os moliceiros têm vela (426)


ninguém mata o que foi

torreira; s. paio; 2010
guardo o tempo no fundo
dos olhos


decoro com palavras
as imagens


nascem rostos nomes
aconteceres


não invento passados
para ser hoje


caminho leve de ter sido
porque inteiro


sou o que o tempo conta
não o que contam


abraço o sol e a noite
os dias cheios


ninguém mata o que foi

a beleza do sal (104)


“Recriação da safra à moda antiga” – foto 15

salina do corredor da cobra; 2020
vê-las caminhar
com a giga carregada
e a elegância de desfile


explica o ser salgado
o sangue e intemporal
a tradição revivida

postais da ria (368)


salvé salvador

torreira; 2019
regresso ao sábio labor
das pequenas malhas
à paciência do pescador


encontro o homem
escuto-o e aprendo


vão colhendo as malhas
gélidos os dedos do meu amigo


dentro do barco agulha na mão
um homem bom espera melhores dias


um homem bom que repara redes
porque não pode reparar os dias

os moliceiros têm vela (423)


raízes

aveiro; regata da ria; 2019
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada


homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações


foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre


às raízes

(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:

a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.

isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.

conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.

o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.

saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)