crónicas da xávega (303)


 

alguns são meus amigos
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o carregar do saco 

 
não são capa de revista
não têm nome
são apenas um número
na estatística
 
sabe-se deles quando
à mesa peixe fresco
da costa fala do verão
 
são em fim de vida
o que no início alguns
voltam por ser pouca
a paga por tantos anos
parcas as reformas
 
deles só sei que
 
não são capa de revista
não têm nome
são apenas um número
na estatística
 
alguns são meus amigos
 
(praia de mira; 2009)
crónicas da xávega (301)

crónicas da xávega (301)


o silêncio
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o meu amigo agostinho trabalhito (canhoto) a soltar o arinque do calão

o silêncio
é um lugar habitado
 
música dos amigos
ruídos de memórias agrestes
balbuciar de crianças
 
o silêncio
é um lugar habitado
 
conheço-o bem demais
a insónia povoa-o
de nomes gestos imagens
 
o silêncio
é um lugar habitado
 
onde te encontro
sem te ver
 
(torreira; 2013)
 
crónicas da xávega (299)

crónicas da xávega (299)


lavradores do mar
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abrem nas ondas regos
ao mar vão semear redes
sem saberem da colheita
 
chamam terra à areia
onde retornam espuma dorida
 
não lhes fales das serras
do silêncio do chilrear das aves
nunca o entenderão
 
são lavradores do mar
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(torreira; 2016)

crónicas da xávega (298)


ti henrique gamelas

ti henrique

trago no rosto
as memórias que o mar rasgou
fundas de haver história
linhas escritas com tinta de vento
e palavras de raiva
trago no rosto
a minha alma cansada de viver
estes olhos comidos pelo tempo
de tantas lágrimas sofridas
de tantas vidas vividas
trago no rosto
uma máscara que não podem
arrancar
trago no rosto
o mar
(torreira)

crónicas da xávega (296)


a primeira flor
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
abrem-se no rosto trilhos
salgados de tanto mar
perdem-se no longe os olhos
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
falarei sempre do sonho
quando no infinito os olhos
inventarem um ser diferente
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
amanhã minha neta
que foste do meu sangue
a primeira mulher
não terás o rosto assim
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas são estes os rostos
que eu quero que lembres
e faças teus porque meus
deste ter sido aqui mais um
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas
hoje é o teu primeiro dia
e esta a flor que te ofereço
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(torreira; 2013)