os moliceiros têm vela (330)


hoje

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o “Doroteia Verónica” ainda era um moliceiro inteiro

entra em mim o outono
por debaixo da porta
deste estar aqui ainda

o vento levou as memórias
onde habito

fui-me e fiquei
para ser
o que esqueci

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o “Doroteia Verónica” ainda era um moliceiro inteiro

(torreira; regata da ria; 2011)

 

os moliceiros têm vela (322)


abílio fonseca (carteirista)

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o ti abílio já passou os 80 e ainda cá anda a velejar e a ser o exemplo acabado daquilo a que alguns chamam a “brejeirice da beira-ria” – e que tanto tem sido representada nos painéis dos moliceiros.

passem umas horas com o ti abílio e verão como todos os painéis brejeiros podem ser de carne e osso.

nascido e criado na gafanha baixa, na murtosa, cresceu no moliço, foi para a marinha, emigrou, regressou e continua.

é dono do moliceiro “Dos Netos”, o único que não foi construído na zona norte da ria, mas pelo mestre gadelhas, de seixo de mira.

a boa disposição toma-a ao pequeno almoço e adormece com ela.

tratamo-nos por tu e eu tenho por ele amizade e respeito.

guardo, emolduradas, as medalhas que me ofereceu nas regatas da ria e do s. paio, em 2016.

amanhã, dia 5 de agosto, se tudo correr como planeado, lá estaremos na provocação brejeira, tão nossa, tão da beira-ria.

(torreira; regata da ria; 2013)

os moliceiros têm vela (321)


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zé rebeço

o ti zé rebeço, com quase 80 primaveras, é o exemplo vivo do murtoseiro: ama a ria, lavra a terra e soube o que foi ter emigrar para vingar na vida.

antes de emigrar foi moliceiro e mercantel desde miúdo.

é dono do moliceiro “A. Rendeiro” e vai estar na regata do bico, domingo dia 5.

orgulho-me de o ter como amigo

(torreira; regata da ria; 2013)

crónica de maio no “notícias de aveiro”


Pensar o moliceiro hoje (2) – Ser radicalmente realista

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No dia 29 de janeiro deste ano enviei um email para a Capitania do Porto de Aveiro, que transcrevo:

Exmo Sr.

Capitão do Porto do Aveiro

Estou a estudar a possibilidade de investir na aquisição, ou encomenda para construção de raiz, de um moliceiro tradicional, para utilização em passeios turísticos em toda a extensão da Ria de Aveiro.

Para melhor equacionar e tratar do investimento, parece-me fundamental saber dos normativos que estribam não só a compra/encomenda, como a exploração.

Neste entendimento, venho solicitar a V. Exa se digne informar-me dos normativos nacionais e locais, bem como dos custos processuais e de licenças anuais inerentes a todo o processo acima descrito.

Caso seja possível agradecia o envio dos documentos, ou a sua localização na net, para este endereço de email.

Com os meus mais respeitosos cumprimentos”

Como ao fim duas semanas não tinha qualquer resposta, telefonei para a Capitania e fui muito bem atendido, disseram-me o que sabiam, e já não era pouco, mas remeteram-me para o Capitão do Porto única entidade que poderia esclarecer devidamente os problemas que coloquei. Até hoje, 26 de Maio de 2018, não recebi qualquer resposta, pelo que estou perfeitamente esclarecido.

Como encarar então o futuro do moliceiro, quando nos defrontamos, logo de início, com situações como esta? Eu só tenho uma resposta: sendo radicalmente realista. E é o que vou tentar transmitir a quem tiver a paciência de me ler, mesmo que, como me dizia um amigo aqui há dias, me tenha de dar razão, embora não queira concordar comigo.

Ainda há “almoços grátis” na Ria de Aveiro e quem os serve são os moliceiros tradicionais mas, há força de tanto dar, um homem fica sem dinheiro ou cansado de o fazer. A existência de moliceiros tradicionais na Ria de Aveiro não é explicável pela razão, mas pelo coração. Há bem poucos anos, aquando do bota-abaixo de um moliceiro na Torreira, o que lhe deu tempo de antena televisivo, o Presidente da Câmara da Murtosa, ao canal que o entrevistava, disse que não aconselhava ninguém a investir num moliceiro. Disse e não precisava de dizer mais.

Há pois que pensar em como financiar, sim financiar e não subsidiar, os moliceiros tradicionais. Investir num moliceiro tradicional traz sempre retorno às autarquias, ao comércio, à restauração, à economia da região. Só não traz a quem o mandou fazer. Isto é ser realista e radical, é dizer como as coisas são sem rodeios, nem floreados. Uns põem a mesa, outros comem.

Durante o verão de 2016, acompanhei dia a dia a construção de um moliceiro, no estaleiro do mestre Zé Rito, na Torreira, e tive oportunidade de acompanhar e servir de guia a curisos turistas de diversas nacionalidades. Um dia um francês ficou espantado quando lhe disse que o moliceiro em construção era para um particular. Em França, respondeu, estas construções são da responsabilidade do Património, do estado

Vamos então ao que importa.

No Jornal “Dinheiro Vivo” de 13 de Junho de 2016, pode ler-se, num artigo sobre a Câmara de Aveiro ….O Município encaixou em 2014 cerca de 1,2 milhões de euros, a receber em cinco anos, com a hasta pública para uso privativo de 10 cais de atracação nos Canais Urbanos para o exercício da atividade marítimo-turística ……..” (https://www.dinheirovivo.pt/economia/passeios-barco-financiam-investimento-municipal-nos-canais-aveiro/), rende bem o negócio! A pergunta é: quanto é que a Câmara de Aveiro investe por ano nos moliceiros tradicionais?

Há aqui uma fonte de rendimento, de uma entidade pública local, que poderia muito bem contribuir para o financiamento da construção/manutenção de moliceiros tradiconais. Não é essa uma das missões das autarquias? Apoiar a preservação do património local?

Por outro lado, e no âmbito do orçamento da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro, deveria ser considerada uma verba anual para financiamento dos moliceiros tradicionais, contemplando duas vertentes:

  • manutenção (com obrigatoriedade de os moliceiros, que recebessem financiamento, participarem nas regatas a realizar)
  • construção (nas mesmas condições do anterior)

(Os subsídios atribuídos os participantes nas regatas são apenas isso, subsídios)

E os privados não deveriam contribuir também? Claro que sim. Aqui incluo as empresas que exploram os passeios turísticos nos canais de Aveiro, nos barcos que por lá andam a fazer de conta que são moliceiros, a fazer de conta que andam na ria – é tudo um faz de conta, que faz muito dinheiro – e a empresas regionais dos mais diversos ramos.

Sem afectar a imagem dos moliceiros, poderiam financiar a sua manutenção e preservação, sendo-lhes, em troca, atribuído espaço para publicidade nos locais onde se realizam as regatas. Tome-se como exemplo a publicidade que é feita nos campeonatos de surf ou windsurf, os patrocinadores não têm logotipos nas pranchas, têm cartazes e outros materiais de publicidade nas praias onde se realizam os eventos.

Como já escrevi em artigo anterior, não há moliceiros tradicionais a navegar sem uma tripulação que os saiba manobrar, pelo que não podemos esquecer e desperdiçar o saber dos “velhos” moliceiros e o seu papel no ensino da arte manobrar o moliceiro.

Com as actuais condições de financiamento público e privado, não há razão que explique o investimento num moliceiro tradicional. Tem razão o Sr. Presidente da Câmara da Murtosa, mas o povo tem um ditado que tudo esclarece “o coração tem razões que a razão desconhece”.

Apesar de tudo – grandes corações há na ria – nos últimos anos tenho assistido ao aparecimento de novos moliceiros, mandados fazer, recuperar, ou adquiridos por uma nova geração que nunca andou ao moliço. O MOLICEIRO fascina quem o vê e sente.

Para terminar, e porque este é um jornal digital, deixo-vos com o vídeo do bota-baixo do moliceiro FERREIRA NUNES, no Cais do Bico no dia 13 de Maio, e a entrevista ao seu dono – ouçam-na com atenção, por favor.

os moliceiros têm vela (310)


deixa

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deixa que as palavras
te procurem
trazidas pelo sentir
de tudo

será poema se for
que isso te não preocupe

deixa que os olhos poisem
sobre tudo em tudo penetrem
e tragam consigo o seres

nada é novo
senão o teu olhar
o teu sentir

o teu dizer
nada acrescenta
a coisa nenhuma

por isso
deixa que as palavras
sejam em ti

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(torreira; regata da ria; 2009)