os moliceiros têm vela (470)


o meu próximo livro

torreira; regata da ria; 2009
vou escrever um livro 
de poesia
inovador

a topo de página
o título do poema

duas linhas abaixo
uma citação pouco conhecida
de um autor consagrado

há que divulgar o que li
a minha ilustrada ilustração

o resto da página em branco

o que eu pretendo
não é que saibam que escrevo 
mas que leio muito

que diabo
sou um doutor das letras

“Moliceiros” do Adriano Nazareth


Amigo Cravo:

Não sei se conhece este filme “Moliceiros” do Adriano Nazareth. É pena o casal de namorados que desfeia um bom trabalho etnográfico.

Agarrado, vai o meu filme “Moliceiros, Tempo para morrer”, do qual já não subscrevo tudo o que disse.

Abraço.

Diamantino Dias

(muito interessante este documentário e a citação de raul brandão, quando afirma ser o moliceiro barco de pesca. quando atravessou a ria de norte a sul, a bordo de um moliceiro, o escritor deve de ter visto as enguias que vinham misturadas com o moliço arrancado ao fundo da ria e pensou “este barco também pesca” – pensou e escreveu. era o tempo da fartura de enguias, mas isso não faz do barco moliceiro um barco de pesca. que sirva de nota a quem descreve o que vê sem saber cuidar do porquê.

não pretendo com isto criticar raul brandão, mas aproveitar para chamar a atenção dos “olheiros” dos nossos dias para quando legendam as suas imagens

agora deliciem-se com a memória)

os moliceiros têm vela (468)

os moliceiros têm vela (468)


a luz corta o silêncio

a luz corta o silêncio
uma vela poisada na memória
acende os dias por

iluminado tempo este
que o silêncio habita

o sol fere magoa sara
a luz quebra-se na ria

o moliceiro cresce no vento
é ave e voa 
é a luz que corta o silêncio

(regata do emigrante; cais do bico; 2008)

os moliceiros têm vela (467)


se não houvesse homens
quem faria os barcos
quem os manejaria

o futuro dos moliceiros
se o houver
está no querer de quem manda

que homens de fazer
os temos

o rui miguel (russo, índio…) na preparação da regata da ria 2020

foi um dos jovens tripulantes que ganharam a regata do s. paio, de 2021

os moliceiros têm vela (466)


tem os olhos límpidos
que lembram a ria 
quando ainda enguias havia

será o moliceiro que mais anos carrega no barco. a casa dos pais do ti zé rebeço, ficava em frente à casa dos meus. era de lá que vinha o leite que bebíamos. 

tem os olhos límpidos
"até os matamos, cravo"
esta é a única mentira que lhe conheço
mas é tão nossa que é verdade

mais de 80 anos e um sorriso de criança no olhar
o meu amigo ti zé rebeço

(torreira; são paio; 2010)

os moliceiros têm vela (465)


entre 2010 e 2021 foram muitos os moliceiros que desapareceram. os que de novo foram feitos não os superam.

não vou citar nomes de homens e barcos, mas seja o ti abílio, amigo do peito, mestre das artes do mar e da navegação – que já não tem moliceiro e por isso não estará presente na regata de hoje -, o símbolo do amor a estas aves tão belas a que deram, por arte e ofício, o nome de moliceiros

torreira; regata do são; 2010