como dói fundo
a ferida superficial
(regata de bateiras à vela; cais do bico; 2019)
não sei quantos mortos são precisos
para encher um barril de petróleo
a morte é inteligentemente distribuída
ao domicílio os mortos servem-se frios
à mesa do lucro e do deificado dólar
os pastores conduzem o rebanho
para o abismo e as ovelhas aplaudem
incontáveis os corpos que cabem
numa vala comum
nas televisões especialistas ensinam
a investir na bolsa em tempo de guerra
a transformar o horror que silenciam
em negócios certos em ganhos seguros
deus ainda não está cotado em bolsa
não sei quantos mortos são precisos
para encher um barril de petróleo
(moliceiros; esperar pela maré; regata do emigrante; cais do bico; murtosa; 2007)
a minha geração
à rasca
passávamos de ano
à rasca
chegávamos a horas
à rasca
escondíamos o namoro
à rasca
bebíamos um copo na tasca
à rasca
fumávamos um cigarro
à rasca
fugíamos da polícia
à rasca
distribuíamos comunicados
à rasca
comprávamos livros proibidos
à rasca
conquistámos a democracia
não a cederemos a gente
rasca
(kitesurf; mamaparda; bunheiro; 2013)
a eugénio de andrade
não há palavras
interditas perante o horror
netanyahu assassino
bombas e mísseis
lavraram a terra
que o sangue regou
nos escombros de gaza
um braço nasce
uma perna perdeu-se
desumana lavoura esta
semeadura de mortos
colheita de amputados
netanyahu assassino
não há palavras
interditas perante o horror
(moliceiros; regata do emigrante; cais do bico; murtosa; 2014)