“No Húmus” de rui miguel fragas: a apresentação


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em 1917 raul brandão publica a obra “Húmus”

em 1967, no cinquentenário da publicação de raul brandão, herberto helder publica o poema “Húmus” usando apenas palavras retiradas da obra homónima de raul brandão

em 2017, é a vez de rui miguel fragas publicar o livro “No húmus”, uma obra composta por 20 poemas em que “Todos os títulos dos 20 poemas que compõem este livro foram retirados dos 20 capítulos do Húmus de Raul Brandão, por ordem correspondente, segundo o texto da 3.ª edição (conforme edição Opera Omnia, 2017), uns literais, outros apócrifos …..

a minha opinião? li-o e reli-o, como todos os anteriores e dele digo como de todos: venham mais que autor temos

do lançamento deste livro, que decorreu no dia 2 de dezembro de 2017, na biblioteca municipal da figueira da foz, fica o registo possível.

Biografia

Rui Miguel Fragas, pseudónimo de António Rui Féteira, nasceu em São Miguel de Poiares (Coimbra). Licenciou-se em filosofia na Universidade de Coimbra.Publicou alguns poemas e contos nas revistas Alma Azul, Aeroplano e InComunidade.

Tem três de poesia publicados: “O Nome das árvores” (Poética Edições, 2014), “Não sei se o vento” (Poética Edições, 2015) “O rumor das máquinas” (UA Editora,Universidade de Aveiro, IV Prémio Literário Aldónio Gomes, 2015). Participou na antologia de poesia “As Vozes de Isaque, Derivações Poéticas a partir da obra O Último Poeta” (Poética Edições, 2016).

Em 2017 venceu a VII edição do Concurso de Poesia na Biblioteca (Condeixa-a-Nova) e publicou uma antologia de contos: “A última rodada” (Poética Edições, 2017).

“No Húmus” é o quarto livro de poesia, o primeiro em edição de autor.

(Nota do autor: Todos os títulos dos 20 poemas que compõem este livro foram retirados dos 20 capítulos do Húmus de Raul Brandão, por ordem correspondente, segundo o texto da 3.ª edição (conforme edição Opera Omnia, 2017), uns literais, outros apócrifos. Do resto escutei os ecos do Húmus de Herberto Hélder, material e regra)

na morte de sophia_caminho da manhã


 

 

caminho da manhã

 

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

in Livro Sexto, 1962

josé fanha_os resistentes


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ser deste país, é ser resistente, ter de o ser.

há nomes que sabem a resistência, que trazem sempre um amigo, venham eles e sejam mais que cinco.

há nomes que só de os dizer nos fazem sentir maiores, capazes de.

um deles é josé fanha, com ele, por ele convocados vêm os que bandeiras são: zeca afonso, francisco fanhais, manuel freire e tantos mais.

com eles crescemos para sermos mais