os moliceiros têm vela (420)


raízes

ti zé rebeço ( torreira; regata s. paio; 2020)
vêm de longe
trazem nos olhos a limpidez
da ria antiga


homens inteiros
fogem das ribaltas
que outros buscam
a qualquer preço


escondem-se para serem
o que sempre foram
são eles serão sempre eles


as minhas raízes

ti zé formigo


morreu ontem, 15 de agosto de 2020, o ti zé formigo (67 anos)

era um bom amigo, do que lhe conhecia, admirava a dedicação à esposa – em cadeira de rodas – e a alegria

tinha defeitos? quem não tem… fico triste e penso que a murtosa também

à família, em particular à esposa, o meu silêncio com um sorriso do ti zé dentro – lembrá-lo-ei sempre assim

ao ti zé formigo

não ti zé

não estou na murtosa

nem você agora


era nas regatas de moliceiros

ou bateiras

ou no são paio

que nos encontrávamos

havia sempre um abraço

um sorriso uma salvação


uma salvação ti zé

agora que ninguém o salva

lembro-me do tempo

em que na murtosa

as pessoas se salvavam


vão partindo os amigos

a família desse tempo

e eu vou partindo aos poucos

bocados de mim que se foram

pedaços de outros

que comigo ficam e são raízes


ti zé

você é uma raiz

que fica comigo

abraço do “senhor cravo”

(murtosa; 2019; figueira da foz; 2020)

esboço do agostinho


a fotografia o esboço.

0 ahcravo_DSC_4069

torreira; agostinho canhoto; 2013

 
o tempo escrito no grito
 
os amigos estão para além
da imagem que deles fizemos
 
são muito mais que uma foto
nela apenas o que deles vemos
sentimos julgamos saber
 
o agostinho é o pescador
é todos os que têm casa no mar
que a terra é perigosa
 
o agostinho é o agostinho
a foto é apenas um pouco dele
ou melhor é ele dentro de mim
 
nada mais que um esboço
depois da obra

gente da torreira


0000000 ahcravo_DSC_8860_agostinho trabalhito

durante muitos anos, e mais alguns espero, fotografei as gentes da torreira: no mar, na ria, nas ruas
 
há um amigo que gosta de das fotos fazer filmes, com as minhas fotos, e de outros também, e … fez mais este.
 
fica mais uma memória, mais uma viagem no tempo, que muitos tempos aqui estão.
 
obrigado a todos os que me deixaram fotografá-los e que sabem que nunca o fiz com outra intenção se não deixar a memória de um tempo e levar até mais longe, aos familiares emigrados, as imagens da terra e da família que tiveram de deixar.
 
um grande abraço do vosso amigo

os moliceiros têm vela (405)

os moliceiros têm vela (405)


meditação sobre a palavra

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; cipriano brandão; 2006

 
o homem inventa
a ferramenta
que reinventa o homem
e a palavra
 
a palavra para denominar
a ferramenta
 
a ferramenta exigirá novas
ferramentas novas palavras
 
o poeta inventa a palavra
pelo prazer da música das letras
pela sonoridade pelo ritmo
pelo prazer de
 
as palavras do poeta
não nomeiam nada excepto
a si mesmas e são
as mais puras criações
do homem

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

cais do bico; cipriano brandão; 2006

 

retratos da minha terra


ahcravo_DSC_5939_agostinho 2013 bw
tenho amigos assim
tão virtuais que reais são
colhem as minhas fotos
fazem filmes
e enviam-mos
estou vivo
e com amigos assim
estou no mundo
a minha terra
são muitas terras
obrigado a ti
que não queres ser citado
mas que na sombra
deste outra luz
à luz que roubei por aí