crónicas da xávega (194)


carta ao meu amigo miguel bitaolra

0 ahcravo_ DSC_4710 marco 09_miguel bitaolra bw
o tempo correu depressa
ti miguel
você deixou o mar
o corpo já não permite
a dureza da faina

lembro-me de si
e do alfredo fareja
das alegrias
das brincadeiras
do mar ali e nós

o ti alfredo já partiu
já partiram muitos
a areia é ainda a mesma
os barcos ainda vão ao mar
ainda há companhas na torreira

apeteceu-me escrever-lhe
oito anos depois
de lhe ter tirado esta foto

apeteceu-me a memória do que foi
quando não sei o que será

apeteceu-me agora
e agora foi mais forte

abraço ti miguel

0 ahcravo_DSC_4710 marco 09
(torreira; 2009)

mulheres da torreira


mulheres da torreira

0 ahcravo_DSC_4882

teresa castelhana e a filha carla safam redes

elas são donas de casa
elas vão ao rio
elas safam redes
elas parem filhos
elas lavam roupa
elas vendem peixe

elas são mariscadoras
elas são arraisas
elas cirandam
elas escolhem
elas cozinham
elas cosem roupa

elas fazem as contas
elas trabalham no mar
elas vão às compras
elas esperam que eles cheguem
da safra no mar alto

elas choram
elas riem
elas brincam
elas sofrem
elas estão sempre

elas são a camarada

(torreira)

(torreira)

crónicas da xávega (186)


notas de um retirante

0-ahcravo_-dsc_6928

ti augusto

a partir de 2011 a companha do marco passou a ser composta maioritariamente por pescadores não residentes na torreira, nem no concelho.

o ti augusto, na fotografia, foi um deles.

para quem queira um dia fazer um estudo sobre a evolução das companhas da torreira, aqui fica mais esta dica.

os moliceiros têm vela (219)


da memória e das palavras

0 ahcravo_DSC_6132 bw

o ti zé rebeço

olho para a foto do ti zé rebeço e lembro-me dos meus tempos de canalha e de quando ia comprar leite a casa dos pais dele, mesmo em frente à dos meus.

e a palavra “canalha”, lembra-me outra que o meu tio avô, césar gorim, costumava usar numa frase que amiúde lhe ouvia – “são uns garotos” – e que ainda ouço na boca do ti zé rebeço.

na murtosa, quando as pessoas diziam “canalha”, referiam-se à “miudagem” e quando se usava a palavra “garoto”, era para classificar aqueles que usando calças se julgavam homens e faltavam à palavra dada, aldrabavam, enfim…….

hoje, se digo “garoto” refiro-me a um miúdo, e se digo “canalha” é insulto e toda a gente o sabe.

voltando ao ti zé rebeço e à memória de um tempo, usando as palavras dessa época e da terra, queria dizer:

– cada vez há menos canalha por aí e garotos, infelizmente, ainda continuam a abundar
(torreira; regata da ria; 2011)