crónicas da xávega (371)


era uma vez o abraço

praia da leirosa; carregar a rede; 2019
 um simples gesto
 de quatro braços feito
 solidários amigos
  
 tocam-se cotovelos
 tão pouco para tanta fome
 a morrer nos olhos
  
 um abraço um abraço
 quantos por dar
 
 abraçamos a vida
 nunca um abraço  
 doeu tanto 

crónicas da xávega (370)


basta

xávega; arribar; torreira; 2016
 há tanto para dizer
 e são tão poucas as palavras
 
 resumo-me ao fazer
 ao saber que se quisermos
 faremos e seremos
 
 digo basta e tu sabes  
 que outra palavra por detrás
 
 digo basta e dói-me
 esta gente desiludida  
 a votar no engano  
 
 há tanto para dizer
 não basta escrever  
 não outra vez não
 
 basta
 
 

crónicas da xávega (367)


rente ao mar

praia da costa de lavos; 2019
 vêm os homens do mar  
 não deixa o mar o homem
  
 onde antes de corpo todo
 só olhos navegam agora  
  
 conheço-os pelo olhar
 pela saudade salgada  
  
 nasceram em terra e à terra
 o corpo um dia darão
 
 rente ao mar o cemitério
 assim não estranharão 

crónicas da xávega (366)


dar o porfio

xávega; dar o porfio; torreira; 2011
olho as palavras
que foram minhas
com o espanto
de o terem sido
 
quem fui
para as ter escrito
 
quem sou
quando as escrevo

quem serei
quando as lerem
  
indiferente o agostinho
dá o porfio ao saco

essencial para o pescador
é um bom laço de carapau
 
 

crónicas da xávega (365)


sentou-se

costa de lavos; 2017
 
gostava muito de se sentar
e ficar assim a olhar o mar
 
um livro
poisado nos braços
os olhos pendurados no horizonte
 
como era imensa a janela
incomensurável a casa 

(nota: reparem na “ferramenta” de aço inox, utilizada para suportar a manga, a conduzir e impedir que roce na areia. na praia da torreira e na de mira, conhecia a técnica do cruzamento dos bordões/estacadões que se fazia para produzir este efeito. inovação meus caros, na xávega inova-se, é bom que se inove porque é sinal de que continua. será que algum dia, alguém ao ver isto vai dizer que já não é xávega? sei lá?)

crónicas da xávega (361)


escrevo

torreira; 2005
 escrevo o tempo com imagens
 guardadas nos baús digitais
 da memória comprada
 
 
 a informação diz-me o quando
 eu sei onde ainda sei
 
 
 quando tudo foi ontem e ontem
 foi há tanto tempo
 
 
 sei deste caminho feito
 de achares e perderes
 sei que valeu a pena
 
 
 homens que conheci para desconhecer  
 o tempo tudo limpa e lava  
 mesmo o que mais fundo à superfície vem
 
 
 escrevo o tempo com imagens
 como todos os que arriscam palavras
 escrevo-me também e isso não é novo
 para ninguém