os moliceiros têm vela (313)


fazer o futuro

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o “Doroteia Verónica” ainda velejava

presa nas malhas
do corpo
esta coisa pensar

recolher-me na
incerteza dos dias

reviver os que foram
no que é
no que me deixaram
para que deixe

viver hoje
é preservar o ontem
fazer o futuro

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o “Doroteia Verónica” ainda velejava

(regata da ria; 2010)

dia 30 de junho há regata

os moliceiros têm vela (312)


memória de um dia

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falarão dos barcos
dirão moliceiros

ninguém falará de ti
sequer saberão o teu nome

pouco te importa
hoje tens tempo de antena
roubado que seja
mas tens e sorris e falas
não sabes de amanhã
ignoras o ontem

os moliceiros digo
são aves frágeis sem asas

e tu sabes
porque lhes cortaste
as últimas

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(regata da ria ; 2010)

os moliceiros têm vela (311)


a meta

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entrou água no barco
como na casa a lama

ensurdecedoras as palmas
de quase gente
na casa de todos nós

não há pior cegueira
que a dos que vêem
nem palavras mais feras
do que as dos que mentem
ofertando-as como se verdades

do alto se fizeram ouvir
ao rebanho

seguiu-as quem quis
ou melhor não soube porque
muitos anos fazem obra
calejam discernimento

urge escoar as mentes
como o barco
para chegar à meta

(regata da ria; escoar; 2016)

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o amigo manuel antão, no moliceiro “A. Rendeiro”

crónica de maio no “notícias de aveiro”


Pensar o moliceiro hoje (2) – Ser radicalmente realista

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No dia 29 de janeiro deste ano enviei um email para a Capitania do Porto de Aveiro, que transcrevo:

Exmo Sr.

Capitão do Porto do Aveiro

Estou a estudar a possibilidade de investir na aquisição, ou encomenda para construção de raiz, de um moliceiro tradicional, para utilização em passeios turísticos em toda a extensão da Ria de Aveiro.

Para melhor equacionar e tratar do investimento, parece-me fundamental saber dos normativos que estribam não só a compra/encomenda, como a exploração.

Neste entendimento, venho solicitar a V. Exa se digne informar-me dos normativos nacionais e locais, bem como dos custos processuais e de licenças anuais inerentes a todo o processo acima descrito.

Caso seja possível agradecia o envio dos documentos, ou a sua localização na net, para este endereço de email.

Com os meus mais respeitosos cumprimentos”

Como ao fim duas semanas não tinha qualquer resposta, telefonei para a Capitania e fui muito bem atendido, disseram-me o que sabiam, e já não era pouco, mas remeteram-me para o Capitão do Porto única entidade que poderia esclarecer devidamente os problemas que coloquei. Até hoje, 26 de Maio de 2018, não recebi qualquer resposta, pelo que estou perfeitamente esclarecido.

Como encarar então o futuro do moliceiro, quando nos defrontamos, logo de início, com situações como esta? Eu só tenho uma resposta: sendo radicalmente realista. E é o que vou tentar transmitir a quem tiver a paciência de me ler, mesmo que, como me dizia um amigo aqui há dias, me tenha de dar razão, embora não queira concordar comigo.

Ainda há “almoços grátis” na Ria de Aveiro e quem os serve são os moliceiros tradicionais mas, há força de tanto dar, um homem fica sem dinheiro ou cansado de o fazer. A existência de moliceiros tradicionais na Ria de Aveiro não é explicável pela razão, mas pelo coração. Há bem poucos anos, aquando do bota-abaixo de um moliceiro na Torreira, o que lhe deu tempo de antena televisivo, o Presidente da Câmara da Murtosa, ao canal que o entrevistava, disse que não aconselhava ninguém a investir num moliceiro. Disse e não precisava de dizer mais.

Há pois que pensar em como financiar, sim financiar e não subsidiar, os moliceiros tradicionais. Investir num moliceiro tradicional traz sempre retorno às autarquias, ao comércio, à restauração, à economia da região. Só não traz a quem o mandou fazer. Isto é ser realista e radical, é dizer como as coisas são sem rodeios, nem floreados. Uns põem a mesa, outros comem.

Durante o verão de 2016, acompanhei dia a dia a construção de um moliceiro, no estaleiro do mestre Zé Rito, na Torreira, e tive oportunidade de acompanhar e servir de guia a curisos turistas de diversas nacionalidades. Um dia um francês ficou espantado quando lhe disse que o moliceiro em construção era para um particular. Em França, respondeu, estas construções são da responsabilidade do Património, do estado

Vamos então ao que importa.

No Jornal “Dinheiro Vivo” de 13 de Junho de 2016, pode ler-se, num artigo sobre a Câmara de Aveiro ….O Município encaixou em 2014 cerca de 1,2 milhões de euros, a receber em cinco anos, com a hasta pública para uso privativo de 10 cais de atracação nos Canais Urbanos para o exercício da atividade marítimo-turística ……..” (https://www.dinheirovivo.pt/economia/passeios-barco-financiam-investimento-municipal-nos-canais-aveiro/), rende bem o negócio! A pergunta é: quanto é que a Câmara de Aveiro investe por ano nos moliceiros tradicionais?

Há aqui uma fonte de rendimento, de uma entidade pública local, que poderia muito bem contribuir para o financiamento da construção/manutenção de moliceiros tradiconais. Não é essa uma das missões das autarquias? Apoiar a preservação do património local?

Por outro lado, e no âmbito do orçamento da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro, deveria ser considerada uma verba anual para financiamento dos moliceiros tradicionais, contemplando duas vertentes:

  • manutenção (com obrigatoriedade de os moliceiros, que recebessem financiamento, participarem nas regatas a realizar)
  • construção (nas mesmas condições do anterior)

(Os subsídios atribuídos os participantes nas regatas são apenas isso, subsídios)

E os privados não deveriam contribuir também? Claro que sim. Aqui incluo as empresas que exploram os passeios turísticos nos canais de Aveiro, nos barcos que por lá andam a fazer de conta que são moliceiros, a fazer de conta que andam na ria – é tudo um faz de conta, que faz muito dinheiro – e a empresas regionais dos mais diversos ramos.

Sem afectar a imagem dos moliceiros, poderiam financiar a sua manutenção e preservação, sendo-lhes, em troca, atribuído espaço para publicidade nos locais onde se realizam as regatas. Tome-se como exemplo a publicidade que é feita nos campeonatos de surf ou windsurf, os patrocinadores não têm logotipos nas pranchas, têm cartazes e outros materiais de publicidade nas praias onde se realizam os eventos.

Como já escrevi em artigo anterior, não há moliceiros tradicionais a navegar sem uma tripulação que os saiba manobrar, pelo que não podemos esquecer e desperdiçar o saber dos “velhos” moliceiros e o seu papel no ensino da arte manobrar o moliceiro.

Com as actuais condições de financiamento público e privado, não há razão que explique o investimento num moliceiro tradicional. Tem razão o Sr. Presidente da Câmara da Murtosa, mas o povo tem um ditado que tudo esclarece “o coração tem razões que a razão desconhece”.

Apesar de tudo – grandes corações há na ria – nos últimos anos tenho assistido ao aparecimento de novos moliceiros, mandados fazer, recuperar, ou adquiridos por uma nova geração que nunca andou ao moliço. O MOLICEIRO fascina quem o vê e sente.

Para terminar, e porque este é um jornal digital, deixo-vos com o vídeo do bota-baixo do moliceiro FERREIRA NUNES, no Cais do Bico no dia 13 de Maio, e a entrevista ao seu dono – ouçam-na com atenção, por favor.

os moliceiros têm vela (310)


deixa

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deixa que as palavras
te procurem
trazidas pelo sentir
de tudo

será poema se for
que isso te não preocupe

deixa que os olhos poisem
sobre tudo em tudo penetrem
e tragam consigo o seres

nada é novo
senão o teu olhar
o teu sentir

o teu dizer
nada acrescenta
a coisa nenhuma

por isso
deixa que as palavras
sejam em ti

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(torreira; regata da ria; 2009)

o moliceiro FERREIRA NUNES


no dia 13 de maio de 2018 o moliceiro “FERREIRA NUNES” beijou pela primeira vez a ria, a este primeiro beijo chamamos nós “bota-abaixo”.

filho e neto de moliceiros, antónio ferreira nunes não andou ao moliço, mas para estes homens o moliceiro é um barco que lhes corre nas veias em direcção à ria.

porque era um sonho, porque queria deixar a memória de um tempo, sem apoios financeiros institucionais, investiu do seu bolso.

num terreno baldio, ao lado da casa onde mora, construiu um moliceiro. com a ajuda do mestre zé rito, usando os paus de pontos e os moldes do mestre henrique lavoura.

o essencial ficou dito na entrevista breve, mas há uma coisa que não podemos esquecer: não há razão que explique este amor dos murtoseiros, dos homens e mulheres desta terra, pelos moliceiros.

será que quem manda não ouve, não sente?

admiro-os porque não posso fazer mais.

tenho orgulho na amizade que alguns têm por mim. tenho pena que sejam tão poucos, mas estou feliz por ver que, para além dos que foram moliceiros e por isso querem ter um a navegar, há uma nova geração que nunca andou ao moliço mas que

TEM MOLICEIROS NO SANGUE E OS QUER FAZER NAVEGAR

BEM HAJAM

(o testemunho do dia do bota-abaixo, num apontamento de vídeo, aqui fica)

os moliceiros têm vela (309)


ferreira nunes

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ontem dia 13 de maio, no cais do bico, uma ria de gente assistiu ao bota-abaixo do mais novo moliceiro tradicional da ria de aveiro.

chama-se ferreira nunes, como o seu dono, como o pai do dono, como o avô.

o moliceiro é assim, são gerações passadas lembradas no presente, oferecidas aos futuros.

o nelson, filho de antónio ferreira nunes, e os amigos também deram o seu contributo para que o moliceiro chegasse à água.

querem ver povo, muito povo, na murtosa? dêem-lhe moliceiros.

parabéns antónio, parabéns a toda a família, parabéns à murtosa que filhos como este tem.

os que vivem a ria, os que sabem da importância do moliceiro na história deste povo, estão de parabéns.

houve mais um homem que do seu bolso, só do seu bolso, com a ajuda de outros homens com a mesma “frema”, fez mais um moliceiro.

se isto não é amor à terra e à tradição, não sei o que seja.

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(murtosa; cais do bico; 13/05/2018)