crónicas da xávega (352)


o homem
0 ahcravo_ DSC_3051 s

torreira; 2013

 
democráticos vos digo
de tão diversos
 
os que sombra projectam
e são a luz silenciosa
 
os que passam e nem se sabem
e existem porque sim
 
os tantos tão piquenos e reles
que nem pisá-los pois sujos
ficamos de ignorar são
 
bem pode quem vos fez
limpar as mãos à parede
como diz o povo
 
como drummond questiono
“que coisa é o homem?
existe o homem?”
 
na areia da praia um homem
tenta salvar a espécie
 
crónicas da xávega (348)

crónicas da xávega (348)


ainda estou aqui
0 ahcravo_DSCN0406 - ti alfredo 2005 sep

torreira; ti alfredo fareja; 2005

 
escondi numa gaveta
todas as palavras difíceis
 
escrevi então as coisas simples
onde habita o sentir
 
a memória os amigos o tempo
entraram pelas palavras
como coisa sua
simples
 
perguntaram por mim
e com as suas palavras lhes respondi
 
ainda estou aqui
0 ahcravo_DSCN0406 - ti alfredo 2005 bw1

torreira; ti alfredo fareja; 2005

 

postais da ria (353)


o gesto
0 DSC_2645a

torreira;zé de gaia; 2017

suspenso o gesto
como o tempo
confinado
adiado
suspenso o tempo
o gesto
amanhã porque
haverá um amanhã
onde sempre nem todos
mas os que por enquanto
esperarei o momento
de suspensão da suspensão
ser ainda depois de
até que
porque nunca suspenso
o tempo
silencioso continua
o gesto será ou não meu
mas será sempre

postais da ria (351)


um puto da ria
0 ahcravo_DSC8039_filipe bastos

torreira; 2019

 
trago o tempo aos olhos
é ainda o filho nas redes do pai
 
é ainda um puto da ria
que depois da escola safa redes
sem paredes nem janelas
sem professores nem horários
sem exames nem anos a galgar
só marés limos caranguejos
redes para safar
 
é um puto de férias
a safar redes
as redes do pai
e as dos amigos do pai
que dele são também
 
porque todas as redes
são redes dos putos da ria
 
a vida continua
as redes deixaram fugir o pai
 
o puto está preso nas malhas
das redes é um puto da ria
e chama-se filipe como o pai