MARIA AZENHA [ Coimbra, 1945 ]


é assim a poesia

POESIA Y OTRAS LETRAS

Créditos da imagem: wikimedia.org

No blog de ahcravo gorim ( https://ahcravo.com ) ouvi pela primeira vez uma poesia da coimbrã Maria Azenha e, confesso, deixou-me muito intrigado. Encontrar um livro dela, apesar de uma produção intensa, é uma tarefa um pouco difícil. Mas, no final, com muita sorte, foi surpreendentemente possível.

Nesta pagina digital vou apresentar algumas poesias da autora tomadas do livro A casa de ler no escuro, edição espanhola bilingue da editora Trea, na tradução de José Angel Cilleruelo, Gijón, 2019.

Maria Azenha decide empreender com esta obra uma interpretação muito original da nossa realidade existencial em seus aspectos caóticos e violentos, em que a injustiça e a dor parecem ser a única certeza possível. Para descrevê-la, ela possui uma escrita enigmática que em alguns momentos pode se tornar mistérica e espiritual.

História simbólica sobre o teatro do mundo e prática duma palavra entendida como purificação na…

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ir ao mar com o chico giesteira em 2006


em 2006 para além das companhas de pescadores da torreira – olá sam paio e maria de fátima – trabalhavam ao sul do molhe sul duas companhas de pescadores do furadouro : a companha do jacinto e a companha do pepolim. a primeira com o barco “srª da piedade” a segunda com “o jovem”.

a companha do jacinto só fez a safra de 2006, a do pepolim ainda por lá continua.

liderada pelo arrais chico giesteira, descendente de uma das famílias de arrais mais tradicionais do furadouro, o chico é um grande arrais, certamente o melhor arrais que até hoje conheci.

para acompanhar a faina tinha de esperar que viessem ao pão, à torreira, ao meio da manha e me dessem boleia de tractor até ao acampamento, onde almoçava com a companha.

um dia houve em que, de manhã, vendo o mar mais manso, disse ao chico: hoje vou ao mar.

quando o barco se preparava para partir desci até à borda de água e ao olhar para as ondas mudei de ideias e disse ao chico: afinal já não vou.

de sorriso nos lábios respondeu-me : eu já sabia, você só viu o mar lá de cima.

à tarde o mar acalmou um pouco e o chico deixou-me ir com eles.

é desse lanço que, sem a espectacularidade que de terra proporciona a largada e o arribar do barco, resultam os registos que seguem

(documento escrito em 2010)

como a corrente dominante na costa ocidental portuguesa é de norte, o barco de mar vai em direcção ao norte para que a rede venha trazida pela corrente até próximo do local de largada.

a distância a que é feito o lanço depende do comprimentos das “calas”, cordas que ligam a rede a terra.

as calas são duas:

o reçoeiro – cuja extremidade fica em terra

a mão de barca – que virá para terra com o barco de mar

neste registo é o reçoeiro que vai saindo do barco de mar à medida que nos vamos afastando da costa

por momentos estamos no meio do mar rodeados de silêncios e somos senhores do infinito.

existimos apenas, peixes outros que sobre as águas navegam.

única a sensação.

longe de tudo e tão perto de nada, o pescador é dono e senhor, por uma fracção de tempo, de um universo só seu: a liberdade.

é preciso ir ao mar para sentir que só a terra é falsa

lança-se o arinque do reçoeiro

as calas ligam à manga da rede no “calão”. aí se prendem os “arinques”, bóias que servem de referência quando se ala a rede para terra.

um alar bem feito traz em paralelo o arinque da mão de barca e o arinque do reçoeiro: ou seja a rede tem de vir paralela à costa, para que não o peixe não fuja.

nalgumas redes há ainda quem ponha uma bóia no meio do saco o “calime”.

o calão não é mais que um pau que se coloca no início da manga para a manter aberta, impedindo o peixe de fugir.

interessante é que calão era também o nome dado ao barco que, na xávega mediterrânica e algarvia, levava a rede.

mas falar de tudo isto era um romance

lento o movimento continua.

o saco desce ao mar onde, quem sabe, carapau.

a mão de barca começa a ser lançada ao mar

a manga da mão de barca é lançada ao mar.

a rede está toda na água

o arinque da manga da mão de barca é lançado ao mar.

segue-se agora a cala da mão de barca.

a rede está lançada. virá peixe?

ser pescador artesanal é “lavrar o mar”, como já foi escrito, e não saber da colheita feita a sementeira, acrescento eu.

agora sim, a rede está toda na água

dentro da barca
as mãos
sobrantes nunca
descansando
por vezes
atentas na corda

na outra mão
a de barca
que do barco mão é
quando no caminho
para terra
o segura
o ampara do embate
das ondas
do grito
do mar

as mãos
são
o homem
na raiz
das coisas
na fome
de vida
no amor
no sal
no sul
onde mãos
por mãos
esperam

outras mãos
calam a cala
e é de barca a mão
que as tange

assim na xávega
renascem
fortes e pujantes
ternas e amantes
as mãos
sobrantes nunca

há no pescador um misto de arte e esperança.

assim se faz a xávega

os movimentos repetem-se agora em sentido inverso.

de regresso é a mão de barca que zune

o motor no máximo. é preciso chegar rápido a terra, onde um tractor já começou a puxar o reçoeiro.

a ida ao mar está a chegar ao fim. a terra aproxima-se.

um homem cresceu entretanto

há quem olhe para os carros, outros para a marca da roupa, outros para os rostos …. outros devoram com os olhos o que não comem

todos buscam o mesmo: conhecer

eu olho para as mãos e sei que aqui, aqui, encontro tudo.

as mãos do pescadores são rudes, gretadas, feridas, mas extremamente limpas.

são mãos que o mar lava e areia esfrega.

são mãos de trabalho, mãos de homens e mulheres que trazem nelas a história de uma vida, de um amor, de uma guerra, de uma faina,….

de uma gana de ganhar a vida no mar