os moliceiros têm vela (466)


tem os olhos límpidos
que lembram a ria 
quando ainda enguias havia

será o moliceiro que mais anos carrega no barco. a casa dos pais do ti zé rebeço, ficava em frente à casa dos meus. era de lá que vinha o leite que bebíamos. 

tem os olhos límpidos
"até os matamos, cravo"
esta é a única mentira que lhe conheço
mas é tão nossa que é verdade

mais de 80 anos e um sorriso de criança no olhar
o meu amigo ti zé rebeço

(torreira; são paio; 2010)

os moliceiros têm vela (465)


entre 2010 e 2021 foram muitos os moliceiros que desapareceram. os que de novo foram feitos não os superam.

não vou citar nomes de homens e barcos, mas seja o ti abílio, amigo do peito, mestre das artes do mar e da navegação – que já não tem moliceiro e por isso não estará presente na regata de hoje -, o símbolo do amor a estas aves tão belas a que deram, por arte e ofício, o nome de moliceiros

torreira; regata do são; 2010

postais da ria (379)


bom ano

corrida de chinchorros; s. paio; 2012
 queria falar-te dos dias
 do tempo cortado às fatias
 
 invenção dos filósofos padeiros
 que pão inteiro era coisa de povo
  
 queria falar-te dos anos  
 e outros pedaços maiores do tempo
  
 que nem esse para todos igual é
 falo-te da fome da doença da miséria
 de como crescem longe e perto
 escondidos ou mostrados consoante
 a notícia o exige não o ser homem
  
 queria falar-te dos dias quando o ano
 está a acabar e dizer-te que tudo
 está diferente e tudo ficou na mesma
  
 queria dizer-te que não mudei sou eu
 o mesmo de sempre desde que comecei
 a ser quem sou a ter o meu tamanho
  
 queria dizer-te que podes contar comigo
 quando os braços se juntam e é justa a causa
  
 queria dizer-te que não estou a teu lado
 nem calarei a mentira a injustiça o cinismo
  
 oiço bem vejo bem sei o que quero
 bom ano 

os moliceiros têm vela (421)


aos amigos

(torreira; regata do s. paio; 2020)

a alegria de estar na ria com os amigos e assistir ao espectáculo das regatas, é um acontecimento que não perco, que não perderei enquanto puder.


o agradecimento ao quim calmaria pela forma como está sempre pronto para mais uma regata e o saber “o que os fotógrafos querem”. boa safra nos mares do norte, quim


ao jim por ter “estado de prontidão” com a sua chata, para o caso de aparecerem amigos à última da hora e que quisessem acompanhar a regata no meio da ria.

ao jorge bacelar, ao silva tavares, à isabel lobo e ao pedro (que vieram de lisboa e do porto, de propósito), pela alegria de estarmos juntos e acontecer fotografia


ao amigo que, do paredão, quando viu chegar a chata, gritou “ah gorim!” – há quantos anos não se ouvia este grito na ria…


haja saúde e para o ano lá estaremos

os moliceiros têm vela (420)


raízes

ti zé rebeço ( torreira; regata s. paio; 2020)
vêm de longe
trazem nos olhos a limpidez
da ria antiga


homens inteiros
fogem das ribaltas
que outros buscam
a qualquer preço


escondem-se para serem
o que sempre foram
são eles serão sempre eles


as minhas raízes