os moliceiros têm vela (313)


fazer o futuro

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o “Doroteia Verónica” ainda velejava

presa nas malhas
do corpo
esta coisa pensar

recolher-me na
incerteza dos dias

reviver os que foram
no que é
no que me deixaram
para que deixe

viver hoje
é preservar o ontem
fazer o futuro

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o “Doroteia Verónica” ainda velejava

(regata da ria; 2010)

dia 30 de junho há regata

notícias de aveiro_março 2019


Pensar o moliceiro hoje: Ria de Aveiro Radical (RAR) – parte 1

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22 mar 2018, 20:33

É preciso aproveitar o que já temos: os barcos, os “velhos” e “novos” moliceiros e as escolas de vela existentes na ria.

ahcravo gorim *

Fiquem desde já claras as seguintes questões: a Ria de Aveiro não são os canais da cidade de Aveiro; os barcos que circulam nos canais são “caricaturas”, algumas de muito mau gosto, dos verdadeiros barcos moliceiros, para não falar das de mercantéis que também por lá andam; todos sabemos e está por demais escrito que a função para que o moliceiro foi criado – a apanha de moliço – terminou e, com ela o papel que o moliceiro desempenhava na cadeia económica em que se encontrava inserido.

Importa pois pensar como é que este barco único no mundo, símbolo de uma terra, de uma região e até de um país, tem sobrevivido ao longo dos anos e como poderá continuar a existir.

As regatas

Uma das formas de os moliceiros “encaixarem” algum dinheiro é na participação em regatas, onde lhes são atribuídos prémios de presença, competição e painéis. Ao longo do ano realizam-se três, a da Ria – Torreira/Aveiro – a do Emigrante e a do S. Paio – no município da Murtosa.

Destas três regatas aquela em que os donos dos moliceiros amealham mais é na da ria mas, mesmo nessa, só lhes chega aos bolsos pouco mais de metade do subsídio que acttualmente a Comunidade Intermunicipal região de Aveiro (CIRA) lhe atribui – cerca de 17.000 euros.

A outra metade vai para a associação que organiza a regata e que tem de suportar os custos com dois almoços, seguros, taças e medalhas – se gastarem 2 mil euros é muito, se gastarem mais é desperdício. Quem tem ganho são as associações organizadoras, durante muitos anos a Associação dos Amigos da Ria, depois o Clube Náutico da Torreira e agora o rancho Camponeses da Beira Ria.

Claro que os donos dos moliceiros não ficam isentos de culpa, por receberem só metade. PORQUE NÃO CRIAM ELES UMA ASSOCIAÇÃO?

Escreveu Diamantino Dias: “Quando, em finais de Outubro de 1957, entrei para a Câmara Municipal de Aveiro como Fiscal Informador dos Servicos de Propaganda e Turismo, já se realizava, há alguns anos, o “Concurso dos Painéis dos Barcos Moliceiros”, que tinha sido criado por iniciativa de Arnaldo Estrela Santos, quando foi Vereador e Presidente da Comissão Municipal de Turismo.”

Durante alguns anos terá havido ainda uma regata entre S. Jacinto e Aveiro, em que a partida era, também ela, um espectáculo: os barcos estavam varados na areia e a regata inicia-se com a tripulação a saltar para o moliceiro e pô-lo a navegar (contado pelo mestre Zé Rito).

Será, no entanto, o mesmo Dimantino Dias que em 1978 – veja-se o anexo constante da segunda edição do livro “Moliceiros” de Ana Maria Lopes – terá a ideia de a regata partir da Torreira e terminar em Aveiro. O modo como expressa a necessidade de o fazer ainda não encontra, nos dias de hoje, uma visão tão ampla em quem a deveria ter. Fica aqui um breve excerto do que então pensou, concretizou e fixou em papel : “A minha ideia, quando propus a realização desta Regata, foi proporcionar, aos fotógrafos e cineastas, amadores e profissionais, 9 milhas náuticas ou 12 quilómetros – dos quais 8, pela estrada que liga a Torreira a S. Jacinto e 4, pela antiga estrada da Gafanha – e duas horas de hipóteses para fazerem excelentes imagens, que constituíriam óptimos elementos publicitários, susceptíveis de despertar a vontade de nos visitar a quem os visse.” (texto integral emhttp://www.prof2000.pt/users/avcultur/DiamDias/Ficcoes/Page280.htm)

Claro e simples, ninguém, nunca mais, escreverá melhor.

O turismo em ria aberta

Os passeios turísticos em moliceiros tradicionais têm sido uma das formas dos moliceiros, com licenciamento para tal, irem angariando alguns meios de financiamento – convém lembrar que o custo de um moliceiro pronto a navegar andará pelos 25.000 euros e a sua manutenção anual pelos 2.000. Mesmo que ganhasse todos os primeiros prémios das regatas existentes, nenhum moliceiro recebia o suficiente para a manutenção, quanto mais para amortizar o investimento.

A 29 de Janeiro contactei por email a Capitania do Porto de Aveiro, manifestando a minha intenção de mandar construir, ou recuperar, um moliceiro para a realização de actividades turísticas em Ria Aberta, pelo que solicitava informação sobre legislação e custos legais com aquisição e manutenção de actividade. Ao fim de duas semanas, sem qualquer resposta, recorri ao telefone. Fui muito bem atendido mas…. remeteram-me para o Capitão do Porto, a que me deveria dirigir por correio electrónico. Até à data em que escrevo esta crónica continuo à espera.

RIA DE AVEIRO RADICAL

Nunca ninguém tinha pensado que a Ria de Aveiro poderia ser palco para desportos radiciais, até que ao sul da Bestida nasce, pela mão de um homem de Espinho, Adriano Coutinho, o clube Nortada Aventura e o Kite Surf encontrou o seu “spot” perfeito.

E o moliceiro? Não será tripular um moliceiro um desporto radical? Porquê limitá-lo a velejar nas regatas, ou por puro prazer dos seus donos em dia de sol e algum vento?

Porque não pensar num moliceiro em que a tripulação é constituída por amantes da vela, devidamente treinados e que querem sentir emoções fortes tripulando um moliceiro? Para quem já andou num, à vela, em dia de vento, sabe o que tem de radical uma viagem destas.

Isto num moliceiro tradicional, sem quaisquer adaptações ou alterações. Raul Brandão pensou que ele era um barco de pesca quando viu as enguias misturadas com o moliço, é preciso agora pensar no moliceiro como barco radical e dar-lhe asas.

Claro que é preciso haver timoneiros que ensinem a tripular um moliceiro, que é preciso uma escola de vela para moliceiros, que será preciso definir em que zonas da ria onde poderão velejar e muito mais. Mas, fundamentalmente, é preciso aproveitar o que já temos: os barcos, os “velhos” e “novos” moliceiros e as escolas de vela existentes na ria.

Claro que é preciso muita coisa, mas o fundamental é que esta pode ser mais uma que poderá salvar DEFINITIVAMENTE o moliceiro.

Os desportos radicais têm cada vez mais aderentes e que de bom gosto pagarão para sentir todas as emoções que o moliceiro pode proporcionar.

O futuro do moliceiro está numa RIA DE AVEIRO RADICAL, com o moliceiro sempre como símbolo. Depende de nós e de quem “MANDA”. MAS FUNDAMENTALMENTE DE NÓS.

(continua na próxima crónica)

* mestre de artes e ofícios

link para a crónica

http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/47604/pensar-o-moliceiro-hoje-ria-de-aveiro-radical-rar-parte-1/

os moliceiros têm vela (294)


o homem da beira-ria

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tão pouco uma palavra
e tanto nela se não dita
se negada depois de dada

aqui os homens
têm o tamanho da sua palavra

negá-la é negarem-se
o homem da beira-ria
é homem de palavra

ou ave de arribação

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(torreira; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (293)


ao tempo

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o moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço

quando for com o vento
ficarão palavras e imagens
sonhos ilusões muitas

ilusões muitas

eu quase todo sem ser já
sussurros de água
na boca de um barco morto

os gestos o ter feito
o que me fizeram
deixo ao tempo o juízo

ao tempo
que outro deus
não conheço

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o moliceiro “A. Rendeiro” do ti zé rebeço

(torreira; regata da ria; 2014)

postais da ria (235)


pode ser o fim de

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depois dos homens
muito depois
ficarão os destroços

memórias limpas
de ter havido gente
que fez barcos e filhos
pescou e disso viveu

procurarão então
rostos e histórias
mas será tarde

como sempre
quando ser de hoje
não é ser os seus

não estarás cá
para ouvir os lamentos
nem isso vales

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(algures na ria de aveiro; num tempo a haver)