ti zé formigo


morreu ontem, 15 de agosto de 2020, o ti zé formigo (67 anos)

era um bom amigo, do que lhe conhecia, admirava a dedicação à esposa – em cadeira de rodas – e a alegria

tinha defeitos? quem não tem… fico triste e penso que a murtosa também

à família, em particular à esposa, o meu silêncio com um sorriso do ti zé dentro – lembrá-lo-ei sempre assim

ao ti zé formigo

não ti zé

não estou na murtosa

nem você agora


era nas regatas de moliceiros

ou bateiras

ou no são paio

que nos encontrávamos

havia sempre um abraço

um sorriso uma salvação


uma salvação ti zé

agora que ninguém o salva

lembro-me do tempo

em que na murtosa

as pessoas se salvavam


vão partindo os amigos

a família desse tempo

e eu vou partindo aos poucos

bocados de mim que se foram

pedaços de outros

que comigo ficam e são raízes


ti zé

você é uma raiz

que fica comigo

abraço do “senhor cravo”

(murtosa; 2019; figueira da foz; 2020)

os moliceiros têm vela (418)


estou vivo, tenho opinião e escrevo-a

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cais do bico; regata do emigrante; 2020

os painéis dos moliceiros têm sido objecto de estudo e até teses de doutoramento – caso de clara sarmento -, sendo as pinturas e as legendas objecto de classificação.
 
no livro ” Os Moliceiros da Ria de Aveiro – Quadros Flutuantes” , clara sarmento propõe a seguinte classificação : Jocosos (Eróticos, Instituições, Figuras típicas, Trabalho); Religiosos; Vida Quotidiana (Trabalho da Ria, Varinas, Mestres e seus Barcos, Apelos Ecológicos à preservação dos moliceiros, Festas e Cerimónias, Ditos e Conselhos); História e Personalidades (Monarcas, Descobrimentos, Escritores, Soldados e Cavaleiros, Personagens do imaginário e lazer).
 
ana maria lopes no livro “MOLICEIROS” propõe : Amorosos; Eróticos (Maliciosos); Patrióticos; Históricos; Profissionais; Folclóricos; Desportivos; Quotidiano.
diamantino dias, no site aveiro e cultura ((http://ww3.aeje.pt/avcultur/avcultur/DiamDias/Diversos/ConcursoPai.htm) propõe: Satíricos, Amorosos; Profissionais; Religiosos e Patrióticos.
 
a preservação deste património terá levado, inclusivamente, à criação dos concursos de painéis em aveiro por iniciativa do vereador arnaldo estrela santos, em data anterior a 1957 – segundo diamantino dias – e na romaria do são paio, na torreira.
 
a predominância dos painéis “Jocosos” ou “Eróticos” em relação aos restantes, verificada nos últimos anos, terá a ver, segundo o pintor josé oliveira, com os prémios pecuniários atribuídos pelos júris e que recaíam normalmente sobre estes. facto que terá levado o dono de um moliceiro a dizer ” pró ano é gajas, o que eles querem é gajas” (cito josé oliveira).
 
mas “Jocosos” ou “Eróticos” respeitavam sempre aquilo a que habitualmente se designa por “brejeirice da beira ria”, caracterizada pelo duplo sentido, pelo subentendido, pela “riqueza de interpretações de uma frase”, a que a pintura empresta mais uma interpretação dúbia, não sendo explícita, nem “para maiores de 18 anos”.
 
infelizmente a “brejeirice da beira ria”, que reflecte a velha expressão “a língua portuguesa é muito traiçoeira”,  parece estar a derivar para uma “vilhenice” de segunda categoria, para não dizer pior. se a legenda é de duplo sentido, a pintura é de muito mau gosto, de leitura única e desaconselhada “para todas as idades”.
 
em 2019 surgiu o primeiro painel com estas características, em 2020 já foram dois. por este andar onde vamos acabar?
 
não sei qual foi a classificação do júri para os painéis em causa, nem li quaisquer reparos a tais pinturas.
 
enfim, se é triste verificar que o empobrecimento dos motivos decorativos dos painéis tem a ver com as decisões do júri na atribuição dos prémios pecuniários, não podemos deixar resvalar os desenhos/pinturas para, desculpem-me o termo porque forte, a “ordinarice”.
 
(nota : não reproduzo os painéis em causa por motivos óbvios)
os moliceiros têm vela (405)

os moliceiros têm vela (405)


meditação sobre a palavra

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cais do bico; cipriano brandão; 2006

 
o homem inventa
a ferramenta
que reinventa o homem
e a palavra
 
a palavra para denominar
a ferramenta
 
a ferramenta exigirá novas
ferramentas novas palavras
 
o poeta inventa a palavra
pelo prazer da música das letras
pela sonoridade pelo ritmo
pelo prazer de
 
as palavras do poeta
não nomeiam nada excepto
a si mesmas e são
as mais puras criações
do homem

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cais do bico; cipriano brandão; 2006

 
os moliceiros têm vela (404)

os moliceiros têm vela (404)


é um amigo

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cais do bico; regata do emigrante; 2006

um homem caminha na ria
um amigo aqui agora
sempre
 
súbito tudo é memória
 
sei que nunca se regressa
sei que a memória
é a única forma de voltar
 
nada mais resta
nada mais
resta
 
um homem caminha na ria
é um amigo

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cais do bico; regata do emigrante; 2006

os moliceiros têm vela (402)

os moliceiros têm vela (402)


falasse o barco

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regata do emigrante; cais do bico; 2006

falasse o barco
casa sobre a ria
onde filhos feitos
criados entre barcadas
a correr pelos bordos
 
falasse o barco
dos homens e da palavra
do norte e das noites
das varas e das velas
da dura sirga
do ancinho e do moliço
do junco e da gadanha
da padiola do engaço
da forquilha
 
falasse o barco
diria da festa do s paio
da tenda de vela
das caldeiradas
as melancias o garrafão
os rojões as enguias fritas
 
falasse o barco
ouvirias os moliceiros
antigos senhores
da ria

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regata do emigrante; cais do bico; 2006

 
os moliceiros têm vela (400)

os moliceiros têm vela (400)


moliceiro

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regata do bico; 2006

tempo de máscaras
é sempre
trazem nomes as imagens
memórias
pegadas de um tempo
que vou semeando
tempo de todos
os que amam
de verdade
o moliceiro

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regata do bico; 2006