crónica do mês de julho no “Notícias de Aveiro”


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Labrega : autor Artur Pastor, Série “Portugal Litoral” Setúbal anos 40/60

As viagens da Labrega

Mão amiga deu-me conhecimento da abertura no dia 17 de Julho, em Setúbal, de uma exposição do fotógrafo Artur Pastor, organizada pelo filho, Artur Costa Pastor, e enviou-me uma foto constante da exposição: a de uma Labrega Murtoseira que encima esta crónica.

Estava aberto o caminho para a crónica. “Uma labrega em Setúbal!”, comentou outro amigo. Tinha de escrever a crónica. Recorrendo à minha biblioteca, a memórias familiares e ao universo virtual, sem quaisquer pretensões de escrever um “artigo”, ela aqui está .

Em primeiro lugar, como e quando terá chegado a Labrega a Setúbal? Da mesma forma, pelos mesmos motivos e no mesmo tempo que a Ílhava, tal como é descrito por Senos da Fonseca em “Embarcações que tiveram berço na laguna” – migração pela costa, crise na economia piscatória, e não só, durante o século XVIII na ria de Aveiro. Note-se que na ilustração desta migração marítima da Ílhava, a imagem utilizada por Senos da Fonseca na página 82, é uma foto onde aparece uma Labrega Murtoseira e não uma Ílhava.

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Labrega – do livro “Embarcações que tiveram berço na laguna- Senos da Fonseca

 

No Tejo deixou a Labrega memória nas bateiras avieiras, o que já referi, e é consensual, na minha crónica de Janeiro deste ano http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/46854/o-moliceiro-patrimonio-nacional-quando/.

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Bateiras avieiras: “Ribatejo”, jornal online

Da memória da família consta a ida do meu bisavô Domingos José Cravo (gorim) para a Azambuja, durante a época do sável, estabelecendo-se com uma bateira num esteiro – conhecido à época por “esteiro do gorim” – vendendo mercearias e pão aos pescadores e vizinhos. Imagino o meu bisavô numa Labrega Murtoseira, só pode. Desta sua deslocação sazonal fica a notícia do jornal “Povo da Murtosa” de 23 de Julho de 1917, onde na rúbrica “Chegadas” se pode ler “ Da Azambuja, chegou á sua casa da Murtoza o nosso assinante sr. Domingos José Cravo…..”

Em “Achegas para uma História da Pesca em Portugal”o Capitão Bento Leite escreve a seguinte nota: “1819 – os pescadores de Alhandra, Alverca e Póvoa de Santa Iria queixaram-se dos varinos de Aveiro e Ovar que traziam redes de arrasto para o Tejo”. Labregas, Ílhavas, ambas?

O caso de Setúbal. Existem em Setúbal duas zonas povoadas por comunidades de pescadores migrantes: a poente as Fontaínhas e o Bairro Santos Nicolau – gente da região de Aveiro, murtoseiros predominantes nas Fontaínhas – e a poente o bairro de Tróino – migrantes vindos do Algarve.

 

Da actividade e dimensão da população de pescadores da Murtosa em Setúbal, fica-se com uma noção através da notícia publicada no “Povo da Murtosa” de 1 de Dezembro de 1913, com o título: “Pescadores em Setúbal”, onde se pode ler “Sob a denominação de Associação da Classe dos Pescadores da Murtoza em Setúbal, vem de fundar-se naquela cidade … uma associação de classe com o fim de defender os interesses dos pescadores nossos patrícios ali residentes”.

Os pescadores das Fontaínhas e do Bairro Santos Nicolau tinham os seus barcos na Doca Comercial, vulgarmente conhecida por “Doca das Fontaínhas”, os pescadores de Tróino na Doca de Pesca, a poente, junto à lota.

Analisando fotografias da mesma época, das duas docas, que insiro nesta crónica, verifica-se que na doca das Fontaínhas se podem ver muitas Labregas murtoseiras e na doca de pesca muitas Barcas algarvias. Ou seja, o povoamento terrestre reflecte-se no “povoamento marítimo”, a cada comunidade o seu tipo de barco.

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Doca de pesca de Setúbal: autor Artur Pastor . Série “Portugal Litoral” Setúbal anos 40/60

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Doca das Fontaínhas: do livro “Setúbal D’Outros Tempos” – Américo Ribeiro

Muito poderão os estudiosos vir a publicar sobre este tema. Infelizmente não conheço obra publicada e aprofundada que possa citar, quer sobre a Labrega Murtoseira, quer sobre o “povoamento marítimo” das duas docas de Setúbal – só memórias fotográficas insertas em livros genéricos. Acontece que nem no citado livro de Senos da Fonseca, nem em “Bateiras da Ria de Aveiro” de António Marques da Silva e Ana Maria Lopes, se encontram referências à Labrega. Terá isto a ver com outra forma de povoamento na ria de Aveiro? O da produção e publicação de estudos sobre o património náutico da região: a sul Ílhavo e a norte Ovar. A pobre da Labrega é património da Murtosa onde reside também o icónico Moliceiro que a “abafou” em termos de estudo, até no pouco publicado por murtoseiros.

Existe uma tese de mestrado, para a qual dei modestas achegas iniciais, que se debruçou sobre a Labrega já lá vão alguns anos, mas que nunca vi em formato legível, para poder dela retirar quaisquer ilacções.

Apesar da designação “labrega” assumir hoje em dia a forma de adjectivo depreciativo, ela foi e é um substantivo com uma carga histórica muito forte, ferramenta de trabalho que deu de comer a muita gente. Falta que lhe seja dado o devido relevo pelos estudiosos produtores de obra publicada.

Até lá ficam estas notas e as fotos que as ilustram. Na próxima crónica voltarei à Labrega, porque o difícil é começar.

(os meus agradecimentos a Artur Costa Pastor pela autorização de utilização, nesta crónica, de fotos de seu pai, Artur Pastor)

crónica de maio no “notícias de aveiro”


Pensar o moliceiro hoje (2) – Ser radicalmente realista

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No dia 29 de janeiro deste ano enviei um email para a Capitania do Porto de Aveiro, que transcrevo:

Exmo Sr.

Capitão do Porto do Aveiro

Estou a estudar a possibilidade de investir na aquisição, ou encomenda para construção de raiz, de um moliceiro tradicional, para utilização em passeios turísticos em toda a extensão da Ria de Aveiro.

Para melhor equacionar e tratar do investimento, parece-me fundamental saber dos normativos que estribam não só a compra/encomenda, como a exploração.

Neste entendimento, venho solicitar a V. Exa se digne informar-me dos normativos nacionais e locais, bem como dos custos processuais e de licenças anuais inerentes a todo o processo acima descrito.

Caso seja possível agradecia o envio dos documentos, ou a sua localização na net, para este endereço de email.

Com os meus mais respeitosos cumprimentos”

Como ao fim duas semanas não tinha qualquer resposta, telefonei para a Capitania e fui muito bem atendido, disseram-me o que sabiam, e já não era pouco, mas remeteram-me para o Capitão do Porto única entidade que poderia esclarecer devidamente os problemas que coloquei. Até hoje, 26 de Maio de 2018, não recebi qualquer resposta, pelo que estou perfeitamente esclarecido.

Como encarar então o futuro do moliceiro, quando nos defrontamos, logo de início, com situações como esta? Eu só tenho uma resposta: sendo radicalmente realista. E é o que vou tentar transmitir a quem tiver a paciência de me ler, mesmo que, como me dizia um amigo aqui há dias, me tenha de dar razão, embora não queira concordar comigo.

Ainda há “almoços grátis” na Ria de Aveiro e quem os serve são os moliceiros tradicionais mas, há força de tanto dar, um homem fica sem dinheiro ou cansado de o fazer. A existência de moliceiros tradicionais na Ria de Aveiro não é explicável pela razão, mas pelo coração. Há bem poucos anos, aquando do bota-abaixo de um moliceiro na Torreira, o que lhe deu tempo de antena televisivo, o Presidente da Câmara da Murtosa, ao canal que o entrevistava, disse que não aconselhava ninguém a investir num moliceiro. Disse e não precisava de dizer mais.

Há pois que pensar em como financiar, sim financiar e não subsidiar, os moliceiros tradicionais. Investir num moliceiro tradicional traz sempre retorno às autarquias, ao comércio, à restauração, à economia da região. Só não traz a quem o mandou fazer. Isto é ser realista e radical, é dizer como as coisas são sem rodeios, nem floreados. Uns põem a mesa, outros comem.

Durante o verão de 2016, acompanhei dia a dia a construção de um moliceiro, no estaleiro do mestre Zé Rito, na Torreira, e tive oportunidade de acompanhar e servir de guia a curisos turistas de diversas nacionalidades. Um dia um francês ficou espantado quando lhe disse que o moliceiro em construção era para um particular. Em França, respondeu, estas construções são da responsabilidade do Património, do estado

Vamos então ao que importa.

No Jornal “Dinheiro Vivo” de 13 de Junho de 2016, pode ler-se, num artigo sobre a Câmara de Aveiro ….O Município encaixou em 2014 cerca de 1,2 milhões de euros, a receber em cinco anos, com a hasta pública para uso privativo de 10 cais de atracação nos Canais Urbanos para o exercício da atividade marítimo-turística ……..” (https://www.dinheirovivo.pt/economia/passeios-barco-financiam-investimento-municipal-nos-canais-aveiro/), rende bem o negócio! A pergunta é: quanto é que a Câmara de Aveiro investe por ano nos moliceiros tradicionais?

Há aqui uma fonte de rendimento, de uma entidade pública local, que poderia muito bem contribuir para o financiamento da construção/manutenção de moliceiros tradiconais. Não é essa uma das missões das autarquias? Apoiar a preservação do património local?

Por outro lado, e no âmbito do orçamento da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro, deveria ser considerada uma verba anual para financiamento dos moliceiros tradicionais, contemplando duas vertentes:

  • manutenção (com obrigatoriedade de os moliceiros, que recebessem financiamento, participarem nas regatas a realizar)
  • construção (nas mesmas condições do anterior)

(Os subsídios atribuídos os participantes nas regatas são apenas isso, subsídios)

E os privados não deveriam contribuir também? Claro que sim. Aqui incluo as empresas que exploram os passeios turísticos nos canais de Aveiro, nos barcos que por lá andam a fazer de conta que são moliceiros, a fazer de conta que andam na ria – é tudo um faz de conta, que faz muito dinheiro – e a empresas regionais dos mais diversos ramos.

Sem afectar a imagem dos moliceiros, poderiam financiar a sua manutenção e preservação, sendo-lhes, em troca, atribuído espaço para publicidade nos locais onde se realizam as regatas. Tome-se como exemplo a publicidade que é feita nos campeonatos de surf ou windsurf, os patrocinadores não têm logotipos nas pranchas, têm cartazes e outros materiais de publicidade nas praias onde se realizam os eventos.

Como já escrevi em artigo anterior, não há moliceiros tradicionais a navegar sem uma tripulação que os saiba manobrar, pelo que não podemos esquecer e desperdiçar o saber dos “velhos” moliceiros e o seu papel no ensino da arte manobrar o moliceiro.

Com as actuais condições de financiamento público e privado, não há razão que explique o investimento num moliceiro tradicional. Tem razão o Sr. Presidente da Câmara da Murtosa, mas o povo tem um ditado que tudo esclarece “o coração tem razões que a razão desconhece”.

Apesar de tudo – grandes corações há na ria – nos últimos anos tenho assistido ao aparecimento de novos moliceiros, mandados fazer, recuperar, ou adquiridos por uma nova geração que nunca andou ao moliço. O MOLICEIRO fascina quem o vê e sente.

Para terminar, e porque este é um jornal digital, deixo-vos com o vídeo do bota-baixo do moliceiro FERREIRA NUNES, no Cais do Bico no dia 13 de Maio, e a entrevista ao seu dono – ouçam-na com atenção, por favor.

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Pensar o moliceiro hoje: Ria de Aveiro Radical (RAR) – parte 1

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22 mar 2018, 20:33

É preciso aproveitar o que já temos: os barcos, os “velhos” e “novos” moliceiros e as escolas de vela existentes na ria.

ahcravo gorim *

Fiquem desde já claras as seguintes questões: a Ria de Aveiro não são os canais da cidade de Aveiro; os barcos que circulam nos canais são “caricaturas”, algumas de muito mau gosto, dos verdadeiros barcos moliceiros, para não falar das de mercantéis que também por lá andam; todos sabemos e está por demais escrito que a função para que o moliceiro foi criado – a apanha de moliço – terminou e, com ela o papel que o moliceiro desempenhava na cadeia económica em que se encontrava inserido.

Importa pois pensar como é que este barco único no mundo, símbolo de uma terra, de uma região e até de um país, tem sobrevivido ao longo dos anos e como poderá continuar a existir.

As regatas

Uma das formas de os moliceiros “encaixarem” algum dinheiro é na participação em regatas, onde lhes são atribuídos prémios de presença, competição e painéis. Ao longo do ano realizam-se três, a da Ria – Torreira/Aveiro – a do Emigrante e a do S. Paio – no município da Murtosa.

Destas três regatas aquela em que os donos dos moliceiros amealham mais é na da ria mas, mesmo nessa, só lhes chega aos bolsos pouco mais de metade do subsídio que acttualmente a Comunidade Intermunicipal região de Aveiro (CIRA) lhe atribui – cerca de 17.000 euros.

A outra metade vai para a associação que organiza a regata e que tem de suportar os custos com dois almoços, seguros, taças e medalhas – se gastarem 2 mil euros é muito, se gastarem mais é desperdício. Quem tem ganho são as associações organizadoras, durante muitos anos a Associação dos Amigos da Ria, depois o Clube Náutico da Torreira e agora o rancho Camponeses da Beira Ria.

Claro que os donos dos moliceiros não ficam isentos de culpa, por receberem só metade. PORQUE NÃO CRIAM ELES UMA ASSOCIAÇÃO?

Escreveu Diamantino Dias: “Quando, em finais de Outubro de 1957, entrei para a Câmara Municipal de Aveiro como Fiscal Informador dos Servicos de Propaganda e Turismo, já se realizava, há alguns anos, o “Concurso dos Painéis dos Barcos Moliceiros”, que tinha sido criado por iniciativa de Arnaldo Estrela Santos, quando foi Vereador e Presidente da Comissão Municipal de Turismo.”

Durante alguns anos terá havido ainda uma regata entre S. Jacinto e Aveiro, em que a partida era, também ela, um espectáculo: os barcos estavam varados na areia e a regata inicia-se com a tripulação a saltar para o moliceiro e pô-lo a navegar (contado pelo mestre Zé Rito).

Será, no entanto, o mesmo Dimantino Dias que em 1978 – veja-se o anexo constante da segunda edição do livro “Moliceiros” de Ana Maria Lopes – terá a ideia de a regata partir da Torreira e terminar em Aveiro. O modo como expressa a necessidade de o fazer ainda não encontra, nos dias de hoje, uma visão tão ampla em quem a deveria ter. Fica aqui um breve excerto do que então pensou, concretizou e fixou em papel : “A minha ideia, quando propus a realização desta Regata, foi proporcionar, aos fotógrafos e cineastas, amadores e profissionais, 9 milhas náuticas ou 12 quilómetros – dos quais 8, pela estrada que liga a Torreira a S. Jacinto e 4, pela antiga estrada da Gafanha – e duas horas de hipóteses para fazerem excelentes imagens, que constituíriam óptimos elementos publicitários, susceptíveis de despertar a vontade de nos visitar a quem os visse.” (texto integral emhttp://www.prof2000.pt/users/avcultur/DiamDias/Ficcoes/Page280.htm)

Claro e simples, ninguém, nunca mais, escreverá melhor.

O turismo em ria aberta

Os passeios turísticos em moliceiros tradicionais têm sido uma das formas dos moliceiros, com licenciamento para tal, irem angariando alguns meios de financiamento – convém lembrar que o custo de um moliceiro pronto a navegar andará pelos 25.000 euros e a sua manutenção anual pelos 2.000. Mesmo que ganhasse todos os primeiros prémios das regatas existentes, nenhum moliceiro recebia o suficiente para a manutenção, quanto mais para amortizar o investimento.

A 29 de Janeiro contactei por email a Capitania do Porto de Aveiro, manifestando a minha intenção de mandar construir, ou recuperar, um moliceiro para a realização de actividades turísticas em Ria Aberta, pelo que solicitava informação sobre legislação e custos legais com aquisição e manutenção de actividade. Ao fim de duas semanas, sem qualquer resposta, recorri ao telefone. Fui muito bem atendido mas…. remeteram-me para o Capitão do Porto, a que me deveria dirigir por correio electrónico. Até à data em que escrevo esta crónica continuo à espera.

RIA DE AVEIRO RADICAL

Nunca ninguém tinha pensado que a Ria de Aveiro poderia ser palco para desportos radiciais, até que ao sul da Bestida nasce, pela mão de um homem de Espinho, Adriano Coutinho, o clube Nortada Aventura e o Kite Surf encontrou o seu “spot” perfeito.

E o moliceiro? Não será tripular um moliceiro um desporto radical? Porquê limitá-lo a velejar nas regatas, ou por puro prazer dos seus donos em dia de sol e algum vento?

Porque não pensar num moliceiro em que a tripulação é constituída por amantes da vela, devidamente treinados e que querem sentir emoções fortes tripulando um moliceiro? Para quem já andou num, à vela, em dia de vento, sabe o que tem de radical uma viagem destas.

Isto num moliceiro tradicional, sem quaisquer adaptações ou alterações. Raul Brandão pensou que ele era um barco de pesca quando viu as enguias misturadas com o moliço, é preciso agora pensar no moliceiro como barco radical e dar-lhe asas.

Claro que é preciso haver timoneiros que ensinem a tripular um moliceiro, que é preciso uma escola de vela para moliceiros, que será preciso definir em que zonas da ria onde poderão velejar e muito mais. Mas, fundamentalmente, é preciso aproveitar o que já temos: os barcos, os “velhos” e “novos” moliceiros e as escolas de vela existentes na ria.

Claro que é preciso muita coisa, mas o fundamental é que esta pode ser mais uma que poderá salvar DEFINITIVAMENTE o moliceiro.

Os desportos radicais têm cada vez mais aderentes e que de bom gosto pagarão para sentir todas as emoções que o moliceiro pode proporcionar.

O futuro do moliceiro está numa RIA DE AVEIRO RADICAL, com o moliceiro sempre como símbolo. Depende de nós e de quem “MANDA”. MAS FUNDAMENTALMENTE DE NÓS.

(continua na próxima crónica)

* mestre de artes e ofícios

link para a crónica

http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/47604/pensar-o-moliceiro-hoje-ria-de-aveiro-radical-rar-parte-1/

O moliceiro Património Nacional, quando?


 

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Único no país e no mundo, objecto de estudos, livros, teses, publicações, o moliceiro ainda não está inscrito como Património Imaterial Nacional, na Direcção Geral do Património Cultural. Custa a acreditar, mas é verdade.

A foto que ilustra estas palavras é a da capa, das primeiras edições, do livro “Os Pescadores” de Raul Brandão e, por estranho que possa parecer, tratando o livro de pescadores e de artes de pesca, é o moliceiro que lhe serve de capa; o moliceiro que nada tem a ver com pesca e pescadores.

Segundo o Professor Doutor Vitor Pena Viçoso, estudioso da obra de Raul Brandão, tal acontece porque foi na ria de Aveiro, que atravessou de moliceiro, que Raul Brandão se sentiu plenamente feliz. Eis pois a maior distinção que alguém deu, até hoje, ao moliceiro: ser capa de um dos livros de referência para a história das pescas costeiras e interiores, do Portugal dos inícios do século XX, não sendo um barco de pesca.

No âmbito da candidatura da Cultura Avieira a Património da Humanidade, promovida pelo Instituto Politécnico de Santarém, que se iniciou em 2006, foi elaborada uma candidatura específica para as “ Artes e saberes de construção e uso da bateira avieira no rio Tejo, Caneiras “, a Património Imaterial Nacional, a qual foi aprovada – Anúncio n.º 121/2016 – Diário da República n.º 86/2016, Série II de 2016-05-04 – e que pode ser consultada em http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/Inventario/InventarioConsultar.aspx?IdReg=475 e

A bateira avieira e os seus processos contrutivos estão assim protegidos pela classificação de Património Imaterial Nacional, que lhes foi atribuída. Mérito de quem para tal trabalhou. Acontece porém, e isso é consensual – vejam-se as fotos – que a bateira assim classificada, não é mais que uma bateira labrega murtoseira com pequenas adaptações.

Da labrega murtoseira resta um exemplar no cais da Bestida, Murtosa, à espera de … a avieira, sua descendente, é Património Imaterial Nacional!

O que é que isto tem a ver com a candidatura do moliceiro a Património Imaterial Nacional ? Tem tudo. Santarém tem um Instituto Politécnico e a região de Aveiro uma Universidade, o museu de Ílhavo e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – em que se inclui a “Pátria do Moliceiro”. Se em Santarém uma bateira com matriz na ria já foi considerada Património Nacional, o que espera a Região de Aveiro para candidatar o moliceiro?

Leia-se o Dec. Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro, para fique clara a importância desta classificação e a quem compete a sua obtenção, na preservação do inventariado, de que ficam destaques, por mim seleccionados, só como exemplo:

“Artigo 3.º

Tarefa fundamental do Estado

1 — Através da salvaguarda e valorização do património cultural, deve o Estado assegurar a transmissão de uma herança nacional cuja continuidade e enriquecimento unirá as gerações num percurso civilizacional singular.

2 — O Estado protege e valoriza o património cultural como instrumento primacial de realização da dignidade da pessoa humana, objecto de direitos fundamentais, meio ao serviço da democratização da cultura e esteio da independência e da identidade nacionais.

3 — O conhecimento, estudo, protecção, valorização e divulgação do património cultural constituem um dever do Estado, das Regiões Autónomas e das autarquias locais. “- sublinhado da minha responsabilidade

e
CAPÍTULO III

Protecção dos bens culturais inventariados

Artigo 61.º

Inventário geral

1 — Os bens inventariados gozam de protecção com vista a evitar o seu perecimento ou degradação, a apoiar a sua conservação e a divulgar a respectiva existência. “

(Versão integral em https://dre.pt/application/dir/pdf1s/2001/09/209A00/58085829.pdf )

O moliceiro já tem teses e livros que cheguem sobre ele, só lhe falta uma coisa: a classificação como Património Imaterial Nacional, no mínimo, porque o objectivo de qualquer amante e conhecedor da região é a sua inscrição como Património Imaterial da Humanidade. Será o moliceiro menos que os bonecos de Estremoz, ou serão os alentejanos mais dinâmicos e promotores da preservação da sua identidade regional?

Para os interessados em saber o que está classificado como Património Imaterial Nacional aqui fica o caminho

http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/Inventario/InventarioListar.aspx?TipoPesq=1&NumPag=1&RegPag=50&Modo=1&Criterio=&Inpci=True

Para o que já está protegido e inscrito na UNESCO

https://www.unescoportugal.mne.pt/pt/temas/proteger-o-nosso-patrimonio-e-promover-a-criatividade/patrimonio-cultural-imaterial-em-portugal

Repito, “Santarém tem um Instituto Politécnico e a região de Aveiro uma Universidade, o museu de Ílhavo e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro– em que inclui a “Pátria do Moliceiro.”

O que falta?

http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/46854/o-moliceiro-patrimonio-nacional-quando/