crónica de janeiro no “Notícias de Aveiro”

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A gripe, eu e os livros

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O livro, qualquer livro, é a VIAGEM por excelência – a que o autor fez até o começar, a feita ao escrevê-lo, a que o leitor faz ao lê-lo e a que fará depois de o ter lido. Quantas viagens encerra um livro!

Ler é um factor de liberdade e de libertação, por isso houve quem entendesse que a felicidade residia na ignorância e fizesse desse princípio um dos pilares do seu poder. Chamaram-se, chamam-se, chamar-se-ão sempre, ditadores.

Apesar de todas as vacinas, este ano apanhei a minha dose de gripe, não muito forte porque vacinado, mas tive-a e valeu-me a saúde 24. Enquanto a cabeça pesava, não consegui ler e é essa foi outra doença.

Pensei, já com a cabeça mais leve, nos meus livros, no como são importantes para mim hoje, como é importante saborear a leitura sem pensar no que amanhã acontecerá ao livro. Porque os livros também têm histórias para contar – mais uma viagem. Pensar no que acontecerá aos meus livros, depois de mim, não resolve o problema deles, nem o meu, só me acrescenta problemas, então o melhor é lê-los, senti-los, falar deles.

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Neste apontamento breve queria falar de três livros que nas minhas estantes ocupam lugar de relevo – que, sem serem mais que os outros, são mais de mim -, “Os pescadores” de Raul Brandão, edição ilustrada dos Estúdios Cor, 1957, “A Ria de Aveiro”, de Augusto Nobre, Jaime Afreixo e José de Macedo, edição da Imprensa Nacional, 1915 e “Gente” de Eduardo Gageiro, Editorial O Século, 1971.

Sempre me interessaram os livros pelo seu conteúdo e não por outras razões. Quando, nos princípios da década de 80, o poeta Joaquim Namorado me quis vender, a preço de amigo, a primeira edição de Orpheu, respondi-lhe: Para quê Dr. Joaquim, já os tenho – tinha a edição fac-similada da Ática. Hoje, mais maduro, tê-los-ia comprado, não pelos livros, mas como memória do amigo – mas isso é outra história.

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Os três livros comprei-os porque me surgiram e porque não os tinha. Não são primeiras, nem décimas edições, são edições únicas. Interessante é que dos três, dois têm características especiais nas dedicatórias. “A Ria de Aveiro” tem uma dedicatória de Jaime Afreixo a um amigo, “A Gente”, tem a dedicatória de Eduardo Gageiro, confirmada a assinatura pelo autor, aos professores que lhe ensinaram as primeiras letras.

O livro de Gageiro foi quase dado porque tem uma folha com defeito. Os possíveis compradores que o folhearam antes de mim e o podiam ter comprado, desistiram quando viram esse defeito. Mas se o livro vale alguma coisa, em termos de história de vida de Eduardo Gageiro, é pela dedicatória. É preciso sentir os livros, folheá-los, cheirá-los – como faz António Lobo Antunes com as edições das suas obras.

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Quanto a “Os pescadores” em edição ilustrada, pensei nunca os arranjar e, de repente, aparece um anúncio de venda. Quando depois de o folhear “com carinho” página a página e percorrer todas as fotos, à mesa do café, ao regressar a casa foi abraçado a ele que subi os degraus. Só depois me apercebi do gesto e de como inconscientemente os afectos se manifestam. Era como se mais um filho, mais um neto. Não era só um livro.

Um livro nunca é só um livro, depois de o lermos o livro é uma parte de nós, da nossa história, do sermos mais. Porque um livro só nos acrescenta.

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Ler, ler, ler. Ler muito só faz bem. Ter um orientador de leituras, uma referência que nos vá dando dicas sobre o que ler, dentro do nosso caminho, é importante – devo muito a Joaquim Namorado e aos livros da biblioteca de meu pai.

A minha neta mais velha quando vinha ter comigo, pequenita, com birra ou a chorar, bastava-lhe ver um embrulho que já sabia ser um livro, para estender as mãozinhas e parar com birras e choros.

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foto de Santos de Almeida Júnior

LIVROS INTERPARES


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no dia 24 de maio de 2018, no âmbito das comemorações do 108.º da biblioteca municipal da figueira da foz, teve lugar na sala de leitura da biblioteca, uma TERTÚLIA sobre O LIVRO, pensada, organizada e promovida pelo figueirense santos silva, que lhe deu o título de “LIVROS INTERPARES”.

moderada pelo presidente da câmara municipal da figueira da foz, a TERTÚLIA foi animada por figueirenses AMANTES DO LIVRO:

antónio tavares – escritor, vencedor do prémio leya 2015

antero urbano – bibliófilo

josé augusto bernardes – director da biblioteca geral da universidade de coimbra

miguel carvalho – alfarrabista com livraria aberta na figueira da foz

apesar de não ter tido a habitual divulgação com que este tipo de eventos é contemplado, a sala de leitura estava completamente cheia, a TERTÚLIA durou mais de duas horas e foi extremamente animada.

parabéns meu caro santos silva pela iniciativa, organização e a possibilidade que nos deste de podermos participar em tão enriquecedora TERTÚLIA.

aos que nos deram os seus contributos de vida – antero urbano, antónio tavares, josé bernardes e miguel carvalho – só resta tirar o chapéu e dizer: vale a pena viver numa terra que vos viu nascer ou onde habitam.

VENHAM MAIS, santos silva, ficamos à espera.

do decorrer da tertúlia fica o registo possível

 

 

 

obrigado fernando


obrigado fernando

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ando como se não soubesse
de outro caminho
o mar ao fundo os livros à mão

é dia de feira de rever amigos
da tertúlia das velharias
do fernando e da suméria onde
nunca fui como a quase tudo

as lombadas alinhadas
por temas e preços
bons os do fernando
patrono dos leitores ávidos
e pouco abonados

as primeiras as segundas
as que lhe calharam em sorte
os amigos agradecem
a atenção que lhes faz sempre
e são amigos todos
os que lhe compram livros

é sábado e eu não sei
se ainda há sábados para mim
todos os dias são domingo
para um reformado

ando como se não soubesse
de outro caminho
o mar ao fundo os livros à mão

comprei um livro
extraordinário
obrigado fernando

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(buarcos, feira das velharias)