postais da ria (399)


águas vivas

outras as artes outras redes
malhas mais finas
prenderam o sonho
o sol uma vida

o testemunho do tempo
o olhar a guardar a memória
onde agora

safam-se os dias
onde algas secas ainda

a paciência é a arte
da sobrevivência

a reinvenção dos dias
é um tempo cheio de tempo
uma navegação em águas
vivas porque revividas

(torreira; safar redes; 2019)

postais da ria (398)


mais que o nome a alcunha
conta uma história

assim os pescadores

a do henrique nunca a soube
nem é aqui lugar para

homem rico o henrique
de duas alcunhas penso
ser dono

haverás mais ricos 
de alcunhas claro

mas de voz
mais nenhum 

safa as redes como todos
não safa a vida

torreira; porto de abrigo; 2013

crónicas da xávega (482)


o que é o quê

xávega, arte, artes ou arte-xávega, são formas diversas, e as correctas, para designar a mesma “arte de pesca”.

assim como, passer domesticus, pardal, pardal ladrão, pardal dos telhados, pardal da igreja, etc., são formas diversas de designar a mesma ave.

(praia da leirosa; 2019)

crónicas da xávega (379)


aos amigos

torreira; ti alfredo fareja; 2005
aos amigos o abraço
braços de dar

aos amigos ainda mesmo se
aos amigos sempre
só porque

pela metade nada nunca
que só tudo aos amigos

por entre os braços a rede
corre como o tempo
que os levou e os trouxe

nem sempre partiram como
chegaram amigos foram
incertos no tempo de ser

aos amigos o abraço
o abraço aos amigos
sempre