os moliceiros têm vela (407)


pergunta ao mestre
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torreira; mestre zé rito; 2018

 
foram aprendizes nos estaleiros
dos mestres serviram
tudo fizeram que mandado fosse
 
não lêem os sofisticados desenhos
que vieram mais tarde
contar dos barcos a estrutura o ser
 
usam moldes e paus de pontos
saberes herdados na aprendizagem
não sabes o que são
pergunta ao mestre
 
poucos restam das antigas escolas
diria que uma mão de dedos cheia
basta para dizer quantos
 
por isso cada moliceiro fala do mestre
em silêncio
ou no símbolo que no leme o significa
 
não sabes o que é calafetar
pergunta ao mestre
os moliceiros têm vela (405)

os moliceiros têm vela (405)


meditação sobre a palavra
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cais do bico; cipriano brandão; 2006

 
o homem inventa
a ferramenta
que reinventa o homem
e a palavra
 
a palavra para denominar
a ferramenta
 
a ferramenta exigirá novas
ferramentas novas palavras
 
o poeta inventa a palavra
pelo prazer da música das letras
pela sonoridade pelo ritmo
pelo prazer de
 
as palavras do poeta
não nomeiam nada excepto
a si mesmas e são
as mais puras criações
do homem
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cais do bico; cipriano brandão; 2006

 
os moliceiros têm vela (404)

os moliceiros têm vela (404)


é um amigo
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cais do bico; regata do emigrante; 2006

um homem caminha na ria
um amigo aqui agora
sempre
 
súbito tudo é memória
 
sei que nunca se regressa
sei que a memória
é a única forma de voltar
 
nada mais resta
nada mais
resta
 
um homem caminha na ria
é um amigo
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cais do bico; regata do emigrante; 2006

os moliceiros têm vela (403)

os moliceiros têm vela (403)


6 de agosto de 2006
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cais do bico; regata do emigrante; 2006

 
dia de regata do emigrante no cais do bico, como era hábito a família almoçou na tenda/restaurante da junta de freguesia da murtosa, de cujo presidente os meus pais eram amigos, mas eu não – políticas …
 
em 2005 eu tinha começado a fotografar a companha do marco, que nascera nesse ano e que acompanhei até 2016. tinha sido arrais o cipriano, que deixou de o ser em 2006, para passar a ser o marco. mas isto é uma outra história.
 
o marco e o cipriano apareceram com um moliceiro na regata, de que não me lembro o nome, e quando o marco me viu a fotografar perguntou-me se não queria ir com eles. claro que sim. saltei para dentro do barco e comecei a fotografar. faltava ainda um camarada – cada barco tem direito a três camaradas.
 
quando o terceiro camarada chegou, já o barco estava para largar. então, do seu posto de controlo, o digníssimo presidente da junta de freguesia da murtosa grita para o marco:
 
– só podem ir três no barco e estão quatro
 
ao que o marco respondeu, o que era óbvio:
 
– mas o sr. cravo só vai para fotografar
 
– conta na mesma – disse quem de direito
apesar da calmaria, eu disse ao marco que saía do barco e que ele precisava era de um camarada e não de um fotógrafo. não senhor, vai connosco – foi a resposta. e fui.
 
passados poucos minutos da regata arrancar, levanta-se nortada, quem conhece a ria sabe como é, e …. máquina para dentro do castelo da proa e o camarada fotógrafo deixou de ser fotógrafo e não sabia ser camarada.
 
só me lembro, entre outras aventuras, de o barco dar um bordo e a água começar a entrar; havia dois escoadouros (vertedouros) a bordo, o cipriano pegou no grande e eu no pequeno. toca a escoar água. até que o cipriano escorregou e caiu de costas, e eu fiquei, por alguns minutos, a tentar escoar o barco – mas era mais a água que entrava que a que saía.
 
enfim, depois de muitas aventuras, o marco ferido, o barco também, acabámos por ficar com um honroso último lugar.
 
na hora da entrega das medalhas fui eu recebê-las em nome dos três. ao fim e ao cabo atendendo à minha longa experiência – reconhecida pelo senhor presidente da junta de freguesia – bem o merecia.
 
estes anos todos passados, o cipriano morreu, o presidente da junta já não é presidente, o marco é arrais e mestre na torreira e eu vivo na figueira da foz.
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cais do bico; regata do emigrante; 2006