os moliceiros têm vela (575)


hoje é dia de s. paio

os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas

livres de gabinetes e cálculos
de enganos elaborados
por mandantes e candidatos

é hora de vender gato por lebre
é tempo há muito tempo
de semear ilusões e colher pelouros

os moliceiros são o colorido da ria
onde negros corvos
fazem falsas promessas colhem votos
cargos futuros euros

os cisnes da ria livres e belos
nunca serão património nacional
sequer da humanidade nunca

os cisnes da ria são moliceiros inteiros
homens e barcos fundidos
na herança na tradição e no sonho

os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
ignoram o cinismo são emblema

(regata de moliceiros; s. paio; torreira; 2017)

os moliceiros têm vela (569)


oração

senhora aqui estou
a pedir por ele pela família
pela empresa a imobiliária que não é

vêdes senhora que televisões
trouxe para que se saiba
do meu sacrifício da minha fé
da nossa crença ancestral

faz tudo por nós pela família
perdoai-lhe se mente
o descaramento o biquinho
as pernas arqueadas de caubói

perdoai-lhe se deixa a palavra
em casa pendurada no cabide
não é por mal senhora é por nós
é pelos encargos pelas casas
pelos clientes pela boa vida

amanhã senhora aí onde me
esperais levo-vos uma oração
por ele que não seja treze
azar na roleta mas sorte na vida
no dia dezoito que domingo é

(moliceiro; murtosa; cais do bico; regata do emigrante; 2013)

os moliceiros têm vela (567)


da poesia

a poesia casa

o poeta dentro da casa
pensa-se diz-se é
o imaginado

a poesia janela

o poeta espreita o mundo
pela janela e retira-se
para dentro da casa
escreve respirou ar livre

a poesia porta

o poeta sai de casa entra
no mundo pensa-o
escreve-o descreve-o
cidadão da palavra

a poesia epígrafe
ou será epitáfio

esconde o medo do poeta
sob a capa do outro
o consagrado o inquestionável
teme pelo poeta

(moliceiros; s. paio; torreira; 2012)