a beleza do sal (131)


dizer

(mexer; morraceira; salinas do corredor do sol; 2019)

dizer
o teu nome
o nome de todas as coisas
as coisas que cada nome encerra

dizer
tantas vezes a mesma palavra
até que ela perca o sentido
a sua ligação com o representado

dizer
como é doloroso o parto
das palavras
que ainda não disse
ou se disse como as escrevi

dizer
tanto em tão pouco
ser imenso e ínfimo
límpido e complexo

dizer

a beleza do sal (126)


silencio
as palavras
planto-as algures
no canto mais luminoso
do jardim que tenho
para esse fim
(o fundo do bolso)

hoje não é dia de abrir
janelas
nem de as deixar voar
quero-as todas
para mim

e ficar assim
em silêncio
a pensar
tão somente
porque sim
morraceira; 2019

a beleza do sal (115)


que fazer das palavras

morraceira; mexer; 2020
 que fazer das palavras
 se não o assassínio do silêncio
  
 que fazer das palavras
 se não a ferramenta da denúncia
  
 que fazer das palavras
 se não o dizer esta revolta hoje aqui
  
 que fazer das palavras
 se não servirem para derrubar o palco
 erguido pelo silêncio
 
 que fazer das palavras
 se as aprendi para as dar e serem mais
 
 só a conquista dá valor ao conquistado
 desprezadas são as ofertas
 
 que fazer das palavras
 se não usá-las para gritar quando necessário 

a beleza dos sal (112)


doem-me os braços

ilha da morraceira; rer; 2020
 tempo de espera este
 sobreviver para viver
 sem saber quando
  
 tempo para lembrar
 depois esquecer
 tempo de não ser
  
 o sal está a trabalhar
 dizem e esperam  
 o tempo de estar feito
 
 no talho que me coube
 vou mexendo os dias
 com vontade de os rer
  
 doem-me os braços
 por falta de abraços