almeida faria nas 5as de leitura


cristina robalo cordeiro apresentou o autor e a obra.

o autor falou de si e da sua escrita.

o diálogo foi breve, perante a grandeza do autor e da sua obra o acanhamento….

aprendeu-se muito em palavras breves

almeida faria

do acontecido aqui fica o registo possível

Almeida Faria

Benigno José Mira de Almeida Faria (Almeida Faria), nasceu em Montemor-o-Novo (Alentejo), a 6 de Maio de 1943. Tem uma Biblioteca com o seu nome.

Em Lisboa frequentou as Faculdades de Direito e de Letras. Viveu como escritor residente nos Estados Unidos e em Berlim.

Tem colaborado em diversas publicações colectivas, nomeadamente em revistas alemãs, brasileiras, francesas, holandesas, italianas, suecas e norte-americanas. Os seus romances foram objecto de várias teses universitárias em Itália, Holanda, Brasil, França e, mais recentemente, também em Portugal.

Ficcionista e ensaísta, Almeida Faria obteve o Prémio Revelação de Romance da Sociedade Portuguesa de Escritores com o livro Rumor Branco (1962), confirmando depois a sua maturidade literária com A Paixão (1965), primeiro romance de uma «Tetralogia Lusitana» de que fazem parte Cortes (1978) – Prémio Aquilino Ribeiro da Academia das Ciências de Lisboa, Lusitânia (1980) – Prémio Dom Dinis da Fundação da Casa de Mateus, e Cavaleiro Andante (1983) Prémio Originais de Ficção da Associação Portuguesa de Escritores. Os seus livros estão traduzidos em várias línguas.

Almeida Faria publicou ainda o conto Os Passeios do Sonhador Solitário (1982) e o ensaio Do Poeta-Pintor ao Pintor-Poeta (1988). Em 1990 publicou O Conquistador.
Em 1999, na colecção “Caminho de Abril”, publicou a peça intitulada A Reviravolta.

Foi laureado em 2000 com o Prémio Vergílio Ferreira.

Lançou em 2012, o livro O Murmúrio do Mundo.

http://escritores.online/escritor/almeida-faria/

Cristina Robalo Cordeiro

Professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Cristina Robalo Cordeiro, nascida em Coimbra em 1954, iniciou o ensino da Literatura Francesa em 1980. Depois de um doutoramento de 3º Ciclo obtido na Universidade de Poitiers com um estudo consagrado a André Malraux, foi em 1991 doutorada pela Universidade de Coimbra com uma tese sobre a obra de Jules Supervielle. Desde então, dedicou-se ao estudo de escritores do espaço francês e francófono, concentrando a sua atenção na análise da estrutura narrativa e das redes simbólicas dos textos. O seu interesse pela novela literária manifestou-se na publicação de Lógica do Incerto. Introdução à teoria da novela(Minerva, 2001) bem como, com uma orientação mais pedagógica, em Atelier de literatura (Minerva, 2003). A recente tradução de prosas poéticas de Paul Valéry (Alfabeto, IUC) é testemunho da sua predileção pela estética do texto breve.

Obras editadas na IUC:

Alfabeto de Paul Valéry
La mal du récit
Confluências Nº21. Confluences, mythes & Histoire

Na editora Minerva (2012)

Reminiscências da luz

http://www.uc.pt/imprensa_uc/Autores/galeriaautores/cristinacordeiro

almeida faria  entrevistado pelo jornal i em 12/03/2017

À margem do festival Correntes d’Escritas, focando a objetiva, entrevistámos Almeida Faria, fazendo o balanço de uma vida literária que soube exercer grande influência precisamente por não ter cedido ao jogo da mera transitividade.
 
É difícil confundir Almeida Faria com algum outro escritor seu contemporâneo. Aos 73 anos, a sua obra escapa à vã prolixidade de quem da escrita fez rotina e abafou nas mãos o pássaro. Publicou só o necessário, e resulta perfeitamente com os seus livros o ocioso exercício de ler ao acaso qualquer uma das suas páginas, ficando claro um escrúpulo raro entre nós. As suas frases pensam na mesma medida em que soam, avançam à força de golpes, marchetam o caminho. Versos que dispensam o corte e a vénia. «Poucos dos nossos romancistas contemporâneos jogam com o texto e o imaginário ocidental com tanta destreza e criativa eficácia», notou Eduardo Lourenço. Há inúmeros níveis de consciência nesta obra, com a ironia a desenvolver um singular pacto com o leitor. Cuida antes de tudo para nunca ser maçador, a contenção do seu dom tem a ver também com evitar qualquer sensaboria. Mas assume riscos fenomenais, lembrando ao romance as suas origens fabulosas. Séculos depois, Cervantes tem um verdadeiro discípulo deste lado da península. Aliando a exigência expressiva a uma abordagem lúdica, já se disse que tira gozo de «pôr os mitos nacionais de pernas para o ar». Mas é mais do que isso. Ele retira-os da mortalha, colocando-os de novo em campo, actualizando a grande tradição com o fôlego próprio da sua época. 

O seu é um percurso classicamente romântico, o do rapaz que, no meio do Alentejo, escreve um primeiro livro aos 17 anos e que vem a lançá-lo para o centro da cena literária. Na casa dos seus pais liam-se muitos livros?

Não. Publiquei o livro só aos 19, na sequência de um prémio para inéditos – chamado Prémio de Revelação… Tinha aquilo na gaveta e concorri sem imaginar nada, sem nem sequer saber quem seria o júri. Era então meio iletrado. Vivia já em Lisboa, frequentava a Universidade. Primeiro estudei Direito, depois meti-me na política e dois dos meus professores provaram-me que não tinha futuro ali. “Rumor Branco” estava entre os papéis que eu vinha escrevendo desde os 17, 18 anos. Sabia que queria fazer um romance contra todas as regras do romance. A construção era desarmante, havia duas personagens com o mesmo nome, o livro dividia-se em sete capítulos – como mais tarde “O Conquistador”, que tem também algo de provocatório. Imaginei um esquema dialéctico porque pensava e talvez ainda pense dialecticamente. Nos primeiros três capítulos (primeira parte), o protagonista Daniel João – nome ligado à tradição bíblica: Daniel o profeta, João o Baptista – é um estudante universitário; na segunda  parte assistimos ao nascimento de um rapaz com o mesmo nome mas aparentemente sem nada a ver com o anterior: nasce num bairro da lata em Lisboa, filho de proletários. O último capítulo é um diário escrito na prisão sem que se diga qual o Daniel João que escreve. “Rumor Branco” é enigmático, e isso terá levado às reacções que provocou, à célebre polémica entre o Vergílio Ferreira e o Alexandre Pinheiro Torres, que se alargou a outros, até ao Nuno Bragança… O livro teve a sorte de encontrar um júri que gostou do desafio, e em geral ainda agrada aos leitores jovens, embora me seja já um romance distante. Foi sobretudo uma aventura. Para responder à sua pergunta, não, eu não tinha nenhum background de gente culta. O meu primeiro contacto com a literatura contemporânea foi através do Vergílio Ferreira, meu professor de literatura em Évora. Através dele descobri autores modernos. Eu era um “bom selvagem” nessa época.

Talvez a sua tenha sido verdadeiramente a última grande revelação de um escritor. Hoje, aparecem todos os anos escritores jovens de quem se diz que revelam já muita maturidade, mas é treta, e a comprová-lo está o facto de desaparecerem logo a seguir. O último escritor que foi realmente revelado muito novo e que logo marcou a literatura portuguesa foi o Almeida Faria. Como é que foi para si, aos 19 anos, e num tempo em que a literatura tinha ainda grandes repercussões, tendo gerado aquela que foi a última grande polémica no meio literário português, como foi para si estar no meio daquela tempestade?

Não participei na polémica, não devemos reagir à crítica aos nossos livros, mas surpreendeu-me e deu-me prazer porque me dá gozo provocar.  Mais importantes, e isso eu ignorava, foram os ecos que o livro encontrou no Brasil. Ainda hoje “Rumor Branco” é conhecido pela minha geração e pelas seguintes, porque para os professores de literatura portuguesa no Brasil aquela música soava de modo diferente. A ficção portuguesa no Brasil tinha uma imagem baça, ao nome dos poucos ficcionistas que lá iam – num tempo em que era raro e difícil as pessoas poderem sair do país – os brasileiros associavam uma ficção demasiado convencional, ligada ainda ao neo-realismo.  E isso tinham eles, em melhor: Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rêgo, etc. “Rumor Branco” era outra coisa, marcou bastante os estudantes a quem esse livro era dado, lido, ensinado. E mais ainda o seguinte, “A Paixão”. Ao ponto de Raduan Nassar declarar que “Lavoura Arcaica” nasceu d´”A Paixão”, ao menos em parte. Raduan cita frases d “A Paixão” em “Lavoura Arcaica”. Esses ecos que comecei a receber do Brasil levaram-me a descobrir a literatura brasileira, uma paixão persistente. Leio muita poesia e ficção e ensaio brasileiros, sinto uma relação profunda com autores brasileiros. Nomeadamente com os poetas, João Cabral e Drummond, mais tarde com João Guimarães Rosa. A minha revelação maior foi Guimarães Rosa.

Mas de onde surge “Rumor Branco”, aquela forma de trabalhar a linguagem? Quais foram as leituras que fez?

Poucas. Talvez o pontapé de saída tenha sido a música. Sou bastante melómano, e a música electrónica, nomeadamente a de Stockhausen, sugeriu-me o título, ruído branco é um termo técnico por ele usado, que Don DeLillo usaria mais tarde. Stockhausen pretendia criar sons que fossem a soma de todos os sons como a cor branca é a soma de todas as cores. A ideia de escrever uma obra que fosse a totalidade de várias vozes, até contraditórias, levou-me a “Rumor Branco”, cuja inspiração foi mais musical do que literária. De literatura quase só conhecia as teorias do noveau roman. De dois romancistas cujas ficções conheço mal, li o que tinham escrito de ensaístico. De Nathalie Sarraute, “A Era da Suspeita”, livro de ensaios brilhante e radical. E li ensaios do Robbe-Grillet. A força de ambos está na negação. Robbe-Grillet tem um artigo, depois publicado no volume “Para um Novo Romance”, em que ataca as metáforas antropomórficas: a lua sonha, o sol sorri, a natureza fala a linguagem da euforia. Todas essas metáforas, usadas há milénios para dar à natureza características humanas, são aquilo a que Ricoeur, que li depois, enquanto professor de Filosofia, chama “metáforas mortas”, metáforas que, de tão gastas, já não produzem efeito. E que correspondem a uma ideia romântica da natureza, do Homem como centro da natureza… Talvez a novidade dos meus primeiros livros esteja na recusa de certas convenções literárias. Por exemplo, os diálogos. Quase não uso diálogos. O cinema, a televisão e os novos meios audiovisuais, ao reproduzirem a fala, são muito mais eficazes do que o “disse ela”, “disse eu”, “murmurou ela”, etc. Tudo isso, na ficção, me parece antiquado. Os artistas mais radicais na música ou na pintura deram-me a ideia de que a literatura ficara para trás em relação às vanguardas, e eu queria estar à altura do meu tempo. Muita da ficção que se publicava em Portugal era, quanto a mim, do século dezanove.

Algo que está sempre implícito na sua escrita, embora mais tarde a estrutura narrativa se tenha vindo a impor progressivamente, é uma espécie de tentação da poesia. Às vezes pressente-se nas frases a quebra dos versos. Porque é que se assumiu como romancista e não como poeta?

Porque não escrevo versos.

Não escreve ou não publica?

Escrevi alguns, até publiquei alguns, mas tenho um enorme respeito pela poesia portuguesa. Depois do Pessoa, é difícil imaginar maior poesia. E contudo temos em Portugal, do Pessoa para cá, grandes poetas. Hoje mesmo estão vivos vários grandes poetas. Sempre achei que não consigo fazer melhor do que eles. Por precaução ou defesa, não me arrisco ao verso. Dizem que a minha prosa é mais poética do que narrativa. Antes assim. Escrever versos seria uma responsabilidade e um risco desnecessários. Creio que me expresso melhor e mais autenticamente em prosa.  Se calhar sou mesmo prosaico, nunca arriscaria publicar poemas em versos.

Havia uma cumplicidade na sua relação com Vergílio Ferreira? Foi seu mestre nalgum sentido?

Foi meu professor. Ficou orgulhoso por “Rumor Branco” ter ganho um prémio. Foi ele a oferecer-se para escrever o prefácio, mas só depois de eu ter ganho aquele prémio. Houve boas relações entre nós até certa altura. Já d´ “A Paixão” gostou menos… Disse-me logo: “Isto cheira-me a Agustina”, o que para ele era negativo. Depois as nossas relações tornaram-se mais formais. Lamento que começasse a haver um sentimento de concorrência.

Acha que a literatura portuguesa paga um preço caro na sua expressão no estrangeiro devido a estas invejas?

Como é um país pequeno está mais sujeito a invejas e rivalidades. Nos EUA essas invejas são impensáveis. E no Brasil, por ser tão grande, nunca encontrei um escritor que dissesse mal de outro escritor brasileiro. Talvez a dimensão dos países os defenda da inveja. Essa é também uma das razões que me levam a respeitar os escritores brasileiros, essa recusa de dizerem mal uns dos outros. É como se não conhecessem a inveja. Talvez alguns a sintam, mas não o dizem. Em Portugal há de facto uma tradição, que se calhar já vem das cantigas de escárnio e mal dizer, de uma ferocidade… ridícula, no fundo. Porque a inveja não leva longe. A pequenez geográfica e ética prejudica a imagem dos autores portugueses no exterior.

Parece-lhe que o futuro talvez possa corrigir a posição em que foi colocada Agustina face, nomeadamente a Saramago e Lobo Antunes? Acha que ela pode, como alguns já apontaram, vir a revelar-se a grande figura do romance português no século XX?

Saramago escreveu bons livros, nomeadamente “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. E o Lobo Antunes tem grandes romances, como “Os Cus de Judas”. Mas Agustina surpreende-me mais. A nossa tradição a nível ficcional não é tão forte quanto a nossa tradição lírica. Veja um prosador como Raul Brandão: é um poeta da prosa mas nunca escreveu um romance. Talvez não estivesse interessado.

Por que é que lhe parece que o romance ascendeu ao topo da hierarquia dos géneros literários enquanto o mais comercial e, em consequência, aquele que traz mais prestígio?

Penso que essa noção se impôs porque ler romances parece fácil. Os romancistas sempre venderam mais. O romance é a epopeia da burguesia. Quando acabaram os poemas épicos, surgiu o romance, com o “D. Quixote” à cabeça. Embora o “D. Quixote” seja muito profundo, tem vários níveis de leitura e é possível lê-lo como simples romance de aventuras. Também a poesia tem diversos níveis mas, perante tantos livros de poemas, é difícil distinguir. Uma vez assisti a uma leitura pública do Alexandre O’Neill e houve um ouvinte que o insultou dizendo que aquilo não era poesia. Isto porque o Alexandre escrevia e lia num tom prosaico, hoje banal e que vem do Álvaro de Campos, do modernismo. Mas que ainda não corresponde à ideia popular de lirismo, a ideia de não falar de coisas grosseiras ou prosaicas, de evitar o calão, e assim por diante. O romance faz isso tudo mais à-vontade. É um género inferior à poesia dramática ou lírica, mas mais legível. Toda a gente é capaz de ler romances, mesmo que não perceba tudo. Para ler poesia é preciso gosto e cultura.

Têm sido reeditados os seus livros… Antes, revisitou-os?

Sim, todos. Sou um maníaco da perfeição, não há nenhuma edição de nenhum livro meu que não seja diferente da anterior.

Tem em relação a eles mais uma relação de estranhamento e espanto, ou sente uma certa frieza?

Ainda não consegui fazer aquilo que queria. Este último, “O Conquistador”, no Brasil teve enorme sucesso, teses académicas, dissertações e até livros sobre ele – talvez porque o Brasil tem uma tradição de ironia que nós não temos… Aqui foi recebido de maneira muito reticente. Um crítico até me disse: “Ainda não li mas já sei que é uma merda”. Por este sinto um certo fraquinho. Acho que quase, quase… Enfim, tem os seus defeitos, mas andei perto de conseguir aquilo que queria: misturar erotismo e ironia… Depois tem um capítulo final mais reflexivo e melancólico. Ainda hoje o Ignácio Loyola Brandão [à margem do Festival Correntes D’Escritas] me dizia: “Aquele início, aquela tempestade, aquilo é Melville, é homérico!” Nunca ouvi nenhuma reacção deste tipo em Portugal. Até por isso sou tão grato ao Brasil. Não só pela literatura – a prosa deles é melhor  do que a nossa no século XX, mas pelo amor deles pelos nossos livros. Somos mais estudados no Brasil do que aqui.

Tivemos um período depois da revolução em que figuras como a Sophia de Mello Breyner, o Eugénio de Andrade, até o Carlos de Oliveira, eram como senadores, figuras admiradas e, mesmo que as pessoas não os lessem, tinham um lugar na esfera pública. A Natália Correia foi deputada, a Sophia chegou a intervir no processo constituinte.  Qual a sua leitura da perda de estatuto do escritor de lá para cá?

O que aconteceu depois do 25 de Abril foi uma espécie de compensação em relação ao que acontecia antes. Durante a ditadura, nunca os escritores tiveram esse estatuto. O primeiro quase intocável, e muito justamente, foi a Sophia. Porque a Sophia, além da sua grande poesia – bem merecia o Prémio Nobel –, e de contos de uma claridade cristalina, ela tinha uma pulsão ética de uma grandeza ímpar. A Sophia foi sempre ela mesma, desde os poemas que escreveu na ditadura, como “O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/ A podridão lhe agrada e os seus discursos/ Têm o dom de tornar as almas mais pequenas”… Isto é poesia de combate sem deixar de ser grande poesia. Depois, aquele célebre poema depois do 25 de Abril… [“Esta é a madrugada que eu esperava…”] Escreveu sempre poesia de alto nível. É verdade que o 25 de Abril trouxe uma aceitação maior da figura do escritor. Talvez Mário Soares tenha contribuído para isso porque venerava a literatura e os escritores… Isto parece anedótico, mas numa visita de Estado à União Soviética, no tempo em que o Mário Soares era presidente, os escritores sentavam-se à frente e os banqueiros atrás, coisa que deve tê-los chocado. Soares tinha um respeito pela cultura, e sobretudo pela literatura, nunca antes visto em Portugal.

Mas como é que é possível que um banqueiro se sente à frente de um escritor? Não é uma ofensa à própria ideia de país?

(Risos) Hoje a imagem dos banqueiros piorou. Mas não eram só os banqueiros, iam também industriais, alguns dos homens mais poderosos do país. De facto, eles próprios estavam surpreendidos, o que tem certa graça. Mário Soares fez muito para elevar a imagem do escritor. De Sophia, amiga dele, mas não só… do Cesariny e de outros. Num domingo, estava eu em casa, tocou o telefone: “Daqui é o Mário Soares.” Apesar de ser então presidente da República, não mandou telefonar, telefonou ele mesmo, para dizer “Está aí o Vargas Llosa. Você e a sua mulher querem jantar connosco?”… Vai também o Cesariny”. Mário Soares conseguia juntar esta gente com a maior naturalidade.

Foi jantar?

Claro. (Risos)

E que tal foi?

Falou-se realmente de literatura e de política. Revi o Cesariny, que não encontrava desde o “Rumor Branco”. E ele, com o seu descaramento habitual disse-me logo: “Você está melhor agora do que aos 20 anos.” (Risos)

Porque é que ele dizia isso?

Por razões óbvias. Havia uma libertação total, e  Mário Soares contribuiu muito para esse ambiente de liberdade.

No seu percurso, passou de lado, foi o jovem durante muito tempo…

E agora sou velho.

Não digo isso, mas está aqui a presidir ao júri de um prémio. Qual é a sua leitura ou visão da literatura? Há uma nova geração em sucessão, e que também está a ir para o Brasil… Gostava de saber o que acha desta geração?

Este júri não tem presidente, sou só o mais velho… Aliás, lutei por este prémio [atribuído a Armando Silva Carvalho pelo livro de poemas “A Sombra do Mar”]. Na geração do Armando e nas seguintes há excelentes poetas, e é natural que os mais novos queiram o seu lugar ao sol. Que eu saiba, nunca fui atacado por eles. Também não vejo razão para ser atacado. Gosto de ser júri de poesia porque este prémio é uma maneira de me actualizar. Conheço bem a poesia contemporânea portuguesa.

Houve alguma tentação de dar o prémio ao ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes?

Não, seria suspeito e incómodo para o júri e para ele próprio.

O Correntes D’Escritas foi o primeiro festival, estando a desenhar-se hoje todo um mapa de festivais literários… Parece-lhe que esta é a forma correcta de criar um espaço para afirmação da literatura ou tem algumas reservas em relação a este modelo?

Não, nenhumas. O Brasil tem óptimos festivais literários, e é uma maneira de dar visibilidade à literatura, por um lado, e um meio de provocar encontros entre escritores de várias línguas. Duas, neste caso, português e castelhano. Encontrei aqui hispano-falantes que não conhecia e, por outro lado, esta é uma forma de conseguir a vinda de escritores brasileiros. Vimos hoje o Ignácio Loyola Brandão fazer aquilo em que ele é brilhante… e que o Rubem Fonseca fez aqui há anos. Ouvindo-os, as pessoas riram do princípio ao fim. Por muito bons escritores que eles sejam – e ambos são grandes prosadores –, o facto de o público perceber que a literatura, além de ensinar a olhar e reflectir, pode também fazer rir, isso é muito saudável.

E em relação à provocação, à polémica e ao combate – combate no sentido literário: a crítica, que neste momento parece estar praticamente desarmada… Para o bem e para o mal – para o bem, porque ninguém os põe em causa, não há nenhum teste, para o mal porque também  não se fala muito de escritores –, não sente que houve uma desertificação do espaço da literatura enquanto discurso pensante, avaliador?
Pois, há muito menos crítica do que há 50 anos. Antes do 25 de Abril, a crítica literária tinha grande peso nos jornais. Hoje são poucos os jornais que ainda publicam crítica. Haverá mais crítica universitária, mas essa não atinge uma audiência significativa. Tanto quanto sei, não falta polémica entre os poetas. Há ódios de estimação, grupos ligados a revistas ou editoras que não querem nada com outros grupos… Ignoro se há debate de ideias, há é defesa de baluartes estéticos, estratégias quase bélicas. Há editoras que recusam enviar livros para estes prémios, o que prejudica os poetas por elas publicados. São opções difíceis de explicar e que, julgo, resultam da pequenez do país.

Continua a ler e a escrever empenhadamente, e, por isso, gostava de saber se tem alguma besta pelo rabo? Há algum escritor ou alguma coisa em que está investido e que tem explorado, sentindo como muito instigante?

Não. Até pela minha idade, passo mais tempo a reler. Mas ao nível da prosa, lerei até ao fim da vida, sem me cansar, João Guimarães Rosa. Ao nível da poesia, leio e releio jovens e velhos poetas. No Brasil há muito bons poetas neste momento. Portanto, não ando à procura de modelos, tenho uma ideia daquilo que quero fazer no pouco tempo que me resta. Procuro ler quem me dá prazer,  e a poesia continua a ser o que me dá mais prazer. Para além de Guimarães Rosa, poeta da prosa.

Qual o motivo de tão grande fascínio pelo Guimarães Rosa?

É a reinvenção constante da linguagem, a capacidade imagética de transfigurar, de não ser só jogo de palavras. E isso além da sua dimensão transcendente. “Grande Sertão: Veredas” é um livro inesgotável, fala de muito mais que lutas sertanejas, é uma demanda, como na Idade Média, demanda de um Graal de encontro com o Outro (Diadorim) que afinal era Outra, de busca de uma sabedoria capaz de vencer a vingança justiceira, de heróis à procura de si mesmos. São muitas as semelhanças com a demanda do Graal, com os cavaleiros da Távola Redonda, sem a mística da fé, numa dimensão moderna. A grande literatura tem de ser mais que simples relato ou documento, tem de ultrapassar a descrição de cenas, tem de enfrentar um mistério qualquer, atingir uma dimensão de transcendência.

Quando o Raduan Nassar recebeu o Prémio Camões, na célebre cerimónia em que se bateu de frente com o governo de Temer, houve algum aspecto que o inquietou?

Não, pelo contrário, alegrou-me profundamente. Acho que é mesmo isso que o escritor deve fazer, aproveitar todas as oportunidades que tiver – e não são muitas – para manifestar o seu protesto cívico. Não recebi muitos prémios, mas uma vez atribuíram-me um da Fundação Casa de Mateus… Na altura não havia ministro da Cultura, só secretário de Estado, e, não sei porquê, deram-me a palavra primeiro a mim, depois o secretário de Estado, que aliás era inteligente, queixou-se em tom irónico: “Mas porque é que eu não falei antes? Agora tenho de responder àquilo que você disse”. O Raduan foi hábil. Também estava previsto que ele falasse depois, mas saltou para o pódio e falou antes. Deixou o ministro da Cultura desarmado. Isso foi uma jogada de grande inteligência, de resto ele é muito inteligente.
Tem falado com ele?

Sim, claro. E este ano vou outra vez ao Brasil e espero estar com ele. É um dos homens mais admiráveis… e tem isso em comum com a Sophia. Não é só o que ele escreve, é a exigência ética que o leva a não pactuar e também a não se calar em situações importantes.

Alguma vez tiveram um conversa interessante sobre a decisão dele de virar as costas à literatura?

Durante muito tempo não acreditei que ele tivesse deixado de escrever. Agora creio que deixou mesmo. E creio que lamenta.

Agora arrependeu-se?

Não sei se se arrependeu. Creio que lamenta. Diz que teve boas ideias e perdeu a ocasião e agora é tarde… Há dois anos estive com ele na fazenda e não havia um livro na casa. Tinha uma biblioteca noutro edifício, com livros que antes leu ou que lhe foram oferecendo, mas não lia durante todo o dia. Estávamos sozinhos, vinha uma empregada à hora das refeições. Aí fiquei convencido de que abandonou mesmo a literatura. Na casa de São Paulo tem os clássicos brasileiros. Na falzenda, nada. Nunca tinha visto um escritor sem um livro à cabeceira.

Alguma coisa ele deve ter sentido como um perigo para ter tomado uma decisão tão peremptória.

É inexplicável. Penso que na altura julgou que não podia fazer melhor e parou. Depois entregou-se à agricultura, à criação de galinhas, tinha uma fazenda fantástica, valiosíssima. Acabou por oferecê-la à Universidade. Doada! Ficou com problemas financeiros… Felizmente recebeu este prémio, porque antes disso poucos rendimentos tinha. Agora os livros recomeçaram a vender-se, a serem traduzidos e editados lá fora. Isso, além dos 100 mil do prémio, espero que lhe resolva os problemas de liquidez.

https://ionline.sapo.pt/553083

 

onésimo teotónio de almeida nas 5as de leitura


onésimo

era uma vez um GRANDE contador de histórias, com uma memória impressionante e uma cultura incomum. aquilo a que chamo “UM SER ILUMINANTE”.

esteve na figueira da foz no dia 25 de maio de 2017 e foi… como podem ver no registo, uma noite inesquecível.

Onésimo Teotónio Almeida nasceu nos Açores (São Miguel), em 1946, e reside desde 1972 nos Estados Unidos, vivendo entre as margens americana e europeia do rio que banha as suas ilhas – o Atlântico. Doutorou-se em Filosofia na Universidade de Brown (Providence, Rhode Island) e aí é catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, lecionando também no Wayland Collegium for Liberal Learning e no Renaissance and Early Modern Studies Program da mesma universidade.

Divide-se entre a escrita livre (crónica, conto, teatro, prosemas) e o ensaio, que ocupa o lugar central. Entre os seus livros mais recentes contam-se: Livro-me do Desassossego (2006), Aventuras de um Nabogador (2008), Onésimo. Português sem Filtro (2011) e Quando os Bobos Uivam (2013). No ensaio: De Marx a Darwin – A Desconfiança das Ideologias (2009), O Peso do Hífen – Ensaios sobre a Experiência Luso-Americana, Açores, Açorianos, Açorianidade – Um Espaço Cultural (2011), Minima Azorica. O Meu Mundo é Deste Reino (2014), Pessoa, Portugal e o Futuro (2014), Despenteando Parágrafos (2015) e Obsessão da Portugalidade (2017).

É doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.

versos que riem


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no dia 24 de de abril de 2017, no auditório da biblioteca municipal da figueira da foz, sala cheia de alunos do ensino básico, joão pedro mésseder e ana biscaia apresentaram o seu novo trabalho conjunto: “versos que riem”.
da escrita e da ilustração à comunicação, tudo resultou muito bem,  como pode ser visto no registo vídeo que fiz desses momentos e que, certamente vai deliciar e juntar gerações: o prazer da leitura não tem idade.
João Pedro Mésseder (nome literário de José António Gomes) nasceu em 1957, no século XX , Porto, foi Professor Coordenador da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, tendo-se doutorado em Literatura Portuguesa do século XX(século vinte) pela Universidade Nova de Lisboa e publicado diversos estudos nos âmbitos da História e da Crítica Literárias (Literatura Portuguesa Contemporânea e Literatura para a Infância e a Juventude), além de várias antologias. Nesta qualidade, fundou e dirige a revista Malasartes – Cadernos de Literatura para a Infância e a Juventude (Porto Editora).
Textos seus têm sido utilizados em espetáculos teatrais de grupos como Andante, Sopa de Letras, RenascerteatromoscaGisela Cañamero / arte pública e TIN.BRA – Teatro Infantil de Braga. Criou o texto principal para o espetáculo Lenheiras de Cuca-Macuca (2008) do Teatro e Mrágora, com encenação de José Caldas. Vários dos seus poemas e outros textos foram musicados, interpretados e gravados pelo Bando dos Gambozinos, sob a direcção musical de Suzana Ralha, tendo Romance do 25 de Abril sido integralmente musicado por Pedro Moura e apresentado, sob a forma de opereta infantil, num espectáculo realizado na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, em 25 de Abril de 2007. Em 2010, por encomenda da Rádio e Televisão de Portugal, escreveu o conto Comédia italiana, a partir do quadro, com o mesmo título, de Columbano. Com base em ambos foi realizado um filme de animação.
A sua obra conta com várias dezenas de títulos editados e que foram motivo de estudos e de recessões críticas
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Pedro_M%C3%A9sseder
Ana Biscaia

Ilustradora e designer gráfica. Licenciou-se em Design de Comunicação na Universidade de Aveiro e fez o mestrado em Ilustração na Konstfack University College of Arts, Crafts and Design, em Estocolmo. Trabalha para editoras portuguesas e suecas.

Em 2010, as ilustrações do livro Poesia de Camões para todos receberam um destaque do júri do Prémio Nacional de Ilustração. O seu trabalho para o livro O Carnaval dos animais foi também selecionado pelo júri do prémio TITAN Illustration in Design.

Em 2013, Ana Biscaia ganhou o Prémio Nacional de Ilustração, pelo conjunto de ilustrações publicadas na obra A cadeira que queria ser sofá.

 

“Todos os Dias Morrem Deuses”


a 21 de abril de 2017, na assembleia figueirense, decorreu o lançamento da última obra de antónio tavares.

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maria do rosário pedreira e cesário borga, abordaram a obra sob perspectivas diversas: as suas, as da sua profissão.

afinal estávamos perante uma obra literária que tinha como personagem principal um jornalista.

antónio tavares

“Se há tanta gente a escrever e tão bem, porque é que me hei-de meter nisto?”

António Tavares nasceu em 1960 em Angola, mudando-se para Portugal em 1975, no processo de descolonização.

Viveu em várias cidades portuguesas. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. É professor do ensino secundário, actividade que suspendeu para exercer actualmente o cargo de vice-presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz. Foi jornalista, fundador e director do jornal regional A Linha do Oeste. Fundou e coordenou a revista Litorais.

Escreveu peças para teatro – “Trilogia da Arte de Matar”, “Gémeos 6” e “O Menino Rei” –, estudos e ensaios – Luís Cajão, o Homem e o Escritor; Manuel Fernandes Thomás e a Liberdade de Imprensa; Arquétipos e Mitos da Psicologia Social Figueirense e Redondo Júnior e o Teatro. Com o segundo romance, O Tempo Adormeceu sob o Sol da Tarde, obteve uma menção honrosa no prémio Alves Redol, atribuída em 2013 pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Ainda não o publicou. “Não queria que este fosse o segundo romance meu a sair”, disse. Com a publicação prevista de O Coro dos Defuntos pela Leya, o autor já vê com bons olhos a sua chegada às livrarias.

António Tavares já tinha sido finalista do Prémio Leya 2013, com o romance As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia, editado pela Teorema. Foi o primeiro que escreveu, em 2012, já com 52 anos de idade. “Sempre pensei que se há tanta gente a escrever e tão bem, porque é que me hei-de meter nisto? Pensava que não era capaz. Tinha feito jornalismo e peças de teatro, mas nunca me tinha aventurado pelo romance porque achava que não tinha fôlego para o fazer”, disse. Tirou duas semanas de férias, fechou-se e ficou surpreendido com o resultado: “Saiu-me tudo cá para fora, como um jacto, estava tudo muito à flor da pele. E o imenso gozo que me deu!”.

“Um escritor não deve só escrever”

Foi o presidente do júri, Manuel Alegre, que lhe ligou durante a manhã para anunciar a novidade. “Tinha uma esperançazinha vaga [de ganhar], que ao mesmo tempo ia tentado dissipar, mas tinha”, admitiu. Para além de Manuel Alegre, do júri fizeram parte Nuno Júdice, Pepetela, José Castello, e ainda José Carlos Seabra Pereira, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Lourenço do Rosário, Reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário de Maputo, e Rita Chaves, Professora da Universidade de São Paulo.

O vencedor leva para casa 100 mil euros, valor máximo de um prémio literário para romances em língua portuguesa. Para o premiado é essencialmente um incentivo a continuar, uma recompensa. “Mas também é um prémio que me dá alguma responsabilidade, vou ter de me dedicar mais tempo”, disse. Não pensa, contudo, em dedicar-se a 100% à escrita. “Não encaro de maneira nenhuma a possibilidade de só escrever. Concordo com o que diz o Mia Couto, que o escritor não deve escrever só, deve ter o resto da sua vida”.

http://observador.pt/2015/10/13/antonio-tavares-vence-premio-leya-2015/

TODOS OS DIAS MORREM DEUSES

Um jornalista reescreve diariamente a história do mundo nos anos 1950/60.

1953. Este é um ano rico em acontecimentos: Eisenhower é eleito Presidente dos EUA, Churchill ganha o Prémio Nobel da Literatura, os Rosenberg são acusados de espionagem e executados, Tito torna-se o timoneiro da Jugoslávia… E, porém, os factos que atraem o protagonista deste romance – um jovem jornalista sem dinheiro que deambula por uma Lisboa de cafés e águas-furtadas – são claramente delicados em tempo de censura, pois prendem-se com as múltiplas conspirações que rodeiam a morte e a sucessão de Estaline na União Soviética. Não só é preciso que escreva com pinças para fintar o regime, como a informação que lhe chega de fora é escassa e contraditória, obrigando-o a dar largas à sua imaginação…

Muitos anos depois, de regresso à aldeia onde nasceu e a que o liga a memória da mãe, sente o rasto da velhice na metáfora de uma fogueira que vai consumindo o que ainda lhe sobra desse passado e relembra as mulheres que o marcaram e os deuses que ajudou a criar na sua prosa diária.

http://www.leyaonline.com/pt/livros/literatura/literatura-classica/todos-os-dias-morrem-deuses/

do lançamento aqui fica o registo possível

(com “Todos os Dias Morrem Deuses”, o romance ” O Tempo Adormeceu sob o Sol da Tarde” é finalmente publicado. pelo que , cronologicamente este é o seu segundo romance, mas em termos de edição será o terceiro.

porque os dois apresentadores do livro não tocaram em dois pontos que muito me atraíram no livro, aqui ficam duas dicas para os leitores:

– a presença de fernando pessoa

– a janela e o que dela se vê, não vê, ou se pode imaginar

antónio ficcionou outro antónio, que ficcionou a realidade. é assim que os deuses morrem e nascem)

pepetela nas 5as de leitura


pepetela

pepetela bw

“Biografia

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) nasceu em Benguela, a 29 de Outubro de 1941. Fez os seus estudos primários e secundários em Benguela e Lubango, partindo em 1958, para Lisboa para fazer o curso superior. Frequentou o Instituto Superior Técnico, tendo nessa altura participado em actividades literárias e políticas na Casa dos Estudantes do Império. Por razões políticas em 1962, saiu de Portugal para Paris, França, onde passou seis meses, seguindo para a Argélia, onde se licenciou em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e no centro de Estudos Angolanos, que ajudou a criar.

Em 1969 parte para a região de Cabinda participando directamente na luta armada como guerrilheiro e como responsável pelo sector da educação. Adoptou o nome de guerra de Pepetela, que significa pestana na língua Umbundo, e que mais tarde viria a utilizar como pseudónimo literário. Em 1972 é transferido para a Frente Leste desempenhando as mesmas funções até 1974. Integrou a primeira delegação do MPLA que chegou a Luanda em Novembro de 1974.

Desempenhou os cargos de Directo de Departamento de Educação e Cultura e do Departamento de Orientação Política. Foi membro do Estado Maior da Frente Centro. De 1975 a 1982 foi vice-ministro da Educação, passando posteriormente a leccionar sociologia na Universidade de Luanda.

É membro fundador da União dos Escritores Angolanos. Grande parte da sua obra literária foi publicada após a independência de Angola, sendo alvo de inúmeros estudos em várias universidades e instituições de ensino em Angola e noutros países. As suas obras foram publicadas em Angola, Portugal, Brasil, além de estarem traduzidas em quinze línguas, nomeadamente alemão, inglês, francês, espanhol, italiano, sueco, finlandês, japonês, servo-croata, búlgaro, russo, ucraniano, basco, holandês e grego.

Foi galardoado com os seguintes prémios: Prémio Nacional de Literatura (1980) pelo livro “Mayombe”; Prémio Nacional de Literatura (1985) pelo livro “Yaka” Prémio Especial dos Críticos de São Paulo (1993 – Brasil) pela obra “A Geração da Utopia”; Prémio Camões (1997) pelo conjunto da sua obra; Prémio Prinz Claus (1999) pelo conjunto da sua obra.

Para a professora e crítica literária Inocência Mata, Pepetela “é um escritor que se tem revelado singular nesse trabalho de desconstrução discursiva, sem operar rupturas, e consequente desestabilização desse “local da cultura” nacionalista, pela reinvenção de uma estratégia que consiste em articular a sua ficção com as transformações da História, da sociedade angolana, e com as exigências de um pensamento novo face ao país real (que hoje pouco tem a ver com o país ideal). Muitas referências coincidem quanto a considerar a obra de Pepetela como buscando na História matéria para a ficção… Se, no universo literário angolano, o autor não pode, talvez com rigor, ser considerado pioneiro na tematização da História, … a sua singularidade reside no questionamento do Presente (valores, comportamentos, ideias) a partir das mitificações (às vezes das falsificações) da História” In: Inocência Mata. Silêncios e Falas de Uma Voz Inquieta. Lisboa, Mar Além, 2001, p. 196-197.

http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.pt/2014/11/artur-carlos-mauricio-pestana-dos.html

“Obra publicada

1972 – As Aventuras de Ngunga
1978 – Muana Puó
1980 – Mayombe
1985 – O Cão e os Caluandas
1985 – Yaka
1990 – Lueji
1992 – Geração da Utopia
1995 – O Desejo de Kianda
1997 – Parábola do Cágado Velho
1997 – A Gloriosa Família
2000 – A Montanha da Água Lilás
2001 – Jaime Bunda, Agente Secreto
2003 – Jaime Bunda e a Morte do Americano
2005 – Predadores
2007 – O Terrorista de Berkeley, Califórnia
2008 – O Quase Fim do Mundo
2008 – Contos de Morte
2009 – O Planalto e a Estepe
2011 – A Sul. O Sombreiro
2011 – Crónicas com Fundo de Guerra
2013 – O Tímido e as Mulheres
2015 – Crónicas maldispostas
2016 – Se o Passado Não Tivesse Asas

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pepetela

da sua presença nas 5as de leitura, na bilioteca municipal da figueira da foz, aqui fica o registo:

 

 

5as de leitura com isabel rio novo e paulo m. morais


paulo e isabel ou isabel e paulo

paulo e isabel ou isabel e paulo

mais uma 5ª de leitura na biblioteca municipal da figueira da foz, ponto de encontro com autores que ainda não lemos, motivo para os ler ou revisitar os já lidos. viagem outra, por vezes, ao de dentro dos autores.

sempre, mas sempre o prazer de estar com quem escreve as palavras que nos seduzem impressas em livro.

(Isabel Rio Novo nasceu no Porto.

Doutorada em literatura comparada, é docente no ensino superior de Escrita Criativa e outras disciplinas nas áreas da literatura e do cinema.

Autora de várias publicações no âmbito dos estudos intermédia, das literaturas portuguesa e francesa e da teorização literária, já integrou o júri de vários prémios literários e de fotografia.

Gosta de dizer poesia, embora não a escreva.

Como ficcionista, começou a publicar dispersamente desde a adolescência.

Em 2004, escreveu a novela O Diabo Tranquilo, em colaboração com o poeta Daniel Maia-Pinto Rodrigues.

Em 2005, viu o romance A Caridade distinguido com o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes.

Em 2014, publicou o volume de contos Histórias com Santos.
O romance Rio do Esquecimento, finalista do Prémio LeYa 2015, foi editado pela Dom Quixote.

http://escritores.online/escritor/isabel-rio-novo/
Paulo M. Morais nasceu em fevereiro de 1972.

Cresceu nos arredores de Lisboa entre futebóis de rua, livros de aventuras e matinés de filmes clássicos.

Licenciou-se em Comunicação Social e cumpriu um sonho de juventude ao fazer crítica de cinema. Depois pôs uma mochila às costas e fez uma viagem à volta do mundo. No regresso, especializou-se em textos sobre gastronomia e turismo, foi pai de uma menina e plantou um pessegueiro.

Atualmente trabalha na tradução de romances e livros de não-ficção. Vive apaixonado pelo ofício de descobrir histórias e imaginar personagens.

Em 2013, publicou «Revolução Paraíso» (Porto Editora), romance passado no pós-25 de Abril. Seguiu-se a distopia «O Último Poeta» (Poética Edições), em 2015. Nesse mesmo ano foi finalista do Prémio LeYa com «Seja Feita a Sua Vontade», novela ainda inédita, pois acabaria por ver publicado primeiro o livro «Uma Parte Errada de Mim» (2016, Casa das Letras), que junta memórias autobiográficas e reflexões sobre a vida ao relato do tratamento de um linfoma.

http://escritores.online/escritor/paulo-m-morais/)

o registo

vitor pena viçoso e elisabete leite em ovar


tertúlia poesia e música – espaço entre arte –

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ovar, 17 junho 2016

  • apresentação do livro “ a máscara e o sonho” de vitor pena viçoso
  • telas de elisabeth leite

participantes

aurora gaia

libânia madureira

maria conceição magro

vitor pena viçoso

elizabeth leite

o vídeo

(notas biográficas

vitor pena viçoso

O Prof. Doutor Vítor Pena Viçoso é aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se doutorou em Literatura Portuguesa (1989). Foi docente das disciplinas de Literatura Portuguesa e Cultura Portuguesa (séculos XIX e XX). Para além de ensaios sobre Raul Brandão, Carlos de Oliveira e José Saramago, publicou artigos em jornais e revistas, com particular incidência em temas e autores do Romantismo, do Simbolismo e do Neo-Realismo, movimentos privilegiados na sua investigação universitária. É actualmente director da revista Nova Síntese – Textos e Contextos do Neo-Realismo, da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo. 

http://alpiarca.pt/bma/index.php/atividades/2014/141-acao-de-formacao-o-neo-realismo-na-ficcao

elisabete leite

Elizabete Martins Leite, Nasceu na Venezuela a 21 de Janeiro de 1982, reside em Oliveira de Azeméis, desde 1989. Finalista de licenciatura em Pintura na Escola Universitária das Artes de Coimbra. ARCA EUAC.

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

2004 “ …Aos 77” – Café com Arte (Coimbra)
2005 Galeria da ARCA EUAC (Coimbra)
2005 Art’ em Cadeia – Antiga cadeia dos Paços de concelho P. Bemposta.

EXPOSIÇÕES COLECTIVAS

2004 Pavilhão de Portugal (Coimbra) Wrist iwc replica watch are available in all ranges from branded to cheap one.These watches are also attractive and stylist.It is good for those want to change their watches according to their clothes. 
2004 Prémio Baviera – Centro Cívico Justino Portal Cesar
2005 Casa Museu Bissaya Barreto (Coimbra)
2005 Bienal de Vila Nova de Cerveira – Centro Cultural de S. Roque
2005 Convento de S. Francisco
2005 Galeria São Mamede – Colectiva de Verão

Eu não quero que um quadro seja um complemento, a história que conta, mas antes que seja fundamentalmente a plasticidade que tem, não obstante a história que conta seja um complemento com importância para a plasticidade.”

Elizabeth Leite actualmente pinta em telas de grandes dimensões, representando figuras próximas do tamanho natural, que ocupam grande parte do suporte. Estas, encontram-se envolvidas em ambientes que representam alegoricamente espaços interiores que ajudam a descrever a cena, o acto, pela sua constituição. Nestes ambientes encontramos objectos que geram o ambiente “casa”, “quarto”, “sala”, onde não há a preocupação de os arrumar, mas antes pelo contrário, testemunhar os actos apresentados como o prazer, a ousadia, o descanço, a felicidade de viver.

As figuras, tendem a extremar bastante as características físicas das personagens representadas, que normalmente aparecem em roupas intimas, roupas interiores. Há nelas um prazer assumido, do qual não importa os resultados inestéticos do acto cometido. É nesta relação entre figura humana (personagem) e objectos que se constrói a composição sobre o suporte (tela), mas o que importa não é só esta harmonia entre objectos e espaço, mas sim a forma como se põe a tinta. Por isso, a maneira como as figuras são apresentadas propõe ser a ligação do que representam com aquilo que são: tinta, matéria plástica sobre um suporte, feita principalmente de traços e de algumas manchas, aceitando escorridos que só aparentemente são acidentais, assim como zonas por cobrir de tinta.

Os elementos vão adquirindo forma e proporção com a justaposição e cruzamento de inúmeras pinceladas. O pincel exerce a função de uma coisa que risca, que constrói, resultado plástico do seu trabalho, que procura de forma agradável levar-nos para um mundo abstrato no meio de cenários com sentido figurativo e descritivo.

Procura que o resultado do seu trabalho crie empatia com o observador, esta ligação talvez resulte da proximidade, da relação que encontramos naquele acontecimento, naquela cena que nos parece familiar, não constituindo propriamente uma critica negativa da realidade mas antes o encarar de situações com boa disposição servindo de pretexto para pintar.

http://www.saomamede.com/artista.php?id_artista=180)