão da torreira ti henrique afonso

Numa das minhas “investigações” a propósito de um tema que abordarei em futura crónica, contactei um mestre construtor de Pardilhó e, ao longo da conversa que tivemos, disse-me ter-lhe sido encomendada a construção de uma “labrega murtoseira” tendo lhe sido apontado como modelo uma existente na Costa Nova. Disse-lhe que não precisava de ir tão longe, que tinha uma ao pé da porta, a “Rosinha” dos Violas, na Bestida. Que desconhecia, disse, mas que iria ver.

rosinha

a “Rosinha” a sair para a pesca, em 2010

Em Junho quando me encontrava de férias na Torreira fui visitar o mestre, para colher informações de que necessitava. Lá estava a “labrega murtoseira” que fotografei e filmei no estado em que estava. Concluído o objectivo que me levara ao estaleiro, na despedida foi-me dito: “Olhe que as fotografias e o filme não podem ser publicados, são segredo. Já cá esteve f…. e foi-lhe dito isso, por isso não publique nada”.

A informação caiu-me mal, não por vir do mestre, que respeito, mas por ter origem em alguém que se assumiu como representante da Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo, de que sou sócio, que encomendara a construção para posterior oferta ao Museu.

As fotos e o filme, breve clip de vídeo, continuam em “segredo”. Por respeito ao mestre e à palavra que lhe dei. Não as publico até acontecer o que vai acontecer. E o que é?

No dia 8 de Agosto, dia de aniversário do Museu de Ílhavo, tive de ir fazer um tratamento a Aveiro e no regresso, lembrei-me de ir ao Museu. E lá estava a “labrega murtoseira” em exibição. Em conversa com o Professor Álvaro Garrido soube que estava a ser editado um filme sobre a construção da embarcação.

Estava explicado o segredo. Entendi também porque é que há alguns anos quando foi construída pelo mesmo mestre uma “ílhava”, estando eu perto e sendo “amigo” dos promotores da construção, e sócio da Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo, nada me foi dito.

Se, como diz o povo, “o segredo é alma do negócio”, se a construção da “labrega murtoseira” e, por dedução a da “ílhava” foram feitas em segredo, será que há negócio por detrás? No sentido estrito do termo creio que não, que não se trata de questões monetárias, mas de um outro negócio “ o do nome e da imagem”.

Quem me conhece sabe que dou tudo o que sei sem qualquer problema – o saber só vale se distribuído – também sabe que não precisando de fazer carreira, nem andando atrás de títulos ou prebendas, quando não gosto de certas atitudes manifesto a minha discordância.

Enquanto sócio da Associação dos Amigos do Museu de Ílhavo e amigo de alguns dirigentes, que me conhecem bem – penso eu – sinto-me defraudado.

A construção de uma embarcação, extinta ou em vias de extinção, é um acto que deve ser divulgado, com as devidas cautelas para não perturbar o mestre, com acompanhamento de técnicos ou membros da entidade promotora, mas DIVULGADO. A museologia moderna é aberta e viva. É assim que o Museu de Ílhavo a entende.

O segredo será desvendado e os “artistas” subirão ao palco, o teatro do mundo apresentará mais uma peça e haverá aplausos da plateia. O mundo por detrás do palco, sabedor de todos os segredos, continuará de mãos caídas e irá sentar-se ao lado da “labrega murtoseira”, quem sabe lá dentro, e talvez lhe pergunte: serás tu a única labrega?

Como já escrevi algures, e era um prenúncio do que aqui deixo “a usura é coisa de financeiros, o saber só conhece a partilha”. Grande confusão, ou não, por aqui anda.

( a crónica  publicada

https://www.noticiasdeaveiro.pt/a-labrega-do-segredo/ )

conversas murtoseiras


ao fazer os registos das memórias de francisco faustino procurei, como é costume, fixar para memória futura as vivências ligadas à sua larga experiência de vida murtoseira.

a designação “conversas murtoseiras”, atribuída aos registos efectuados, foi sugerida por ele e vão ser objecto de uma série de clips temáticos e de dois clips que retratarão as duas conversas que tivemos e que duraram cerca de 2 horas cada.

o depoimento de vida pessoal que lhe assaquei, e a seguir transcrevo, é mais uma “conversa murtoseira” que mostra a riqueza humana do francisco e me faz sentir feliz por poder contá-lo entre os meus amigos de infância e da vida.

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francisco valentim tavares faustino

nascido na primeira metade do seculo XX, há 76 anos, quis o acaso que tal acontecesse numa família com raízes no mar e na ria.

no mar procuraram modo de vida os seus antepassados arrais tavares, sebolões e faustinos.

neto do arrais chico (francisco faustino) e sobrinho do arrais joão faustino, acarreta essa herança que lhe moldou o espírito.

na ria labutou o seu bisavô materno que foi pescador até partir para o brasil, em finais do séc XIX, onde procurou na pesca no amazonas a sua árvore das patacas.

o local em que viu pela primeira vez a luz do mundo foi o cais do bico, numa casa mesmo em frente do antigo ancoradouro que em 1937 foi substituído pelos actuais cais.

esta proximidade com as águas da ria proporcionaram-lhe um permanente contacto com as gentes que nela procuravam sustento.

na taberna de carlos faustino, seu pai, conviveu com várias gerações de marítimos que nela iniciavam e terminavam a faina da apanha do moliço ou da pesca das mais variadas artes; na taberna compravam os camaradas os necessários géneros alimentares e o vinho para uma semana ou apenas um dia de trabalho. nela adquiriam igualmente os aprestos para o barco: roldanas, pregos, ganchos, podoas com que iam substituindo ou reparando peças deterioradas. relembra ainda que quando, anualmente, o barco necessitava de amanhação (grande operação de conservação) era nas tabernas que adquiriam o breu, a madeira, os pregos zincados, o piche o serrim, o escopeiro e tudo o que era necessário para uma boa reparação do barco.

o contacto com os camaradas (arrais do barco e ajudante) acontecia também aquando do regresso da ria para o descanso do fim de semana. repartidos pelas diversas tabernas do bico, (três nos anos cinquenta), contavam as suas histórias da semana de trabalho que não raro terminava com uma recachia entre barcos, na qual mostravam as suas habilidades de bolinadores. conversa puxava conversa e secava a garganta que era refrescada com umas receitas (vinho com pirolito, na altura engarrafado em garrafa fechada à pressão com gás cítrico por uma bola de vidro que era usada como berlinde pela pequenada).

todo este contacto com os camaradas dos moliceiros e dos berbigoeiros – os pescadores que tinham horários condicionados com a abertura e fecho do mercado de peixe em pardelhas não faziam tanto convívio nas tabernas – foi enriquecendo o seu conhecimento das artes e das gentes. se mais convívio não aconteceu ficou a dever-se à necessidade de fazer os trabalhos de casa e estudar alguma coisa, já que no início dos anos cinquenta os seus pais, na expectativa de preparar ferramentas de trabalho futuro para os filhos, apostaram na formação liceal. a frequência do colégio são joão de brito, dirigido pelo saudoso padre alberto, e o ingresso na escola do magistério primário em viseu levaram a um certo afastamento destes convívios diários.

após um breve período em que leccionou na escola da murtosa, foi incorporado no serviço militar, tendo cumprido uma comissão de serviço no niassa, como oficial miliciano, comandando tropas de guarnição normal.

regressado de moçambique reiniciou a actividade como docente. cedo deu conta que a passagem por áfrica lhe roubara a calma necessária para desempenhar a profissão, pelo que resolveu pedir exoneração da função pública e iniciar uma carreira de bancário.

é de referir que também fez parte da comissão administrativa da câmara municipal da murtosa,  nomeada após a revolução de 74 até às primeiras eleições livres em 1976.

após a aposentação fez uma incursão na vida política tendo concorrido à vereação da câmara municipal da murtosa. eleito, desempenhou funções de vice presidente por cerca de quatro anos. ainda na área autárquica assessorou, nos últimos anos do século XX, o presidente da câmara de estarreja, dr. vladimiro silva.

destas experiências políticas guarda bons e maus momentos.

para além desta participação na vida pública, a sua actividade cívica desenvolveu-se igualmente nas colectividades do concelho tendo, para além do apoio nas mais variadas ocasiões, sido director nas mais antigas. em devido tempo assumiu a presidência do marítimo, do CRM (clube de pardelhas), do ACDM e da rádio saldida fm. actualmente é presidente da assembleia geral do CRM e da rádio saldida.

na rádio saldida criou e apresentou um programa semanal com o título “roteiros culturais”, no qual se davam a conhecer os vários aspectos da cultura murtoseira, com especial destaque para o seu ex-libris, o barco moliceiro, para a casa murtoseira (casa de alpendre) e para o seu artesanato e artesãos.

no ACDM para além de director assumiu por algumas épocas a condição de treinador de andebol.

no deambular pelas quatro últimas décadas do século XX viu as grandes alterações que aconteceram na ria, principalmente na arte do moliço: primeiro a dureza do trabalho e a intransigência das autoridades fiscalizadoras e reguladoras da actividade na ria; depois a sedução das américas e por último as novas formas de adubação dos terrenos foram condenando a arte.

os camaradas fugiram para outras paragens e sem mãos de trabalho os barcos deixaram as velas em baixo, as amanhações ficaram por fazer e pelas margens ou no fundo da ria os moliceiros foram morrendo. de 1008 moliceiros registados em 1935, 164 em 1969 e uma dúzia em 1987, se não contarmos com os moliceiros e pseudo moliceiros que na cidade de aveiro transportam os turistas pelos canais, hoje contam-se apenas os que fazem as três grandes regatas da ria, murtosa-aveiro, regata da semana do emigrante no bico e regata das festas do são paio, uma dúzia de barcos.

para francisco faustino o mar e a ria foram sempre uma grande atracção. o ingresso no colégio proporcionou-lhe a inscrição no centro de vela que a mocidade portuguesa tinha na torreira. aí aprendeu a arte de velejar, tendo participado em numerosas regatas tripulando lusitos, sharpies de 9 e 12 metros, snipes e vauriens entre outros barcos de aprendizagem e de competição.

nos anos oitenta, quando os barcos começaram a ser abandonados pela falta camaradas, promoveu a recuperação de um moliceiro afundado no cabo de sobeira, propriedade de seu pai. sujeito a uma grande amanhação num estaleiro de pardilhó, foi nele que com amigos vogou nas águas da ria em fins de semana ou em tempo de férias. nele, atracado numa borda, se fizeram muitas caldeiradas à antiga. nele teve o prazer de bolinar, de sentir a sua genica, um tanto diferente da dos barcos de competição. uma picardia entre o abílio “carteirista”, na altura era o arrais oficial do barco, e outros arrais que se dedicavam ao transporte de junco para os cais, resultou num acto de vandalismo sobre o barco que viu o fundo todo perfurado com vara ou estaca afiada. na iminência de novos vandalismos ou da indisponibilidade do arrais de manter o trato do barco abandonou o gosto de ter um moliceiro. a sua manutenção ficava muito cara para quem não tinha qualquer receita. a cova do galinha, no chegado foi o seu cemitério. o prazer de desfrutar um moliceiro é igual à pena por abandonar o projecto.

se a sua relação com a ria foi forte, com o mar não o foi menos.

nos tempos ainda de estudante em que não havia ponte da varela, a rapaziada em férias reunia-se na praça de pardelhas para partir em caravana de bicicletas para a bestida a fim de apanhar a lancha das duas horas. travessia feita, pé em terra na rampa junto ao guedes, a maioria rumava ao monte branco, praia da moda e fina. salvo umas poucas excepções francisco rumava sempre ao mar, já que ir à praia sem tomar banho ou nadar no mar não era para ele ir à praia.

no mar podia apreciar a faina dos homens, cerca de quarenta nos barcos de quatro remos, dos moços que transportavam os rolos de cordas pendurados num bordão, da ida e vinda das juntas de bois, das ordens dos arrais, da saída da rede e da sua abertura promovida pelo arrais de mar, da recolha do peixe acomodado em cabazes, da separação do peixe de renda, o mais valioso, do leilão feito no areal, do transporte dos cabazes em carros de largas rodas de madeira puxados por bois até ao cimo do fato da carneira, onde os comerciantes tinham as suas viaturas, ou até à ria onde se encontravam os armazéns de salga.

toda esta lida o provocava, mas a saída do barco para largar a rede era o que mais o atraía. no tempo em que o tio joão faustino foi arrais na torreira de pouco lhe valia pedir para ir ao mar, pelo que por algumas vezes se escondia no barco para poder sair para o mar. o prazer suplantava o risco.

recorda uma vez em que o mar picado foi-se tornando cada vez mais perigoso com o avançar do barco. viu então como os pescadores o temiam. choravam e rezavam. um deles, menos afoito, virou-se para francisco e disse que se estivesse no seu lugar estaria não no barco mas ao abrigo da capela do s. paio. quando recorda esta cena vê que nesse tempo encarava o mar com leviandade. nessa altura terá começado a respeitar o mar e a temê-lo quando e quanto necessário.”

o primeiro clip de vídeo