crónicas da xávega (361)


escrevo

torreira; 2005
 escrevo o tempo com imagens
 guardadas nos baús digitais
 da memória comprada
 
 
 a informação diz-me o quando
 eu sei onde ainda sei
 
 
 quando tudo foi ontem e ontem
 foi há tanto tempo
 
 
 sei deste caminho feito
 de achares e perderes
 sei que valeu a pena
 
 
 homens que conheci para desconhecer  
 o tempo tudo limpa e lava  
 mesmo o que mais fundo à superfície vem
 
 
 escrevo o tempo com imagens
 como todos os que arriscam palavras
 escrevo-me também e isso não é novo
 para ninguém 

postais da ria (369)


amigos

torreira; porto de abrigo; 2018
então trocas os nomes
confundes os rostos
reconheces a voz
mas é tarde


não tardou o tempo
a crescer onde diminuis


então trocas os nomes
os que não esqueceste
que a memória também


os amigos sorriem e respondem
por um nome que não é o deles


os amigos são para além do nome
o gesto o abraço o sorriso


então sorris também porque
não há trocas na amizade

os moliceiros têm vela (426)


ninguém mata o que foi

torreira; s. paio; 2010
guardo o tempo no fundo
dos olhos


decoro com palavras
as imagens


nascem rostos nomes
aconteceres


não invento passados
para ser hoje


caminho leve de ter sido
porque inteiro


sou o que o tempo conta
não o que contam


abraço o sol e a noite
os dias cheios


ninguém mata o que foi

a beleza do sal (104)


“Recriação da safra à moda antiga” – foto 15

salina do corredor da cobra; 2020
vê-las caminhar
com a giga carregada
e a elegância de desfile


explica o ser salgado
o sangue e intemporal
a tradição revivida