os moliceiros têm vela (365)

os moliceiros têm vela (365)


josé rendeiro (rebeço) e abílio fonseca (carteirista)
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à esquerda ti zé e à direita o ti abílio ( aveiro; regata da ria; 2019)

 
os dois a rondar os 80 anos, o ti abílio com mais alguns e o ti zé quase por lá, são os resistentes de um tempo que hoje se revê nos moliceiros.
 
sem homens não há barcos, e estes homens estão quase a passar o testemunho, a idade é mais forte que a teimosia e o amor que os liga à ria e aos moliceiros.
 
há muitos anos que tenho por eles admiração, respeito e amizade.
 
queria deixar aqui o meu abraço a ambos e o desejo de que quem direito lhes reconheça o valor e o amor que sempre dedicaram ao emblema da terra: o moliceiro.
 
bem haja ti abílio, bem haja ti zé. se a ria tivesse ruas ou praças, certamente que duas teriam o vosso nome.
ti zé rebeço

ti zé rebeço


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ti zé rebeço, cais do bico; 22_06_2019

do tamanho da ria
maior que o barco
em tão pequena terra
enorme
 
a limpidez dos olhos
a clara palavra
 
falamos em silêncio
dentro do abraço
somos mais que nós
mais que agora
 
na humildade do sábio
bebo um pouco
do que nunca
nunca
serei
 
a limpidez dos olhos
a clara palavra
o HOMEM
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ti zé rebeço, cais do bico; 22_06_2019

 

retratos de rua


0 ahcravo_Imagem 018 o fitas garreiada fig foz 2008

santo
santo santo santo
o dia em que acordo
e ainda me levanto
gosto muito de santa
apolónia e de são bento
embora entre campanhã
e oriente prefira a última
santo santo santo
é o depósito atestado
autonomia para duas
semanas duas santas
santo santo santo
és tu que me leste
sem te ter pedido tanto
(figueira da foz; 2008; “o fitas”)

 

escuta

escuta


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luis ferreira na peça “monólogo do diabo” de antónio tavares

escuta o vento
no fremir das folhas
das árvores nuas
 
entre luz e sombra
a fronteira é ténue
 
muitos sucumbem
ao peso da luz
e caem na sombra
 
nas árvores nuas
assobia o vento
por entre os ramos
 
ténue a fronteira
entre sombra e luz
 
(figueira da foz; 06 abril 2019)
os moliceiros têm vela (353)

os moliceiros têm vela (353)


a minha gente
 
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como a erva pelos campos
se chuva houver
assim a festa pelos corpos
 
são da beira ria a gente
o que mais puro e natural
 
não sabem de outro palco
que o da vida
são a alegria de o serem
 
são da beira ria a gente
no coração um moliceiro
 
nas mãos o haver para dar
tanta alegria guardada
para dias de festa onde à mesa
não lhes cabe haver lugar
 
são a minha gente
 
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(murtosa; cais do bico; 31, março, 2019)

crónicas da xávega (296)


a primeira flor
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
abrem-se no rosto trilhos
salgados de tanto mar
perdem-se no longe os olhos
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
falarei sempre do sonho
quando no infinito os olhos
inventarem um ser diferente
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
amanhã minha neta
que foste do meu sangue
a primeira mulher
não terás o rosto assim
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas são estes os rostos
que eu quero que lembres
e faças teus porque meus
deste ter sido aqui mais um
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas
hoje é o teu primeiro dia
e esta a flor que te ofereço
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(torreira; 2013)