retratos de rua


0 ahcravo_Imagem 018 o fitas garreiada fig foz 2008

santo
santo santo santo
o dia em que acordo
e ainda me levanto
gosto muito de santa
apolónia e de são bento
embora entre campanhã
e oriente prefira a última
santo santo santo
é o depósito atestado
autonomia para duas
semanas duas santas
santo santo santo
és tu que me leste
sem te ter pedido tanto
(figueira da foz; 2008; “o fitas”)

 

escuta

escuta


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luis ferreira na peça “monólogo do diabo” de antónio tavares

escuta o vento
no fremir das folhas
das árvores nuas
 
entre luz e sombra
a fronteira é ténue
 
muitos sucumbem
ao peso da luz
e caem na sombra
 
nas árvores nuas
assobia o vento
por entre os ramos
 
ténue a fronteira
entre sombra e luz
 
(figueira da foz; 06 abril 2019)
os moliceiros têm vela (353)

os moliceiros têm vela (353)


a minha gente
 
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como a erva pelos campos
se chuva houver
assim a festa pelos corpos
 
são da beira ria a gente
o que mais puro e natural
 
não sabem de outro palco
que o da vida
são a alegria de o serem
 
são da beira ria a gente
no coração um moliceiro
 
nas mãos o haver para dar
tanta alegria guardada
para dias de festa onde à mesa
não lhes cabe haver lugar
 
são a minha gente
 
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(murtosa; cais do bico; 31, março, 2019)

crónicas da xávega (296)


a primeira flor
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
abrem-se no rosto trilhos
salgados de tanto mar
perdem-se no longe os olhos
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
falarei sempre do sonho
quando no infinito os olhos
inventarem um ser diferente
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
amanhã minha neta
que foste do meu sangue
a primeira mulher
não terás o rosto assim
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas são estes os rostos
que eu quero que lembres
e faças teus porque meus
deste ter sido aqui mais um
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas
hoje é o teu primeiro dia
e esta a flor que te ofereço
0 ahcravo_DSC_0666 sep

a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(torreira; 2013)