postais da ria (201)


não há futuro na ria

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maria josé moreirinhas, na sua tese de mestrado “SOLIDARIEDADE E SOBREVIVÊNCIA NA RIA DE AVEIRO” – editada em 1998, com patrocínio da câmara municipal da murtosa – escreve na página 167 “ Em 1994, na Torreira, apenas apareceu um intermediário (para a compra de ameijoa e berbigão; o resto do pescado é vendido em Pardelhas) que, como único comprador estabeleceu o preço que lhe convinha” ……

estamos em 2017

a praça de pardelhas já não existe, os intermediários agora são 2 e compram tudo: berbigão, ameijoa, choco, linguado, lampreia …. são eles que estabelecem os preços e, no caso do berbigão, definem ainda as quantidades e os dias da compra.

acabou-se a capacidade de os pescadores venderem num mercado concorrencial, com todas as consequências que dai resultam para os seus rendimentos. mais ainda, existem contratos “de fidelização” com os intermediários, com aplicação de “multa” em caso de venda a terceiros.

de todos os pescadores da torreira, dos dedos de uma mão sobram muitos depois de contarmos os que não têm contrato com um intermediário.

não escrevo, nem digo mais nada. quem lê que tire as suas conclusões.

a ria, o rio, a laguna, como lhe queiram chamar, tem uma saída para o mar, os pescadores da torreira também. aos mais novos resta-lhes ainda emigrar ou, com alguma sorte, arranjar emprego na pouca indústria que na zona existe.

não há futuro na ria

nota: para quem se interessar pela vida dos pescadores da torreira aconselho a leitura do livro com que abro esta crónica

a beleza do sal (10)


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caminhos de sal

falas de amor
1.

amigo, tenho 75 anos, a minha mulher faleceu há quase um ano. se quisesse já tinha mulher em casa. não sou maricas. fomos casados 53 anos e não consigo ver outra a tocar nas coisas dela.

2.

vinte anos é muito. agora é que estou bem: paz, amor

 
(registo: morraceira; setembro; 2016)

postais da ria (198)


notas de um retirante

o associativismo dos pescadores no concelho da murtosa

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o fernando bastos a cirandar, na bateira a esposa, vivelinda bastos

no livro “Breve História do Concelho da Murtosa” da autoria de Marco Pereira, houve o cuidado de fazer o levantamento do movimento associativo do concelho, listando por tipologia as diferentes associações existentes ou que tiveram existência. no que respeita a associações de natureza económica, não encontramos nenhuma referente ao sector das pescas.

de acordo com documentação que enviei ao autor foi, no entanto, fundada em 1921 a “A Associação de Classe dos Marítimos da Murtosa”, de que, entre outros, foi sócio fundador o meu bisavô Domingos José Cravo.

segundo documento da “Secção Administrativa e Policial de Estarreja” de 1937, informa-se o Governo Civil de Aveiro “que não há elementos que possam esclarecer como e quando acabaram as Associações dos “Marítimos da Murtosa” e …..”.

ou seja, foi sol de pouca dura.

seria interessante, em estudos futuros abordar o associativismo dos pescadores do concelho.

dou como exemplo o que se passa na torreira, onde se concentra a maior comunidade piscatória : os pescadores são representados, na sua maioria, por uma associação com sede em viana do castelo e por uma outra associação com sede em aveiro. a concessão da docapesca da torreira, foi ganha pela associação de aveiro.

se considerarmos que os pescadores descontam 1% para a associação que os representa e mais 1% para o concessionário da docapesca, talvez cheguemos a números interessantes.

tentei sabê-los mas …. até hoje nada.

porque é que o associativismo local não vinga entre os pescadores do concelho e vão buscá-lo fora?

mais que uma pergunta, fica um desafio para quem se dedica ao estudo das comunidades piscatórias.
(cirandar berbigão)

postais da ria (196)


notas de um retirante

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joão manuel brandão e a cabrita alta

Como Deus não pode alterar o passado, é obrigado a depender dos historiadores para o fazerem

Afonso Cruz, em “MIL ANOS DE ESQUECIMENTO”
………………

vivografia e bibliografia

não, não há troca de bb por vv, são duas formas de descrever os dias.

na “vivografia” recolhem-se testemunhos, vivem-se os dias de quem ou daquilo sobre que se quer escrever. usam-se fontes “directas”.

consultando bibliotecas, textos escritos por outros, apresenta-se no fim do escrito a “bibliografia”. usam-se “fontes indirectas”.

o escrito passará mais tarde a bibliografia de outros, passará a ser fonte e …. se a fonte não reflectir o real?

exemplo:

bibliografia: “ A par da apanha legal de bivalves tem-se desenvolvido nos últimos anos a apanha ilegal dos mesmos, sem licença, potenciada pelas suas periódicas interdições por razões de saúde pública

(escrito em 2016, já é passado em 2017)

vivografia: conhecendo a realidade da ria, podemos dizer o seguinte:

em 2012 e até 2014, houve uma proliferação extraordinária de ameijoa japónica na ria de aveiro. período que coincidiu com a crise. nestes anos um número anormalmente grande de ilegais invadiram a ria, a pé, mas a colheita foi perfeitamente marginal e sem significado, face à captura feita pelos pescadores profissionais e legalizados. em 2015 a japónica quase desapareceu.

a apanha em períodos de interdição, embora exista, continua a ser marginal, nos circuitos de apanha e comercialização.

o que é ilegal há muitos anos e, aí sim, temos valores significativos, é apanha de bivalves com artes ilegais.

não digo mais nada, porque toda a gente sabe do que falo ….. toda a gente que conhece a ria, digo eu.

por vezes, mais vale não dizer nada do que “querer tapar o sol com a peneira”.

(cabrita alta – arte legal; 2012)

postais da ria (195)


notas de um retirante

enguias, onde?

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a receita “caldeirada de enguias à murtoseira”, tem imagem de marca e é única.

a receita, entenda-se.

agora fica a pergunta: ainda há enguias na ria? ainda há quem possa fazer vida da apanha de enguias? as enguais ainda são uma riqueza da ria?

em tempos de haver moliço e a ria ser a de eu me lembrar, apanhava-se enguia à certela, à fisga, ao candeio, à chincha, com galrichos ……

apanhava-se porque havia. e agora?

a companha do manel trabalhito, pai, apanhava-as à chincha de pareja, o filho continuou, não sei se ainda continua. o henrique “orelhas” continua com a chincha de pareja. na torreira são os que conheço.

haverá talvez 2 pescadores, poucos mais, que apanham algumas enguias com galrichos, mas com bateiras atracadas no lado da serra: bestida, murtosa, bunheiro ……

as enguias que se comem no concelho e nos festivais gastronómicos; as que a comur conserva e vende; as que a maior parte dos restaurantes serve…. todas essas, de onde vêm?

há enguias na ria? há, sim senhor. mas há quantos anos não chegam para as encomendas?

neste galricho vão 2, nos galrichos todos foram para aí 3 ou 4 – em 2012, com o armando bastos (piço) e o emanuel (rico).

não adianta esconder o sol com a peneira. fazem-se boas caldeiradas nos restaurantes do concelho da murtosa, mas em quantos se comem enguias da ria e quantas vezes?

vale a pena procurar e perguntar e só depois escrever.

(2012)

os moliceiros têm vela (243)


notas de um retirante

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para que conste

em 1999 o mestre zé rito, que tinha o estaleiro ao lado de casa, construiu, a céu aberto num terreno em frente ao estaleiro, o moliceiro “zé rito”.

em 2016, o mestre zé rito construiu, a céu aberto num terreno ao lado do “museu estaleiro do monte branco”, o moliceiro “um sonho”.

evolução? continuidade? o que mudou para que tudo continuasse na mesma.

aqui fica o convite para visitarem o museu estaleiro e aprenderem vendo.

(construção do moliceiro “um sonho”; 2016)

os moliceiros têm vela (242)


notas de um retirante

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a realidade é mais surreal

em 2012 não houve regata da ria. o relato dos porquês, dos como e dos quem, está feito no meu blog, na publicação:

https://ahcravo.com/2012/07/15/ha-moliceiros-na-ria-em-protesto/

e outras, anteriores e posteriores. é uma questão de pesquisar.

a terminar o ano, mais umas dicas para a história dos moliceiros:

quando em 2012 a regata não se realizou, a entidade promotora era o “turismo de aveiro” e a organizadora a habitual “associação dos amigos da ria e do barco moliceiro”.

quando o turismo de aveiro soube pela imprensa qual o valor que estava em causa, terá dito que afinal até teria sido possível angariar esse montante. então quanto é que a organização tinha pedido?

em 2016 soube que, do montante atribuído à regata, só cerca de 50% chega aos moliceiros…. mais não digo

entre 2013 e 2015 a entidade organizadora foi a “associação náutica da torreira” que, por questões financeiras, acabou por não pagar a totalidade dos prémios devidos aos moliceiros

em 2016, tendo em conta o que aconteceu com os pagamentos de 2015, a organização passou para o rancho folclórico “camponeses da beira ria”.

os responsáveis pela organização foram mudando mas os prémios para os moliceiros mantiveram-se.

seria interessante estudar a repartição, em valor absoluto e percentagem, ao longo dos anos, das verbas atribuídas à “regata da ria”.

eu? eu não sei nada.

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há muito para desvendar, ainda

(ria de aveiro; 2012)