os moliceiros têm vela (343)


devagar
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aprendi cedo a ler
reconhecer as letras
soletrar sílabas
decifrar frases
 
percorro parágrafos
como se de bengala
as palavras não correm
talvez por isso o povo diga
que mais depressa um coxo
 
sou dos que lêem devagar
como ando
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(torreira; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (330)


hoje

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o “Doroteia Verónica” ainda era um moliceiro inteiro

entra em mim o outono
por debaixo da porta
deste estar aqui ainda

o vento levou as memórias
onde habito

fui-me e fiquei
para ser
o que esqueci

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o “Doroteia Verónica” ainda era um moliceiro inteiro

(torreira; regata da ria; 2011)

 

os moliceiros têm vela (324)


zé pedro

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neste registo de 2013 o zé pedro deveria ter ainda 13 anos e já estava a coser o pano de uma vela.

em 2009 com 10 anos quando o avô, o mestre zé rito, construiu o moliceiro no estaleiro ao lado da casa, já ele andava a acompanhar a construção e a “botar” opinião.

depois começaram as participações em regatas, aos 12 anos já era timoneiro no moliceiro do falecido manel valas, onde com 15 anos apenas – ajuda-me se estiver errado, zé pedro – já foi arrais.

em 2014 ou 2015 com o rui (russo) e o ti manel valas, penso que ficaram em 3º lugar na regata da ria, chegando mesmo a ir na frente em alguns momentos da regata.

digo isto sem consultar documentação, de memória. o importante não é o ano, não é o lugar à chegada, o importante é o amor à partida.

o zé pedro, hoje com 19 anos, é um homem da ria, um homem que se houver condições, juntamente com outros jovens, poderá continuar a tradição legada pelos avós.

haja querer que os moliceiros tradicionais e as regatas têm quem as continue.

quando alguns se queixam que não fazem porque a juventude não se interessa, na ria é ao contrário, há jovens que querem continuar, só precisa que lhes dêem condições.

dá deus nozes …..

(torreira; regata da ria; 2013)

os moliceiros têm vela (322)


abílio fonseca (carteirista)

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o ti abílio já passou os 80 e ainda cá anda a velejar e a ser o exemplo acabado daquilo a que alguns chamam a “brejeirice da beira-ria” – e que tanto tem sido representada nos painéis dos moliceiros.

passem umas horas com o ti abílio e verão como todos os painéis brejeiros podem ser de carne e osso.

nascido e criado na gafanha baixa, na murtosa, cresceu no moliço, foi para a marinha, emigrou, regressou e continua.

é dono do moliceiro “Dos Netos”, o único que não foi construído na zona norte da ria, mas pelo mestre gadelhas, de seixo de mira.

a boa disposição toma-a ao pequeno almoço e adormece com ela.

tratamo-nos por tu e eu tenho por ele amizade e respeito.

guardo, emolduradas, as medalhas que me ofereceu nas regatas da ria e do s. paio, em 2016.

amanhã, dia 5 de agosto, se tudo correr como planeado, lá estaremos na provocação brejeira, tão nossa, tão da beira-ria.

(torreira; regata da ria; 2013)