os moliceiros têm vela (323)


maria emília

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professora, natural da região de aveiro (sul), comprou em leilão, no ano de 2015, o moliceiro “S. Salvador”.

no painel da proa, estibordo, a pintura de um moliceiro e a legenda “EU SOU FELIZ AQUI”.

segundo me disse, comprou o moliceiro para passear com a família e os amigos, mas tem participado em todas as regatas desde que o comprou.

e participa como camarada.

em frente ao estaleiro do mestre zé rito, na torreira, apodrece o moliceiro do falecido manuel valas. não haverá nenhum orgulhoso de ter nascido na “pátria do moliceiro” que passe das palavras aos actos e o ponha navegar?

murtoseiros, olhem para o exemplo da maria emília.

regata do bico 2018

(participação e posição à chegada até ao 5º – classe A)

1 – A. Rendeiro
2 – Marco Silva
3 – Zé Rito
4 – Ferreira Nunes
5 – Um sonho
O Amador
Dos Netos
S. Salvador
CM Murtosa
Inobador

(penso não ter aqui qualquer falha mas, se a houver, venham ajudas que correcções farei)

(murtosa; regata do bico; 2018)

os moliceiros têm vela (322)


abílio fonseca (carteirista)

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o ti abílio já passou os 80 e ainda cá anda a velejar e a ser o exemplo acabado daquilo a que alguns chamam a “brejeirice da beira-ria” – e que tanto tem sido representada nos painéis dos moliceiros.

passem umas horas com o ti abílio e verão como todos os painéis brejeiros podem ser de carne e osso.

nascido e criado na gafanha baixa, na murtosa, cresceu no moliço, foi para a marinha, emigrou, regressou e continua.

é dono do moliceiro “Dos Netos”, o único que não foi construído na zona norte da ria, mas pelo mestre gadelhas, de seixo de mira.

a boa disposição toma-a ao pequeno almoço e adormece com ela.

tratamo-nos por tu e eu tenho por ele amizade e respeito.

guardo, emolduradas, as medalhas que me ofereceu nas regatas da ria e do s. paio, em 2016.

amanhã, dia 5 de agosto, se tudo correr como planeado, lá estaremos na provocação brejeira, tão nossa, tão da beira-ria.

(torreira; regata da ria; 2013)

crónica do mês de julho no “Notícias de Aveiro”


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Labrega : autor Artur Pastor, Série “Portugal Litoral” Setúbal anos 40/60

As viagens da Labrega

Mão amiga deu-me conhecimento da abertura no dia 17 de Julho, em Setúbal, de uma exposição do fotógrafo Artur Pastor, organizada pelo filho, Artur Costa Pastor, e enviou-me uma foto constante da exposição: a de uma Labrega Murtoseira que encima esta crónica.

Estava aberto o caminho para a crónica. “Uma labrega em Setúbal!”, comentou outro amigo. Tinha de escrever a crónica. Recorrendo à minha biblioteca, a memórias familiares e ao universo virtual, sem quaisquer pretensões de escrever um “artigo”, ela aqui está .

Em primeiro lugar, como e quando terá chegado a Labrega a Setúbal? Da mesma forma, pelos mesmos motivos e no mesmo tempo que a Ílhava, tal como é descrito por Senos da Fonseca em “Embarcações que tiveram berço na laguna” – migração pela costa, crise na economia piscatória, e não só, durante o século XVIII na ria de Aveiro. Note-se que na ilustração desta migração marítima da Ílhava, a imagem utilizada por Senos da Fonseca na página 82, é uma foto onde aparece uma Labrega Murtoseira e não uma Ílhava.

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Labrega – do livro “Embarcações que tiveram berço na laguna- Senos da Fonseca

 

No Tejo deixou a Labrega memória nas bateiras avieiras, o que já referi, e é consensual, na minha crónica de Janeiro deste ano http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/46854/o-moliceiro-patrimonio-nacional-quando/.

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Bateiras avieiras: “Ribatejo”, jornal online

Da memória da família consta a ida do meu bisavô Domingos José Cravo (gorim) para a Azambuja, durante a época do sável, estabelecendo-se com uma bateira num esteiro – conhecido à época por “esteiro do gorim” – vendendo mercearias e pão aos pescadores e vizinhos. Imagino o meu bisavô numa Labrega Murtoseira, só pode. Desta sua deslocação sazonal fica a notícia do jornal “Povo da Murtosa” de 23 de Julho de 1917, onde na rúbrica “Chegadas” se pode ler “ Da Azambuja, chegou á sua casa da Murtoza o nosso assinante sr. Domingos José Cravo…..”

Em “Achegas para uma História da Pesca em Portugal”o Capitão Bento Leite escreve a seguinte nota: “1819 – os pescadores de Alhandra, Alverca e Póvoa de Santa Iria queixaram-se dos varinos de Aveiro e Ovar que traziam redes de arrasto para o Tejo”. Labregas, Ílhavas, ambas?

O caso de Setúbal. Existem em Setúbal duas zonas povoadas por comunidades de pescadores migrantes: a poente as Fontaínhas e o Bairro Santos Nicolau – gente da região de Aveiro, murtoseiros predominantes nas Fontaínhas – e a poente o bairro de Tróino – migrantes vindos do Algarve.

 

Da actividade e dimensão da população de pescadores da Murtosa em Setúbal, fica-se com uma noção através da notícia publicada no “Povo da Murtosa” de 1 de Dezembro de 1913, com o título: “Pescadores em Setúbal”, onde se pode ler “Sob a denominação de Associação da Classe dos Pescadores da Murtoza em Setúbal, vem de fundar-se naquela cidade … uma associação de classe com o fim de defender os interesses dos pescadores nossos patrícios ali residentes”.

Os pescadores das Fontaínhas e do Bairro Santos Nicolau tinham os seus barcos na Doca Comercial, vulgarmente conhecida por “Doca das Fontaínhas”, os pescadores de Tróino na Doca de Pesca, a poente, junto à lota.

Analisando fotografias da mesma época, das duas docas, que insiro nesta crónica, verifica-se que na doca das Fontaínhas se podem ver muitas Labregas murtoseiras e na doca de pesca muitas Barcas algarvias. Ou seja, o povoamento terrestre reflecte-se no “povoamento marítimo”, a cada comunidade o seu tipo de barco.

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Doca de pesca de Setúbal: autor Artur Pastor . Série “Portugal Litoral” Setúbal anos 40/60

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Doca das Fontaínhas: do livro “Setúbal D’Outros Tempos” – Américo Ribeiro

Muito poderão os estudiosos vir a publicar sobre este tema. Infelizmente não conheço obra publicada e aprofundada que possa citar, quer sobre a Labrega Murtoseira, quer sobre o “povoamento marítimo” das duas docas de Setúbal – só memórias fotográficas insertas em livros genéricos. Acontece que nem no citado livro de Senos da Fonseca, nem em “Bateiras da Ria de Aveiro” de António Marques da Silva e Ana Maria Lopes, se encontram referências à Labrega. Terá isto a ver com outra forma de povoamento na ria de Aveiro? O da produção e publicação de estudos sobre o património náutico da região: a sul Ílhavo e a norte Ovar. A pobre da Labrega é património da Murtosa onde reside também o icónico Moliceiro que a “abafou” em termos de estudo, até no pouco publicado por murtoseiros.

Existe uma tese de mestrado, para a qual dei modestas achegas iniciais, que se debruçou sobre a Labrega já lá vão alguns anos, mas que nunca vi em formato legível, para poder dela retirar quaisquer ilacções.

Apesar da designação “labrega” assumir hoje em dia a forma de adjectivo depreciativo, ela foi e é um substantivo com uma carga histórica muito forte, ferramenta de trabalho que deu de comer a muita gente. Falta que lhe seja dado o devido relevo pelos estudiosos produtores de obra publicada.

Até lá ficam estas notas e as fotos que as ilustram. Na próxima crónica voltarei à Labrega, porque o difícil é começar.

(os meus agradecimentos a Artur Costa Pastor pela autorização de utilização, nesta crónica, de fotos de seu pai, Artur Pastor)

postais da ria (259)


vêm devagar

vêm devagar os amigos
chegam pela mão da memória
por vezes tarde demais

partem depressa os amigos
olho-os como se ainda
mas é tarde muito tarde

sei que partiram alguns
cada dia mais
enquanto eu vou resistindo

enquanto passear pelos dias
levo-os pela mão
e deixo-os convosco à conversa

nada mais posso fazer

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o falecido manuel vieira (valas)

(murtosa; regata do bico; 2007)

 

o moliceiro FERREIRA NUNES


no dia 13 de maio de 2018 o moliceiro “FERREIRA NUNES” beijou pela primeira vez a ria, a este primeiro beijo chamamos nós “bota-abaixo”.

filho e neto de moliceiros, antónio ferreira nunes não andou ao moliço, mas para estes homens o moliceiro é um barco que lhes corre nas veias em direcção à ria.

porque era um sonho, porque queria deixar a memória de um tempo, sem apoios financeiros institucionais, investiu do seu bolso.

num terreno baldio, ao lado da casa onde mora, construiu um moliceiro. com a ajuda do mestre zé rito, usando os paus de pontos e os moldes do mestre henrique lavoura.

o essencial ficou dito na entrevista breve, mas há uma coisa que não podemos esquecer: não há razão que explique este amor dos murtoseiros, dos homens e mulheres desta terra, pelos moliceiros.

será que quem manda não ouve, não sente?

admiro-os porque não posso fazer mais.

tenho orgulho na amizade que alguns têm por mim. tenho pena que sejam tão poucos, mas estou feliz por ver que, para além dos que foram moliceiros e por isso querem ter um a navegar, há uma nova geração que nunca andou ao moliço mas que

TEM MOLICEIROS NO SANGUE E OS QUER FAZER NAVEGAR

BEM HAJAM

(o testemunho do dia do bota-abaixo, num apontamento de vídeo, aqui fica)