memória_14042011


à memória do ti manel trabalhito

(fica sempre uma marca do pescador
nas águas onde pescou
este brilho
é o teu manel
é o de todos
os que já não)
hoje só me saem 
das mãos
seixos rolados

apanhei-os no mar
e quero lançá-los 
à ria

ali
onde a tua bateira
manel

ficar assim
a olhar os círculos
onde o teu rosto

boa noite manel

postais da ria (407)


torreira; colher; 2009
onde estive
para onde vou
tudo isso faz de mim
o que sou

um eterno caminhante
com apeadeiros
esporádicos onde
descanso tanto
ser e tanto sentir

sei que estou vivo
olho em frente
vivendo hoje
inventando amanhãs

todos os dias são
o primeiro dia
não é sérgio
torreira; colher; 2009
postais da ria (401)

postais da ria (401)


por que não quero escrever

nada mais resta que uma varanda
sobre o tempo
uma corda tensa a prender os dias

nada mais que uma visão
coberta de silêncios e vozes idas

nada mais que palavras inventadas
onde já não as há

caminhos feitos muitos
por fazer 

uma corda esticada sobre os dias
procura uma guitarra
que certo é o fado

postais da ria (399)


águas vivas

outras as artes outras redes
malhas mais finas
prenderam o sonho
o sol uma vida

o testemunho do tempo
o olhar a guardar a memória
onde agora

safam-se os dias
onde algas secas ainda

a paciência é a arte
da sobrevivência

a reinvenção dos dias
é um tempo cheio de tempo
uma navegação em águas
vivas porque revividas

(torreira; safar redes; 2019)