postais da ria (398)


mais que o nome a alcunha
conta uma história

assim os pescadores

a do henrique nunca a soube
nem é aqui lugar para

homem rico o henrique
de duas alcunhas penso
ser dono

haverás mais ricos 
de alcunhas claro

mas de voz
mais nenhum 

safa as redes como todos
não safa a vida

torreira; porto de abrigo; 2013

crónicas da xávega (379)


aos amigos

torreira; ti alfredo fareja; 2005
aos amigos o abraço
braços de dar

aos amigos ainda mesmo se
aos amigos sempre
só porque

pela metade nada nunca
que só tudo aos amigos

por entre os braços a rede
corre como o tempo
que os levou e os trouxe

nem sempre partiram como
chegaram amigos foram
incertos no tempo de ser

aos amigos o abraço
o abraço aos amigos
sempre

postais da ria (369)


amigos

torreira; porto de abrigo; 2018
então trocas os nomes
confundes os rostos
reconheces a voz
mas é tarde


não tardou o tempo
a crescer onde diminuis


então trocas os nomes
os que não esqueceste
que a memória também


os amigos sorriem e respondem
por um nome que não é o deles


os amigos são para além do nome
o gesto o abraço o sorriso


então sorris também porque
não há trocas na amizade

postais da ria (368)


salvé salvador

torreira; 2019
regresso ao sábio labor
das pequenas malhas
à paciência do pescador


encontro o homem
escuto-o e aprendo


vão colhendo as malhas
gélidos os dedos do meu amigo


dentro do barco agulha na mão
um homem bom espera melhores dias


um homem bom que repara redes
porque não pode reparar os dias