os moliceiros têm vela (296)


o moliceiro

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a água quebra
a rocha

o vento dobra
o ferro

o homem escreve
um sonho

palavras com vela
por sobre as águas
levadas pelo vento

o moliceiro

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(murtosa; regata do bico; 2012)

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O moliceiro Património Nacional, quando?


 

foto moliceiro 1

Único no país e no mundo, objecto de estudos, livros, teses, publicações, o moliceiro ainda não está inscrito como Património Imaterial Nacional, na Direcção Geral do Património Cultural. Custa a acreditar, mas é verdade.

A foto que ilustra estas palavras é a da capa, das primeiras edições, do livro “Os Pescadores” de Raul Brandão e, por estranho que possa parecer, tratando o livro de pescadores e de artes de pesca, é o moliceiro que lhe serve de capa; o moliceiro que nada tem a ver com pesca e pescadores.

Segundo o Professor Doutor Vitor Pena Viçoso, estudioso da obra de Raul Brandão, tal acontece porque foi na ria de Aveiro, que atravessou de moliceiro, que Raul Brandão se sentiu plenamente feliz. Eis pois a maior distinção que alguém deu, até hoje, ao moliceiro: ser capa de um dos livros de referência para a história das pescas costeiras e interiores, do Portugal dos inícios do século XX, não sendo um barco de pesca.

No âmbito da candidatura da Cultura Avieira a Património da Humanidade, promovida pelo Instituto Politécnico de Santarém, que se iniciou em 2006, foi elaborada uma candidatura específica para as “ Artes e saberes de construção e uso da bateira avieira no rio Tejo, Caneiras “, a Património Imaterial Nacional, a qual foi aprovada – Anúncio n.º 121/2016 – Diário da República n.º 86/2016, Série II de 2016-05-04 – e que pode ser consultada em http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/Inventario/InventarioConsultar.aspx?IdReg=475 e

A bateira avieira e os seus processos contrutivos estão assim protegidos pela classificação de Património Imaterial Nacional, que lhes foi atribuída. Mérito de quem para tal trabalhou. Acontece porém, e isso é consensual – vejam-se as fotos – que a bateira assim classificada, não é mais que uma bateira labrega murtoseira com pequenas adaptações.

Da labrega murtoseira resta um exemplar no cais da Bestida, Murtosa, à espera de … a avieira, sua descendente, é Património Imaterial Nacional!

O que é que isto tem a ver com a candidatura do moliceiro a Património Imaterial Nacional ? Tem tudo. Santarém tem um Instituto Politécnico e a região de Aveiro uma Universidade, o museu de Ílhavo e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – em que se inclui a “Pátria do Moliceiro”. Se em Santarém uma bateira com matriz na ria já foi considerada Património Nacional, o que espera a Região de Aveiro para candidatar o moliceiro?

Leia-se o Dec. Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro, para fique clara a importância desta classificação e a quem compete a sua obtenção, na preservação do inventariado, de que ficam destaques, por mim seleccionados, só como exemplo:

“Artigo 3.º

Tarefa fundamental do Estado

1 — Através da salvaguarda e valorização do património cultural, deve o Estado assegurar a transmissão de uma herança nacional cuja continuidade e enriquecimento unirá as gerações num percurso civilizacional singular.

2 — O Estado protege e valoriza o património cultural como instrumento primacial de realização da dignidade da pessoa humana, objecto de direitos fundamentais, meio ao serviço da democratização da cultura e esteio da independência e da identidade nacionais.

3 — O conhecimento, estudo, protecção, valorização e divulgação do património cultural constituem um dever do Estado, das Regiões Autónomas e das autarquias locais. “- sublinhado da minha responsabilidade

e
CAPÍTULO III

Protecção dos bens culturais inventariados

Artigo 61.º

Inventário geral

1 — Os bens inventariados gozam de protecção com vista a evitar o seu perecimento ou degradação, a apoiar a sua conservação e a divulgar a respectiva existência. “

(Versão integral em https://dre.pt/application/dir/pdf1s/2001/09/209A00/58085829.pdf )

O moliceiro já tem teses e livros que cheguem sobre ele, só lhe falta uma coisa: a classificação como Património Imaterial Nacional, no mínimo, porque o objectivo de qualquer amante e conhecedor da região é a sua inscrição como Património Imaterial da Humanidade. Será o moliceiro menos que os bonecos de Estremoz, ou serão os alentejanos mais dinâmicos e promotores da preservação da sua identidade regional?

Para os interessados em saber o que está classificado como Património Imaterial Nacional aqui fica o caminho

http://www.matrizpci.dgpc.pt/MatrizPCI.Web/Inventario/InventarioListar.aspx?TipoPesq=1&NumPag=1&RegPag=50&Modo=1&Criterio=&Inpci=True

Para o que já está protegido e inscrito na UNESCO

https://www.unescoportugal.mne.pt/pt/temas/proteger-o-nosso-patrimonio-e-promover-a-criatividade/patrimonio-cultural-imaterial-em-portugal

Repito, “Santarém tem um Instituto Politécnico e a região de Aveiro uma Universidade, o museu de Ílhavo e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro– em que inclui a “Pátria do Moliceiro.”

O que falta?

http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/46854/o-moliceiro-patrimonio-nacional-quando/

parabéns ti abílio carteirista


parabéns ti abílio

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eis o homem da beira-ria, chama-se abílio carteirista

será que este ano são mesmo os 80? ou foi o ano passado?

quem conhece o ti abílio (carteirista) sabe bem que com ele tudo é possível.

eu acredito que este ano são mesmo 80 anos.

fala-se muito da “brejeirice da beira-ria” quando se analisam alguns painéis de moliceiros, mas só se sabe o que é a “brejeirice da beira-ria” depois de alguns momentos de convívio com o ti abílio.

fala-se do “duplo sentido” que algumas legendas de painéis de moliceiros utilizam, veja-se a alcunha “carteirista” e pensa-se logo numa interpretação, mas …… (vejam o vídeo)

o ti abílio tem também da tradição dos homens da beira-ria, no saber o valor da palavra e no reconhecer os amigos – é o que somos.

o ti abílio é a beira-ria

parabéns ti abílio, seja qual for a idade que você comemora hoje, nunca parecerá a que é.

abraço do amigo cravo

(os clips de vídeo, que registei em conversa com o ti abílio, mostram um ti abílio sério, de boa memória, muita experiência de vida e capaz de encarar o futuro com um discernimento que incomodará muitos de menos idade.
hoje o primeiro da série)

construção de um moliceiro (8)


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21 de agosto

hoje acabou-se o fecho dos costados do moliceiro.

neste registo o ti alfredo do táxi – porque foi dono do primeiro táxi da torreira, antes de emigrar – segura a tábua que o mestre zé rito aplaina e irá ser colocada na parte inferior da proa, a estibordo.

para fechar totalmente o barco, ficam só por colocar as tábuas de fecho do fundo.

amanhã começa o trabalho de decoração do barco, a cargo do pintor zé oliveira que, há cerca de 25 anos, decora moliceiros e para os quais vai inventando os temas que tão bem caracterizam os painéis. vamos ver o que sai desta vez.

quanto à colocação da tábua, depois de afeiçoada, não fiz qualquer registo porque…. fui membro da equipa do turno que a aguentou enquanto o mestre a fixava.

(torreira; 21 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (7)


20 de agosto

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hoje começou a pintura do moliceiro.

a elegância da forma, as cores com que é pintado, a decoração global do barco, fazem dele qualquer coisa de único e extraordinariamente belo.

seja então hoje a celebração do barco e deixemos que ele nos encha de alegria e de cor.

os sorrisos espalharam-se pelos rostos de todos os presentes: o pincel e o rolo começaram a cobrir a madeira crua e o barco tornou-se coisa viva.

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(torreira; 20 de agosto; 2016)

construção de um moliceiro (4)


17 de agosto

hoje começou o fecho do barco.

o mestre zé rito afeiçoou a segunda tábua de costado de bombordo e procedeu-se à sua fixação.

do fazer de cavilhas de madeira, que se vêem ao longo da tábua, até aos ângulos de corte da tábua e ao molde para o fazer, muitas foram as pequenas tarefas e alguns os conceitos novos que aprendi.

para a colocação da tábua e ajuda à sua fixação de novo, como sempre, apareceram amigos prontos a ajudar.

ao fixar neste registo o barco, já na sua forma final, e um homem de costas – que eu sei que é o avelino – quero simbolizar TODOS os que, de algum modo, têm estado presentes durante a construção do moliceiro e, com todo o empenho possível, têm dado o seu contributo para a construção.

a cada dia que passa, mais vejo esta construção como a GRANDE CELEBRAÇÃO COLECTIVA E ESPONTÂNEA DA RIA.

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(torreira; 17 de agosto de 2016)

a construção de um moliceiro (2)


12 de agosto (conclusão)
serve este registo para mostrar outro acessório necessário à colocação das dragas e dos bordos: a gata.

à esquerda vê-se um grampo a prender a draga ao bordo exterior, à direita “a gata” engata por debaixo da draga que, alavancada por uma vara de madeira pressionada por 3 homens, é elevada à altura pretendida.

depois é apertada pelo grampo e finalmente fixada ao bordo por meio de ferragem adequada.

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12 de agosto (cont)

colocada a draga dentro do casco, começou por ser fixada à ré, com o grampo que se vê em primeiro plano.

depois é ajustada à proa e elevada com a ajuda de uma alavanca improvisada.

por ser uma tarefa de alguma complexidade e interesse, irei documentá-la um pouco melhor.

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12 de agosto

a draga de bombordo está pronta a ser colocada no interior do casco.

embora o trabalho do dia se tenha concluído com a fixação da draga, pretendo com este registo mostrar o espírito que habita as gentes da beira ria quando se constrói um moliceiro: solidariedade e companheirismo.

assim fosse sempre e em tudo

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a união faz a força

11 de agosto

a draga é “afeiçoada” à curvatura do bordo, com a ajuda de grampos que fazem fixe entre o exterior do bordo e o exterior da draga. assim ficam os dois perfeitamente paralelos.

neste registo vêem-se vários grampos já fixados e o setenove a preparar mais um que colocará com a ajuda do mestre zé rito ou, ao contrário, que o mestre zé rito colocará com a ajuda dele.

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10 de agosto

as dragas são peças análogas aos bordos, sujeitas ao mesmo tratamento, e que correm por dentro das cavernas e braços, paralelas aos bordos.

hoje o mestre zé rito, sempre com a ajuda e a presença do avelino, afeiçoou uma draga, que tal como os bordos esteve mais de 3 meses mergulhada na ria.

sente-se no ar o cheiro a lodo e o aroma da madeira é diverso.

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o mestre zé rito serra a madeira, enquanto o avelino vai varrendo a draga para manter visível a linha de corte