crónicas da xávega (208)


arrancaram-lhe as raízes

0 ahcravo_ DSC_4098 bw

arrancaram-lhe as raízes
picaram-lhe com finas agulhas
os órgãos de sentir
fizeram-no de pedra bruta
in sen sí vel

chorou encostado a uma parede
era de dia e havia gente na rua

sabias que se pode gelar de verão?

não lhe arrancaram a memória
nunca o conseguirão

0 ahcravo_ DSC_4098

(torreira; 2013)

mãos de mar (24)


o caminhar

0 ahcravo_DSC_3702

arribam as mangas

o caminhar
tudo te desvendará
por vezes será doloroso

segue sempre pelo lado do sol
rente à cal tudo se desenha

saberás então
se apenas sombra o homem

no pão a sardinha escorre
também a verdade no tempo

(torreira)

crónicas da xávega (207)


a memória

0 ahcravo_DSC_0998

o carregar do saco seco na zorra

a memória escreve-se
na areia e vai com o vento

não há malhas que a prendam
e tudo flui somando-se dias aos dias
assim sempre mesmo já quando

saber-lhes os nomes hoje ainda
é mistério que não entendo

aceito
como aceitarei
o não os saber

sei que o tempo
corre numa praia
por onde passo
e já tanto passei

olho tudo com a sensação
de que estive onde estive
sempre de corpo inteiro

assim como não estarei

(torreira; 2016)

mãos de mar (23)


de tanto dares

0 ahcravo_DSC_2693 armando 2017

de tanto dares
a mão
ficaste sem ela

deste porque sim
receberam porque também

não esperes mão
da mão a quem mão deste
o que foi dado
esgotou-se no acto primeiro

mão a mão
enchem muitos o papo
isso te digo

coisas de galinhas
ou galos de capoeira

(costa de lavos; companha do armando; 2017)