crónicas da xávega (379)


aos amigos

torreira; ti alfredo fareja; 2005
aos amigos o abraço
braços de dar

aos amigos ainda mesmo se
aos amigos sempre
só porque

pela metade nada nunca
que só tudo aos amigos

por entre os braços a rede
corre como o tempo
que os levou e os trouxe

nem sempre partiram como
chegaram amigos foram
incertos no tempo de ser

aos amigos o abraço
o abraço aos amigos
sempre

crónicas da xávega (377)


nada

xávega; arribar; torreira; 2013
nada se repete nada
é o mesmo nunca

chegarei sem regressar
cansado de ver 
 
desiludido de conhecer 
de já o saber 

a costa é longa diversos
os homens não as raízes

são cada dia mais ténues
os elos que a desilusão corroeu

outros homens virão
outros eus mais sábios

o mar de antes de sempre
não é de ninguém 
mesmo de quem dele dono se julga

fábrica de desilusões este
estar aqui ainda

por entre os dedos escorreram
os dias e os homens

crónicas da xávega (376)


obrigado eugénio

praia da costa de lavos; 2019
dizer
o teu nome

dizer
tantas vezes a mesma palavra
até ela perder o sentido
a sua ligação com o nomeado

dizer
como é doloroso o parto
das palavras
que ainda não disse
ou se disse como as escrevi

dizer
tanto em tão pouco
ser imenso e ínfimo
límpido e complexo

escrever 
“com palavras amo”
e escutá-las
na boca do outro

olhar as gentes do mar e da ria – uma parceria transatlântica (2)


pensa-te

a realidade não é o que
escreveste
fotografaste
pintaste

muito pouco seria
se só isso

registas
apenas parcelas do todo
crias um novo real
és por isso responsável
pelo teu mundo
é teu

oferta tua 
aos outros
cuida do teu
jardim

pensa-te

a escolha das fotos e do poema foi feita no estados unidos

os amigos da terra, da terra são porque dela gostam e, por vezes, oferecem-nos prendas assim

ficam na sombra porque sempre ficaram, são amigos muito especiais

abraço-os