memórias da gralheira (1)


não sou
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serra da gralheira; covas do monte; 2008

por um caminho de cabras
rente a um rio invisível
as palavras buscam
o mar
oiço-as na rebentação dos dias
nas vozes trazidas de longe
tão longe
por que caminhos andavam
quando se perderam
nunca saberei
por um caminho de cabras
quem sabe a direcção do vento
será pastor ou adivinho
e eu não sou

o tempo parou


sem moldura

o tempo parou

no umbral da porta
só a luz passou
coada, finíssima
tudo cobre
com a patine do tempo
em que o tempo
parou

tempos houve
em que fogo
gente, sopa
mesa, vinho
pão, calor

tempos
parcos de haver
fartos de partir

foram-se
levando com eles
a memória
e o tornar

parou o tempo
no exacto momento
em que a porta
passaram
prometendo
a si mesmos
que um dia
quem sabe
outra casa
farta e nova
ali fariam

não voltaram
para onde foram
aí ficaram
e o tempo

o tempo parou

(macieira; serra da gralheira; s.pedro do sul)

as quatro estações (III)


serra da gralheira, o que resta?

 

é outono

vê como os campos são mais frios

e mais castanhos meus olhos

e as árvores

folha a folha me dispo

a ti chego despojado de todas

as minhas máscaras

nas águas límpidas

dos primeiros regatos

das primeiras chuvas

refresco os lábios

todo o meu corpo treme

na antevisão da lareira

ao fogo o amor

é outono

nem só o verão é ardor