os moliceiros têm vela (373)

os moliceiros têm vela (373)


nocturno para o rui mourato
0 ahcravo_ DSC_9397 s bw

torreira; sem data; era lua cheia

agora que te calaste
para sempre
quero-te dizer
que falavas muito
o ti cravo dito por ti
era um abraço
de uma ave pernilonga
vinda do sul fascinada
pelos moliceiros
habitava-te
um coração enorme
o que parou
agora que te calaste
para sempre
calo-me também
para te ouvir
0 ahcravo_ DSC_9397 s

torreira; sem data; era lua cheia

os moliceiros têm vela (372)


para o ti zé rebeço
0 ahcravo_DSC_8220.jpg

cais do bico; regata do emigrante; 2019

a ria em fundo
a ria no sangue
a ria cama mesa
a ria outra casa
a ria tudo quase
 
como se dissesse
que se há-de fazer
tantos anos depois
 
o homem confunde-se
com o barco
ele é o barco na ria
a vela o mastro a toste
enterra a toste manel
 
a frema tão murtoseira
 
o saber que não
se pode saber tudo
rás parta o tempo
que se há-de fazer
os moliceiros têm vela (370)

os moliceiros têm vela (370)


bota abaixo de “0 Conquistador”_ um outro olhar

a 30 de junho de 2019 a ria recebeu mais um moliceiro tradicional: “O Conquistador”.
 
mandado fazer por márcio nunes e domingos mole, sem quaisquer apoios financeiros que não os dinheiros próprios, foi construído por marco silva e pintado por josé manuel oliveira.
 
neste registo fica a memória do bota abaixo em versão foto-filme, elaborado pela mão amiga que de longe me(nos) oferece estas pérolas
os moliceiros têm vela (369)

os moliceiros têm vela (369)


sonho ainda
0 ahcravo_ DSC_4134 bw

murtosa; regata do bico; 2017)

 
não nego a solidão
nem a cultivo
 
estou comigo e sou
ergo-me em mim
corto a direito
 
o meu tempo é duro
se amargos alguns dias
inteiros todos são
 
recuso não ser eu
custou muito
fazer-me
 
sonho ainda
0 ahcravo_ DSC_4134

murtosa; regata do bico; 2017

 
os moliceiros têm vela (368)

os moliceiros têm vela (368)


uma imagem vale mais que mil palavras ?
0 ahcravo_DSC9658.jpg

aveiro; ti zé rebeço e abílio carteirista; julho; 2019

 
(porque gosto muito deste registo, não o queria perder, nem que fosse mal interpretado, por isso sobre ele umas palavras breves)
 
uma imagem é só isso, livre de a interpretar fica quem a lê; palavras fossem e o mesmo poderia escrever.
 
neste caso, a leitura mais imediata das expressões será a da existência de uma controvérsia acesa entre os intervenientes. nada mais errado.
 
o que a imagem retrata – porque não encenada – são as posturas mais usuais de cada um dos intervenientes: o indicador da mão direita esticado (típico no ti abílio) e as mãos abertas (tão comum no ti zé rebeço).
 
a conversa foi acesa, sim, mas a três – o homem da máquina, eu, também entrou nela – e o acordo foi constante, falámos de moliceiros e das regatas.
 
a expressão gestual das opiniões ficou registada na imagem, não o seu sentido. por isso estas palavras que, não sendo mil, resgatam, de qualquer interpretação quase óbvia e errónea, o que de facto se passava: tão só conversa de amigos.