os moliceiros têm vela (428)


sou ainda

torreira; regata da ria; 2011
 esqueço-me
 com facilidade
 
 
 o tempo já
 não me chega
 porque curto
 para tanto
 
 
 lembro-me
 com dificuldade
 
 
 as palavras
 sobem a custo
 os degraus
 do poema e hesitam
 antes de
 
 
 escuto-me
 com acuidade
 
 
 perco-me
 muito
 encontro-me
 tanto
 
 
 sou ainda 

os moliceiros têm vela (423)


raízes

aveiro; regata da ria; 2019
apertam-se as mãos
e são letras de palavra dita
palavra honrada


homens grandes
frontais de olhar límpido
mãos enormes corações


foram eles o vento que enfunou
as velas do meu estar
com eles naveguei por outras terras
e regressei sempre


às raízes

(a história dos moliceiros, homens e barcos, pode escrever-se com esta imagem:

a palavra dada era palavra honrada, selada no aperto de mãos.

isso aprendi quando me fui fazendo por estas bandas, onde homens de palavra apertavam as mãos.

conheço estas duas mãos, são de dois grandes amigos moliceiros: ti abílio e ti zé rebeço, os dois moliceiros mais antigos da ria.

o ti abílio já vendeu o moliceiro e o ti zé não sabe quanto mais tempo terá forças para o seu.

saber sair é um acto de sabedoria e eles sabem-no.)

os moliceiros têm vela (414)


hoje ontem amanhã

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torreira; regata da ria; 2020; ti zé rebeço

 
sabes que o teu tempo
passou
ainda não completamente
mas
 
os teus olhos vêem por dentro
das coisas e são a memória delas
 
não queres o regresso ao passado
mas que ele se sente contigo à mesa
com amigos mais jovens
a quem passes testemunho
 
o que os teus olhos viram
toda uma geração que viu
 
és ainda
olhas a ria não como
se te despedisses
mas bebendo do copo
até à última gota
 
sentemo-nos
há gente a chegar
à tua mesa
 
os moliceiros têm vela (368)

os moliceiros têm vela (368)


uma imagem vale mais que mil palavras ?

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aveiro; ti zé rebeço e abílio carteirista; julho; 2019

 
(porque gosto muito deste registo, não o queria perder, nem que fosse mal interpretado, por isso sobre ele umas palavras breves)
 
uma imagem é só isso, livre de a interpretar fica quem a lê; palavras fossem e o mesmo poderia escrever.
 
neste caso, a leitura mais imediata das expressões será a da existência de uma controvérsia acesa entre os intervenientes. nada mais errado.
 
o que a imagem retrata – porque não encenada – são as posturas mais usuais de cada um dos intervenientes: o indicador da mão direita esticado (típico no ti abílio) e as mãos abertas (tão comum no ti zé rebeço).
 
a conversa foi acesa, sim, mas a três – o homem da máquina, eu, também entrou nela – e o acordo foi constante, falámos de moliceiros e das regatas.
 
a expressão gestual das opiniões ficou registada na imagem, não o seu sentido. por isso estas palavras que, não sendo mil, resgatam, de qualquer interpretação quase óbvia e errónea, o que de facto se passava: tão só conversa de amigos.
 
os moliceiros têm vela (364)

os moliceiros têm vela (364)


… E houve Regata

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quando os moliceiros dançam ((regata da ria; 2019)

Apesar de ser contra a maré, até S. Jacinto, e sem vento de norte, ao fim de cerca de 3 horas o primeiro moliceiro chegou a Aveiro. Contra tudo o que era previsível, sem a espectacularidade a que nos habituaram as regatas marcadas em datas que tiveram em conta, pelo menos as marés, a regata realizou-se.
Participaram na Regata da Ria 11 moliceiros da classe A – moliceiros com mais de 12 metros – e dois da classe B – moliceiros com mais de 6,90m e menos de 12 m.
Com muitos bordos depois da Pousada, até “agarrarem vento”, os moliceiros dançaram mais que correram. O espectáculo não foi o do dar tudo por tudo – quando os barcos mostram o fundo e parece que vão virar – mas o de um bailado.
A classificação final da regata foi a seguinte:
1º Marco Silva
2º José Rito
3º S. Salvador
4º Um Sonho
5º O Conquistador
Não queria deixar de reforçar o já escrito por Diamantino Dias – as condições adversas, à partida, para a realização da regata – e alertar os responsáveis pela sua marcação, para a necessidade de ter em conta as marés, que tão importantes são para o espectáculo, o grandioso espectáculo, da Regata da Ria de Aveiro. Se a data for fixa, ter em atenção a hora da partida que terá de ser variável, se a hora for fixa terá de ser variável a data.
Quem conhece a ria ou nela fez, ou faz, vida, sabe que quem manda são as marés, contrariá-las é esforço vão, a menos que se fique numa secretária.