MANUEL DE FREITAS [ Vale Santarém, 1972 ]

MANUEL DE FREITAS [ Vale Santarém, 1972 ]


para quem gosta de poesia um blog a seguir

POESIA Y OTRAS LETRAS

Créditos da imagem: fotografia de Inês Dias


Ninguém melhor do que Manuel Freitas conseguiu falar da tragédia metafísica sem fuga e da tortura de estar vivo numa sociedade onde o conformismo se confunde com a barbárie e o erro. Mesmo Portugal, lugar do fingimento pessoano, não escapa a sua escrita de “país devastado, / o símbolo envergonhadamente europeu … da austeridade, / do analfabetismo e da luz chegando a remotas, / quase míticas aldeias” (Cervejaria Leirão). Um emaranhado de fracassos e perdas atravessado pelos mortos e, mais ainda, pela morte. De certo modo, o poeta traça uma visão da ruina de nossa civilização ocidental na perspectiva histórica da poesia. Ei-nos num lugar paradoxal, onde a poesia diz o que as pessoas não percebem.

Spot “A vida não pode ser assim tão assustadora”, diz a margarina becel em horário nobre, para não-cardíacos. O que, na verdade, me deixa saudades…

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FRANCESCO SCARABICCHI [ Ancona 1951 – 2021 ]

FRANCESCO SCARABICCHI [ Ancona 1951 – 2021 ]


da poesia em italiano

POESIA Y OTRAS LETRAS

Crediti dell’immagine: https://unisaperi.it

Un calarsi nella trama dell’umano, del suo radicamento temporale, del suo patire fra la consistenza e la dissoluzione. La durata e la caducità, sono le polarità che si leggono nel volume postumo La figlia che non piange, di Francesco Scarabicchi. La verità, le funzioni veritative sono tutte lì, nel respiro del tempo e il mistero delle cose fatte di tempo. Il suo è un dire sì alla vita, nelle cose che passano, mutevoli e mutabili soltanto nel segreto della sua verità. Sensibile e sommesso, lontano da ogni trionfalismo, la scrittura di Scarabicchi appare munita di una naturalità che lo porta a guardare il mondo senza essere visto.

Una residenzaa Massimo Recalcati Non c'è altro luogo, credimi, che questo, tutto il bianco possibile, la pagina e poi quelle formiche delle righe a dire il poco, il molto che noi siamo, ma non tanto di me e…

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CLÁUDIA R. SAMPAIO [ Lisboa 1981 ]

CLÁUDIA R. SAMPAIO [ Lisboa 1981 ]


o prazer da poesia

POESIA Y OTRAS LETRAS

Uma característica essencial da vida emocional desta autora é o seu estado afetivo que é apresentado como a experiência de seu caráter individual. A poesia da Sampaio passa pelas raízes do mal, movendo-se entre certezas alucinadas, invocações afetuosas e relâmpagos de delírio. No entanto, para aqueles curtos circuitos da mente que atropelam o amor e o próprio ser, a escrita pode reverter plenamente a angústia dos dias, opondo-se à heterogeneidade evasiva dos elementos, a possibilidade de abraçar o Tudo, deixando de lado o caos, deixando, por alguns breves momentos, as instâncias da melancolia.

Créditos da imagem: https://www.goodreads.com

Tu sentado na praça. Entre nós uma enorme quantidade de frio., uma reunião de pombos e dis taxistas de dentadura lunar. Comove-me esta intensa fila para se chegar à ginja como se assim se chegasse à verdade das coisas, aos braços tão curtos da solidão ibérica. Comove-me a velha que sobe as saias…

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DANIEL FARIA [Baltar-Paredes 1971 – Porto 1999]

DANIEL FARIA [Baltar-Paredes 1971 – Porto 1999]


a poesia de daniel faria

POESIA Y OTRAS LETRAS

Créditos da imagem: http://sociedadejusta.pt

Neste espaço vai-se falar brevemente sobre um poeta que poderia aparecer entre aqueles já consolidados da literatura portuguesa e estrangeira. A poesia de Daniel Faria pode-se considerar uma aventura afortunada, embora breve, e literariamente prolífica, como evidenciado por uma revisão bibliográfica recentemente concluída, que visa reconstruir toda a produção deste autor. Um jovem seminarista culto, de índole mística. Um poeta intemporal. A sua é uma palavra que se encarna na existência individual e coletiva, porque é existência que se torna poesia. Ressonância humana particular e inconfundível adquirem suas líricas que enfrentam os temas da imanência e da transcendência, assim como o do conhecimento interior; tópicos em que Daniel Faria se tem entretido tornando-os o núcleo de seu pensamento. O processo meditativo é acompanhado, ou melhor, é em si mesmo também escrita lírica ligada à exegese do verso e no verso, bem como nos recessos mais aparentemente…

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MARÍA JOSÉ  QUINTELA [Vila Real 1955]

MARÍA JOSÉ QUINTELA [Vila Real 1955]


POESIA Y OTRAS LETRAS

Créditos da imagem: http://www.crearensalamanca.com

A escuridão é a nossa primeira realidade, o enigma iminente do nosso nascimento. Nosso ser microcósmico, despertando no útero, está envolto na matéria negra de nossa herança ancestral. Luz e trevas constituem o mais importante sistema dualista de forças polares que, na maioria das doutrinas iniciadoras, é a encarnação da divindade.

Em seu valor potencial, a divindade é pensamento e na dimensão do microcosmo é o inconsciente. Mas é também o som sublime, uma palavra tão húmida quanto a água e a luz que desce sobre a terra trazida pelos raios do sol. Uma palavra que se torna o movimento ou vida da divindade para todas as línguas, cores e virtudes que residem na Palavra. Para María José Quintela é também verdade, luz do ser e criação contínua do universo. O mais puro símbolo da manifestação do ser que pensa e se expressa para voltar à…

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MEMÓRIAS DE RESISTÊNCIA

MEMÓRIAS DE RESISTÊNCIA


muito interessante

POESIA Y OTRAS LETRAS

Dois amigos separados por um oceano trocam cartas ao som de um piano na Cidade do México.

Direção e Montagem: Felipe Nepomuceno.

Produção: Tereza Alvarez.

Argumento e Fotografia: Ondjaki.

Fotografia Adicional: Felipe Nepomuceno.

Trilha Sonora Original: Jazmín Solar.

Engenheiro de Som: Alan Saucedo.

Assessoria de Imprensa: CWEA. (2020)

Com: Eric Nepomuceno e Ondjaki.

Nepomuceno Filmes

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JUDITH TEIXEIRA  [1880 – 1959]

JUDITH TEIXEIRA [1880 – 1959]


excelente artigo

POESIA Y OTRAS LETRAS

Créditos da imagem: https://www.lalineadefuego.es

Nos livros de história da literatura portuguesa a presença desta poetisa é praticamente nula. Mulher e intelectual que, junto a Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, integra a vanguarda modernista portuguesa dos anos vinte do século passado. Mesmo assim, Judith Teixeira não deixa de ser um caso marginado das letras portuguesas.

Seu desafio era escolher o mistério do amor sáfico em versos de grande simbolismo e sensualidade nuna época de mudança dos paradigmas sociais impostos às mulheres. Para Judith o sexo não só indicava a dualidade do ser, mas sua bipolaridade e tensão interior. Para a sociedade portuguesa da época, a mulher era considerada como uma garantia para a reprodução dos valores morais e religiosos da sociedade. A aspiração social generalizada da maioria das mulheres era ser, como as das classes ricas, esposas e mães dentro da família, um modelo feminino que se estabeleceu na sociedade…

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“Moliceiros” do Adriano Nazareth


Amigo Cravo:

Não sei se conhece este filme “Moliceiros” do Adriano Nazareth. É pena o casal de namorados que desfeia um bom trabalho etnográfico.

Agarrado, vai o meu filme “Moliceiros, Tempo para morrer”, do qual já não subscrevo tudo o que disse.

Abraço.

Diamantino Dias

(muito interessante este documentário e a citação de raul brandão, quando afirma ser o moliceiro barco de pesca. quando atravessou a ria de norte a sul, a bordo de um moliceiro, o escritor deve de ter visto as enguias que vinham misturadas com o moliço arrancado ao fundo da ria e pensou “este barco também pesca” – pensou e escreveu. era o tempo da fartura de enguias, mas isso não faz do barco moliceiro um barco de pesca. que sirva de nota a quem descreve o que vê sem saber cuidar do porquê.

não pretendo com isto criticar raul brandão, mas aproveitar para chamar a atenção dos “olheiros” dos nossos dias para quando legendam as suas imagens

agora deliciem-se com a memória)

MARIA AZENHA [ Coimbra, 1945 ]


é assim a poesia

POESIA Y OTRAS LETRAS

Créditos da imagem: wikimedia.org

No blog de ahcravo gorim ( https://ahcravo.com ) ouvi pela primeira vez uma poesia da coimbrã Maria Azenha e, confesso, deixou-me muito intrigado. Encontrar um livro dela, apesar de uma produção intensa, é uma tarefa um pouco difícil. Mas, no final, com muita sorte, foi surpreendentemente possível.

Nesta pagina digital vou apresentar algumas poesias da autora tomadas do livro A casa de ler no escuro, edição espanhola bilingue da editora Trea, na tradução de José Angel Cilleruelo, Gijón, 2019.

Maria Azenha decide empreender com esta obra uma interpretação muito original da nossa realidade existencial em seus aspectos caóticos e violentos, em que a injustiça e a dor parecem ser a única certeza possível. Para descrevê-la, ela possui uma escrita enigmática que em alguns momentos pode se tornar mistérica e espiritual.

História simbólica sobre o teatro do mundo e prática duma palavra entendida como purificação na…

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ir ao mar com o chico giesteira em 2006


em 2006 para além das companhas de pescadores da torreira – olá sam paio e maria de fátima – trabalhavam ao sul do molhe sul duas companhas de pescadores do furadouro : a companha do jacinto e a companha do pepolim. a primeira com o barco “srª da piedade” a segunda com “o jovem”.

a companha do jacinto só fez a safra de 2006, a do pepolim ainda por lá continua.

liderada pelo arrais chico giesteira, descendente de uma das famílias de arrais mais tradicionais do furadouro, o chico é um grande arrais, certamente o melhor arrais que até hoje conheci.

para acompanhar a faina tinha de esperar que viessem ao pão, à torreira, ao meio da manha e me dessem boleia de tractor até ao acampamento, onde almoçava com a companha.

um dia houve em que, de manhã, vendo o mar mais manso, disse ao chico: hoje vou ao mar.

quando o barco se preparava para partir desci até à borda de água e ao olhar para as ondas mudei de ideias e disse ao chico: afinal já não vou.

de sorriso nos lábios respondeu-me : eu já sabia, você só viu o mar lá de cima.

à tarde o mar acalmou um pouco e o chico deixou-me ir com eles.

é desse lanço que, sem a espectacularidade que de terra proporciona a largada e o arribar do barco, resultam os registos que seguem

(documento escrito em 2010)

como a corrente dominante na costa ocidental portuguesa é de norte, o barco de mar vai em direcção ao norte para que a rede venha trazida pela corrente até próximo do local de largada.

a distância a que é feito o lanço depende do comprimentos das “calas”, cordas que ligam a rede a terra.

as calas são duas:

o reçoeiro – cuja extremidade fica em terra

a mão de barca – que virá para terra com o barco de mar

neste registo é o reçoeiro que vai saindo do barco de mar à medida que nos vamos afastando da costa

por momentos estamos no meio do mar rodeados de silêncios e somos senhores do infinito.

existimos apenas, peixes outros que sobre as águas navegam.

única a sensação.

longe de tudo e tão perto de nada, o pescador é dono e senhor, por uma fracção de tempo, de um universo só seu: a liberdade.

é preciso ir ao mar para sentir que só a terra é falsa

lança-se o arinque do reçoeiro

as calas ligam à manga da rede no “calão”. aí se prendem os “arinques”, bóias que servem de referência quando se ala a rede para terra.

um alar bem feito traz em paralelo o arinque da mão de barca e o arinque do reçoeiro: ou seja a rede tem de vir paralela à costa, para que não o peixe não fuja.

nalgumas redes há ainda quem ponha uma bóia no meio do saco o “calime”.

o calão não é mais que um pau que se coloca no início da manga para a manter aberta, impedindo o peixe de fugir.

interessante é que calão era também o nome dado ao barco que, na xávega mediterrânica e algarvia, levava a rede.

mas falar de tudo isto era um romance

lento o movimento continua.

o saco desce ao mar onde, quem sabe, carapau.

a mão de barca começa a ser lançada ao mar

a manga da mão de barca é lançada ao mar.

a rede está toda na água

o arinque da manga da mão de barca é lançado ao mar.

segue-se agora a cala da mão de barca.

a rede está lançada. virá peixe?

ser pescador artesanal é “lavrar o mar”, como já foi escrito, e não saber da colheita feita a sementeira, acrescento eu.

agora sim, a rede está toda na água

dentro da barca
as mãos
sobrantes nunca
descansando
por vezes
atentas na corda

na outra mão
a de barca
que do barco mão é
quando no caminho
para terra
o segura
o ampara do embate
das ondas
do grito
do mar

as mãos
são
o homem
na raiz
das coisas
na fome
de vida
no amor
no sal
no sul
onde mãos
por mãos
esperam

outras mãos
calam a cala
e é de barca a mão
que as tange

assim na xávega
renascem
fortes e pujantes
ternas e amantes
as mãos
sobrantes nunca

há no pescador um misto de arte e esperança.

assim se faz a xávega

os movimentos repetem-se agora em sentido inverso.

de regresso é a mão de barca que zune

o motor no máximo. é preciso chegar rápido a terra, onde um tractor já começou a puxar o reçoeiro.

a ida ao mar está a chegar ao fim. a terra aproxima-se.

um homem cresceu entretanto

há quem olhe para os carros, outros para a marca da roupa, outros para os rostos …. outros devoram com os olhos o que não comem

todos buscam o mesmo: conhecer

eu olho para as mãos e sei que aqui, aqui, encontro tudo.

as mãos do pescadores são rudes, gretadas, feridas, mas extremamente limpas.

são mãos que o mar lava e areia esfrega.

são mãos de trabalho, mãos de homens e mulheres que trazem nelas a história de uma vida, de um amor, de uma guerra, de uma faina,….

de uma gana de ganhar a vida no mar