os moliceiros têm vela (438)


amanhã

murtosa; regata do bico; 2009
 amanhã pode ser um dia
 longe
 
 quisera ser barco ir  
 com o vento
 abraçar as nuvens
 
 amanhã pode ser um dia  
 longe
 
 saibas tu ser barco  
 mas navegar
 nunca foi arte fácil
 
 amanhã pode ser um dia  
 longe
 
 vida de marinheiro é dura
 grande o mar  
 amanhã vamos navegar 

 hoje

os moliceiros têm vela (436)


inocentes

ti abílio carteirista; cais do bico; 2019
 pedem-me que cale
 que não ligue
 
 denunciar é dar palco
 dizem e quedam-se
 no seu saber calado
 
 há a poesia a música
 o cinema o futebol
 há a cultura costas largas
 
 há o que não nos divide
 porque não é relevante
 há o silêncio que consente
  
 peço-lhes que falem  
 que digam o que pensam
 se existem além do pensar
  
 calados críticos de tudo
 aí estarão no fim do caminho
 limpos sorridentes e isentos
  
 acabados de nascer e ainda
 por lavar 

os moliceiros têm vela (431)


português emigrante

ti abílio; regata do bico; 2019
 
 partiram de bolsos vazios
 e o país no coração
 
 sonhavam uma vida melhor
 uma casa a velhice diversa
  
 foram dos primeiros e  
 voltaram
 e no voltarem foram
 os últimos
  
 filhos e netos semearam
 que outras raízes criaram
  
 mais que uma bandeira
 são um povo
 orgulhoso das suas origens
  
 é uma honra ter entre eles
 tantos amigos 

os moliceiros têm vela (429)


é tão fácil

murtosa; regata do emigrante; 2012
 venderás o peixe no mercado
 aos fregueses fiéis
 
 
 comprar-to-ão por comodidade
 hábito e cansaço
 
 
 às quintas montarás banca
 na feira venderás coisas várias
 
 
 outros caminharão à tua sombra
 serás o chefe não o líder
 
 
 nas terras piquenas é tão fácil
 parecer grande 

ti zé formigo


morreu ontem, 15 de agosto de 2020, o ti zé formigo (67 anos)

era um bom amigo, do que lhe conhecia, admirava a dedicação à esposa – em cadeira de rodas – e a alegria

tinha defeitos? quem não tem… fico triste e penso que a murtosa também

à família, em particular à esposa, o meu silêncio com um sorriso do ti zé dentro – lembrá-lo-ei sempre assim

ao ti zé formigo

não ti zé

não estou na murtosa

nem você agora


era nas regatas de moliceiros

ou bateiras

ou no são paio

que nos encontrávamos

havia sempre um abraço

um sorriso uma salvação


uma salvação ti zé

agora que ninguém o salva

lembro-me do tempo

em que na murtosa

as pessoas se salvavam


vão partindo os amigos

a família desse tempo

e eu vou partindo aos poucos

bocados de mim que se foram

pedaços de outros

que comigo ficam e são raízes


ti zé

você é uma raiz

que fica comigo

abraço do “senhor cravo”

(murtosa; 2019; figueira da foz; 2020)

os moliceiros têm vela (418)


estou vivo, tenho opinião e escrevo-a

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cais do bico; regata do emigrante; 2020

os painéis dos moliceiros têm sido objecto de estudo e até teses de doutoramento – caso de clara sarmento -, sendo as pinturas e as legendas objecto de classificação.
 
no livro ” Os Moliceiros da Ria de Aveiro – Quadros Flutuantes” , clara sarmento propõe a seguinte classificação : Jocosos (Eróticos, Instituições, Figuras típicas, Trabalho); Religiosos; Vida Quotidiana (Trabalho da Ria, Varinas, Mestres e seus Barcos, Apelos Ecológicos à preservação dos moliceiros, Festas e Cerimónias, Ditos e Conselhos); História e Personalidades (Monarcas, Descobrimentos, Escritores, Soldados e Cavaleiros, Personagens do imaginário e lazer).
 
ana maria lopes no livro “MOLICEIROS” propõe : Amorosos; Eróticos (Maliciosos); Patrióticos; Históricos; Profissionais; Folclóricos; Desportivos; Quotidiano.
diamantino dias, no site aveiro e cultura ((http://ww3.aeje.pt/avcultur/avcultur/DiamDias/Diversos/ConcursoPai.htm) propõe: Satíricos, Amorosos; Profissionais; Religiosos e Patrióticos.
 
a preservação deste património terá levado, inclusivamente, à criação dos concursos de painéis em aveiro por iniciativa do vereador arnaldo estrela santos, em data anterior a 1957 – segundo diamantino dias – e na romaria do são paio, na torreira.
 
a predominância dos painéis “Jocosos” ou “Eróticos” em relação aos restantes, verificada nos últimos anos, terá a ver, segundo o pintor josé oliveira, com os prémios pecuniários atribuídos pelos júris e que recaíam normalmente sobre estes. facto que terá levado o dono de um moliceiro a dizer ” pró ano é gajas, o que eles querem é gajas” (cito josé oliveira).
 
mas “Jocosos” ou “Eróticos” respeitavam sempre aquilo a que habitualmente se designa por “brejeirice da beira ria”, caracterizada pelo duplo sentido, pelo subentendido, pela “riqueza de interpretações de uma frase”, a que a pintura empresta mais uma interpretação dúbia, não sendo explícita, nem “para maiores de 18 anos”.
 
infelizmente a “brejeirice da beira ria”, que reflecte a velha expressão “a língua portuguesa é muito traiçoeira”,  parece estar a derivar para uma “vilhenice” de segunda categoria, para não dizer pior. se a legenda é de duplo sentido, a pintura é de muito mau gosto, de leitura única e desaconselhada “para todas as idades”.
 
em 2019 surgiu o primeiro painel com estas características, em 2020 já foram dois. por este andar onde vamos acabar?
 
não sei qual foi a classificação do júri para os painéis em causa, nem li quaisquer reparos a tais pinturas.
 
enfim, se é triste verificar que o empobrecimento dos motivos decorativos dos painéis tem a ver com as decisões do júri na atribuição dos prémios pecuniários, não podemos deixar resvalar os desenhos/pinturas para, desculpem-me o termo porque forte, a “ordinarice”.
 
(nota : não reproduzo os painéis em causa por motivos óbvios)