mãos de mar (55)


quando o mar trabalha

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depois de seco o saco é de novo fechado para o aparelho da xávega poder fazer novo lanço. ao acto de fechar o saco chama-se “dar o porfio”, é o que está a fazer o meu amigo agostinho canhoto

é de rede
deitada ao mar do tempo
este livro

em terra
ficará a contar estórias
a falar de muitas vidas
e saberes

fora dele muito mais
que para tudo
saco não havia
e peixe houve que saltou

deu-se o porfio
fechou-se o saco

é na praia que encontras
os búzios que procuraste
em casa

(torreira; 2011)

 

 

crónicas da xávega (260)


cacilda

quantos instantes tem o ano
cacilda
quantos anos um momento

perdi a noção do tempo
cacilda
voou como as gaivotas
em torno de ti e são muitas

o tempo tem muitos tempos
cacilda
é enorme o tempo dos amigos
o teu tempo

há quanto tempo te conheço
não sei

no esvoaçar dos dias salgados
perdi a noção do tempo
é infinito todo o instante
se ao pé do mar dos amigos

cacilda
neste instante cabem muitos anos

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cacilda brandão (gamelas), mulher de mar e da maior família da torreira, os gamelas

(torreira; 2011)

 

crónicas da xávega (256)


a mais ninguém

cinzentos
os dias sucedem-se
monótonos diversos
suceder-se-ão

o tempo
esse assassino impune
a cada dia me leva amigos
levar-me-á

o que o tempo
me não roubou ainda
homens levaram

perdoo ao tempo
é da sua natureza
a mais ninguém

a mais ninguém

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(torreira; a escolha; 2009)