o carnaval é todos os dias


(a conversa transcrita não é um texto de ficção mas de fricção)
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ele
boa noite….. , ainda por aqui? anda tudo cego ou não aparece nada que a satisfaça? bom carnaval, na figueira tá bom tempo
(visita ao perfil dele que logo continua)
conhecendo Coimbra como conheci, olhando para as suas fotos, as suas qualificações e o seu curriculum, é deveras estranho que aqui venha e se mantenha. que diabo, fiz mestrado na praça, pós graduação em quase todas as faculdades – mais nas letras, naturalmente – doutorei-me no tropical e ganhei bolsa pós doc quando fiz o “noites longas”, fico espantado. na cidade dos doutores e de tanto macho latino de carteira bem fornida, educação e cultura acima da média – “à mão de semear”, como se soe dizer – e a ….. vem para o ……. ! o joaquim namorado talvez explicasse com o seu humor fino, mas eu só consigo dizer que você é um “case study” e coimbra um caso perdido. vá, saia, viaje e vai ver que mesmo ao lado de si está o man que lhe falta. inté
ela
Você não sabe o que diz!!
Com tanto cursos, certamente , não serei eu um “case study”…Um pouco de inteligência não seria mau…!
Além do mais, o facto de ter conta aqui , não significa que eu faça o mesmo que o senhor por aqui, nem sequer sabe se faço algo. Não me conhece, fez juízos…remeta-se à sua insignificância …
Acha que existem assim tantas pessoas com afinidades comigo, etc…?
Fique sabendo que não pretendo dinheiro e, se você é doutorado , eu também sou….grrrrrrrr
Quantas pessoas existem como eu? Nem 0,00001%….E, deixe-me em paz…farta de gente ignorante , estou eu!
Acha que pretendo engates, Gente imatura, destituída, bons vivants, barrigudos, bigodaças, carecas, feios, porcos , maus, casados, em relações, desonestos, mal educados,…gente vulgar,…a viver às custas alheias,…etc….. NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOO
E agora, diga-me onde estão esses homens disponíveis….São assim tantos??
Você vive noutro planeta! Trate-se…
Prefiro estar só que mal acompanhada ou ter que fazer o frete de aguentar um qualquer…NÃO preciso….Nunca dependi de ninguém, nem dependeria…E tb não pretendo que alguém dependa de mim…Quem quiser viver muito bem, como eu vivo, que faça por isso…
Ah…Não preciso de conselhos do que fazer com a minha vida ..
Há cada um!- !!!! Só mesmo em redes sociais…a retrete da Internet!! Que abomino!
Esteja descansado que penso sair disto muito brevemente …
É triste, muito triste. …nem alguém que deveria ter alguma educação , algum carácter, o tem!!!
ele
ufa! consegui 😎
ela
Quero lá saber do Carnaval ..
Não é divertimento que aprecie….demasiado vulgar ..excepto Veneza…
Vou até às Maldivas….

crónica de novembro no “Notícias de Aveiro”


As mesas dos cafés, a globalização e a crise das utopias

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No tempo em que vivemos, a que já alguém chamou “era da técnica”, a mesa do café saiu pela porta, pela janela, por onde pôde e estendeu-se pelo mundo. Globalizou-se. As conversas alargaram-se aos cinco continentes, passeiam pelas ruas de todos os países, a distância morreu nos braços do WWW e tudo pode ser aqui e agora.

As redes sociais não são mais que a mesa do café globalizada. Quem o não entender hoje, terá dificuldade em estar no amanhã.

Veja-se a recente eleição de Bolsonaro como Presidente do Brasil e de Trump nos Estados Unidos, e as polémicas que geraram. No entanto, Obama foi dos primeiros a utilizar as redes sociais numa campanha eleitoral, que venceu, embora sem quaisquer polémicas.

Assim sendo o que é que as separa? Se o meio é o mesmo, a polémica só pode ser gerada pelos conteúdos, não na exposição das opções políticas, essas claramente diversas, mas por um qualquer outro motivo. Em relação à eleição de Bolsonaro soubemos pelas televisões, e pelas redes sociais também, que tinha difundido a notícias falsas sobre os seus adversários – note-se que na moderna linguagem da comunicação, mentira e falsidade são “inverdades”.

Será que isso só acontece nas redes sociais? E nos meios de comunicação tradicionais? Argumentarão os defensores destes que sendo os seus profissionais jornalistas, obedecem a regras deontológicas e de credibilidade que as redes sociais não contemplam. Seria verdade se não estivéssemos atentos às “notícias” que nos são servidas a toda a hora. “Notícias” que constroem redes sociais nas velhas mesas de café, gerando conversas que se debruçam sobre o “estado a que isto chegou !”.

As redes sociais são o inimigo número um da verdade na informação? Claro que não.Tal como não se pode dizer que os automóveis são o maior inimigo do homem, apesar dos últimos dados sobre os mortos causados por acidentes com automóveis.

A internet veio pôr à disposição do homem novas formas de comunicação, não criou um homem novo. Vivemos num tempo em que a crise das utopias se faz sentir ao nível dos valores e da ética: vale tudo desde que eu ganhe! O “nós” é um eu sem vergonha.

“Caro leitor” , sejamos claros e directos, vivemos numa sociedade onde o dinheiro comanda a vida – “… hoje tudo é mercado” escreveu Rosa Montero. António Gedeão neste momento, onde quer que esteja, só tem pesadelos.

Sei que escrevo esta crónica num jornal local digital, e o que escrevo aqui também o faço nas redes sociais, não é criado no silêncio dos corredores, numa fábrica das inverdades ou à mesa onde come a alta finança e tudo se planeia. Escrevo-o aqui e …. se já piquei de algum modo a sua curiosidade ou lhe abri uma janela para espreitar de outra forma a realidade que lhe servem em directo, já foi bom.

Até breve, aqui ou numa qualquer rede social perto de si.

(nota esta crónica surge na continuação da anterior e encerra-a)

link para a notícia

https://www.noticiasdeaveiro.pt/as-mesas-dos-cafes-a-globalizacao-e-a-crise-das-utopias/

 

de espanto em espanto


desde que publiquei no meu blog o artigo sobre a notícia dada pelo jornal “Concelho da Murtosa”, no passado dia 23, a propósito do meu livro, têm-se sucedido, no blog, comentários estranhos, primeiro por “maria murtosa”, depois por “augusto vinheirão”, ambos feitos a partir do mesmo computador ou do mesmo local. agora chegou a vez do vice-presidente da câmara municipal da murtosa, na publicação de dia 5 de outubro que, por mera curiosidade, é ilustrada com uma foto da praia de mira.

transcrevo o comentário feito no blog, não porque me cause qualquer mossa, mas porque mostra bem o nível de quem o produz, ao mesmo tempo que demonstra ignorar, tal como o jornal já citado, a minha forma de estar.

O meu gosto pela fotografia, leva-me a tê-lo na maior conta. Para que possa ter aceitação no meio Murtoseiro, devia deixar de ser o Vasco Pulido Valente do ramo da fotografia e da poesia; ou seja, no seu íntimo, só o Senhor é que sabe fotografar e mais ninguém na terra marinhôa devia fazer fotografia.

De resto, as portas da Galeria Municipal, estão abertas e no aniversário da freguesia da Torreira e do Concelho da Murtosa, está convidado a expor o seu trabalho.

assinado : Januário Cunha, email : januario.cunha@cm-murtosa.pt 

januário

ao utilizar o endereço de email da câmara municipal, deixou de comentar como particular, para o passar a fazer a nível oficial – lembram-se do tempo das cartas? uma carta particular era enviada em envelope normal, uma carta oficial em envelope timbrado da instituição. no email é o mesmo. por outro lado o último parágrafo do comentário só pode ser escrito por alguém com lugar no executivo.

em tudo o que escreve o senhor vice-presidente da câmara municipal da murtosa, a única coisa que ressalta como pura falsidade para quem me conhece é “…. no seu íntimo, só o Senhor é que sabe fotografar e mais ninguém na terra marinhôa devia fazer fotografia.”. não fora esta afirmação e nem resposta lhe daria. mas há limites para o silêncio.

e jorge bacelar, campeão do mundo de fotografia, e tantos dos sócios da associação de fotografia e artes visuais da murtosa (afavm) de que o sr. vice-presidente é sócio, e os não associados? fotógrafos de méritos reconhecidos e cujo trabalho respeito, porque conheço, e não me parece que possam estar de acordo com esta afirmação.

e os fotógrafos que tenho trazido à murtosa e torreira, para fotografarem a ria e a xávega, e aos quais tenho mostrado locais e explicado os métodos que utilizei durante anos para registar as belezas da nossa terra? acaso o sr. vice-presidente participou no workshop com o título “ fotografar a arte-xávega” promovido pela afavm e por mim orientado, onde comecei por dizer que não ia falar de fotografia, já que havia na assistência bem melhores fotógrafos do que eu, mas sim falar de xávega?

os que conhecem o meu trabalho, portugueses e estrangeiros, e me conhecem pessoalmente, sabem que o seu comentário não faz sentido, do princípio ao fim, mas isso não é problema meu.

lamento, meu caro, mas não lhe reconheço artes que lhe permitam ver o que vai no meu íntimo e por isso o deixo divagar devagar.

 

as pérolas-primas do primo ou as ppp’s do “Concelho da Murtosa”


( para melhor entendimento do texto primeiro ver o vídeo da apresentação do livro na torreira e depois ler a “notícia” digitalizada )

cm

in “Concellho da Murtosa” de 31 da agosto de 2018

………………….

as pérolas-primas do primo ou as ppp’s do “Concelho da Murtosa”

quando me disseram estranhei, quando contei estranharam também mas, quando li, entendi.

tinha sido notícia no “Diário de Aveiro” e no “Notícias de Aveiro”, tinha de ser também no jornal da terra e pronto, havia que escrever algo, mesmo não conhecendo o livro, mesmo não tendo estado na sessão de lançamento – o artigo não é assinado, logo é da responsabilidade ou autoria do editor. havia, no entanto, o vídeo e, deduzo, foi a partir daí que a “notícia” foi escrita.

agora vamos a ela.

comecemos pela foto, é a cores e retrata uma cena da recriação da xávega em 2013, na torreira – a foto não é minha, o livro é a preto e branco e o seu conteúdo muito anterior.

“A memória de um povo faz-se pela cara das gentes” – sublinhado meu –, assim se intitula a “notícia”, deve de ter sido escrito depois de uma ida ao festival do bacalhau em ílhavo.

o título do meu livro é em minúsculas – todo o livro é em minúsculas, toda minha escrita é em minúsculas – e mal começa uma notícia quando a primeira letra é um erro, nesta porém a seguir há de tudo – erros de português, erros de impressão, falhas de revisão, citações mal feitas, corte e cola sem critério. apetece dizer que se alguém quiser aprender “como não fazer” pode começar por aqui.

alguns exemplos: “valeu apena”, em vez de “valeu a pena”, “meio bisavô” em vez de “meu bisavô”, “domingos josé cravo (gorim)” passa a “Domingos José Cravo”. se me citam usem, pelo menos, o meu modo de escrever. os textos entre aspas na “notícia”, citações do livro, não sabem o que é o respeito.

quanto aos delírios que vão surgindo, talvez por problemas de audição, organização interna ou o velho “tenho de despachar isto”, desafiam a criatividade de alguns dos melhores humoristas do nosso país. apesar de anexar a “notícia” na íntegra, não quero deixar de reproduzir alguns nacos que mais me fizeram rir e que resultam de colagens feitas pelo autor da “notícia”:

“ … as fotos de 1972, nunca saíram da Murtosa, foram todas feitas aqui, vieram da Murtosa.”

“ … fui somando memórias e fui e consegui a minha maior realização….”

“ … é o que eu deixo à Torreira, foi feito em França, fiz questão que isto ficasse bem, em França…”

enfim…. há mais mas eu gosto muito destes.

há, porém, o início de um parágrafo em que perco a vontade de rir porque, e agora cito o autor da “notícia”, se pode ler “ Um livro a três tempos, só tem piada se as fotos forem vistas com as palavras ao lado…”. poupem-me, há piada no livro? só para alguém que quer gozar comigo ou com aqueles que fotografei ou com os familiares dos retratados falecidos – mais de 40.

penso que o “Concelho da Murtosa” terá um revisor de textos. será que estava de férias? será que não quis rever este? ou será que reviu mesmo e quis deixar assim? qualquer das hipóteses não o deixa ficar bem.

peço a todos que leiam, ou releiam, o artigo que reproduzo. aos que estiveram presentes na sessão de lançamento na torreira que comparem com o que ouviram e aos que compraram o livro, e já foram muitos, que vejam se esta “notícia” tem alguma coisa a ver com o livro que compraram.

os moliceiros têm vela (323)


maria emília

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professora, natural da região de aveiro (sul), comprou em leilão, no ano de 2015, o moliceiro “S. Salvador”.

no painel da proa, estibordo, a pintura de um moliceiro e a legenda “EU SOU FELIZ AQUI”.

segundo me disse, comprou o moliceiro para passear com a família e os amigos, mas tem participado em todas as regatas desde que o comprou.

e participa como camarada.

em frente ao estaleiro do mestre zé rito, na torreira, apodrece o moliceiro do falecido manuel valas. não haverá nenhum orgulhoso de ter nascido na “pátria do moliceiro” que passe das palavras aos actos e o ponha navegar?

murtoseiros, olhem para o exemplo da maria emília.

regata do bico 2018

(participação e posição à chegada até ao 5º – classe A)

1 – A. Rendeiro
2 – Marco Silva
3 – Zé Rito
4 – Ferreira Nunes
5 – Um sonho
O Amador
Dos Netos
S. Salvador
CM Murtosa
Inobador

(penso não ter aqui qualquer falha mas, se a houver, venham ajudas que correcções farei)

(murtosa; regata do bico; 2018)

os moliceiros têm vela (322)


abílio fonseca (carteirista)

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o ti abílio já passou os 80 e ainda cá anda a velejar e a ser o exemplo acabado daquilo a que alguns chamam a “brejeirice da beira-ria” – e que tanto tem sido representada nos painéis dos moliceiros.

passem umas horas com o ti abílio e verão como todos os painéis brejeiros podem ser de carne e osso.

nascido e criado na gafanha baixa, na murtosa, cresceu no moliço, foi para a marinha, emigrou, regressou e continua.

é dono do moliceiro “Dos Netos”, o único que não foi construído na zona norte da ria, mas pelo mestre gadelhas, de seixo de mira.

a boa disposição toma-a ao pequeno almoço e adormece com ela.

tratamo-nos por tu e eu tenho por ele amizade e respeito.

guardo, emolduradas, as medalhas que me ofereceu nas regatas da ria e do s. paio, em 2016.

amanhã, dia 5 de agosto, se tudo correr como planeado, lá estaremos na provocação brejeira, tão nossa, tão da beira-ria.

(torreira; regata da ria; 2013)

crónica do mês de julho no “Notícias de Aveiro”


1

Labrega : autor Artur Pastor, Série “Portugal Litoral” Setúbal anos 40/60

As viagens da Labrega

Mão amiga deu-me conhecimento da abertura no dia 17 de Julho, em Setúbal, de uma exposição do fotógrafo Artur Pastor, organizada pelo filho, Artur Costa Pastor, e enviou-me uma foto constante da exposição: a de uma Labrega Murtoseira que encima esta crónica.

Estava aberto o caminho para a crónica. “Uma labrega em Setúbal!”, comentou outro amigo. Tinha de escrever a crónica. Recorrendo à minha biblioteca, a memórias familiares e ao universo virtual, sem quaisquer pretensões de escrever um “artigo”, ela aqui está .

Em primeiro lugar, como e quando terá chegado a Labrega a Setúbal? Da mesma forma, pelos mesmos motivos e no mesmo tempo que a Ílhava, tal como é descrito por Senos da Fonseca em “Embarcações que tiveram berço na laguna” – migração pela costa, crise na economia piscatória, e não só, durante o século XVIII na ria de Aveiro. Note-se que na ilustração desta migração marítima da Ílhava, a imagem utilizada por Senos da Fonseca na página 82, é uma foto onde aparece uma Labrega Murtoseira e não uma Ílhava.

2

Labrega – do livro “Embarcações que tiveram berço na laguna- Senos da Fonseca

 

No Tejo deixou a Labrega memória nas bateiras avieiras, o que já referi, e é consensual, na minha crónica de Janeiro deste ano http://www.noticiasdeaveiro.pt/pt/46854/o-moliceiro-patrimonio-nacional-quando/.

3

Bateiras avieiras: “Ribatejo”, jornal online

Da memória da família consta a ida do meu bisavô Domingos José Cravo (gorim) para a Azambuja, durante a época do sável, estabelecendo-se com uma bateira num esteiro – conhecido à época por “esteiro do gorim” – vendendo mercearias e pão aos pescadores e vizinhos. Imagino o meu bisavô numa Labrega Murtoseira, só pode. Desta sua deslocação sazonal fica a notícia do jornal “Povo da Murtosa” de 23 de Julho de 1917, onde na rúbrica “Chegadas” se pode ler “ Da Azambuja, chegou á sua casa da Murtoza o nosso assinante sr. Domingos José Cravo…..”

Em “Achegas para uma História da Pesca em Portugal”o Capitão Bento Leite escreve a seguinte nota: “1819 – os pescadores de Alhandra, Alverca e Póvoa de Santa Iria queixaram-se dos varinos de Aveiro e Ovar que traziam redes de arrasto para o Tejo”. Labregas, Ílhavas, ambas?

O caso de Setúbal. Existem em Setúbal duas zonas povoadas por comunidades de pescadores migrantes: a poente as Fontaínhas e o Bairro Santos Nicolau – gente da região de Aveiro, murtoseiros predominantes nas Fontaínhas – e a poente o bairro de Tróino – migrantes vindos do Algarve.

 

Da actividade e dimensão da população de pescadores da Murtosa em Setúbal, fica-se com uma noção através da notícia publicada no “Povo da Murtosa” de 1 de Dezembro de 1913, com o título: “Pescadores em Setúbal”, onde se pode ler “Sob a denominação de Associação da Classe dos Pescadores da Murtoza em Setúbal, vem de fundar-se naquela cidade … uma associação de classe com o fim de defender os interesses dos pescadores nossos patrícios ali residentes”.

Os pescadores das Fontaínhas e do Bairro Santos Nicolau tinham os seus barcos na Doca Comercial, vulgarmente conhecida por “Doca das Fontaínhas”, os pescadores de Tróino na Doca de Pesca, a poente, junto à lota.

Analisando fotografias da mesma época, das duas docas, que insiro nesta crónica, verifica-se que na doca das Fontaínhas se podem ver muitas Labregas murtoseiras e na doca de pesca muitas Barcas algarvias. Ou seja, o povoamento terrestre reflecte-se no “povoamento marítimo”, a cada comunidade o seu tipo de barco.

4

Doca de pesca de Setúbal: autor Artur Pastor . Série “Portugal Litoral” Setúbal anos 40/60

5

Doca das Fontaínhas: do livro “Setúbal D’Outros Tempos” – Américo Ribeiro

Muito poderão os estudiosos vir a publicar sobre este tema. Infelizmente não conheço obra publicada e aprofundada que possa citar, quer sobre a Labrega Murtoseira, quer sobre o “povoamento marítimo” das duas docas de Setúbal – só memórias fotográficas insertas em livros genéricos. Acontece que nem no citado livro de Senos da Fonseca, nem em “Bateiras da Ria de Aveiro” de António Marques da Silva e Ana Maria Lopes, se encontram referências à Labrega. Terá isto a ver com outra forma de povoamento na ria de Aveiro? O da produção e publicação de estudos sobre o património náutico da região: a sul Ílhavo e a norte Ovar. A pobre da Labrega é património da Murtosa onde reside também o icónico Moliceiro que a “abafou” em termos de estudo, até no pouco publicado por murtoseiros.

Existe uma tese de mestrado, para a qual dei modestas achegas iniciais, que se debruçou sobre a Labrega já lá vão alguns anos, mas que nunca vi em formato legível, para poder dela retirar quaisquer ilacções.

Apesar da designação “labrega” assumir hoje em dia a forma de adjectivo depreciativo, ela foi e é um substantivo com uma carga histórica muito forte, ferramenta de trabalho que deu de comer a muita gente. Falta que lhe seja dado o devido relevo pelos estudiosos produtores de obra publicada.

Até lá ficam estas notas e as fotos que as ilustram. Na próxima crónica voltarei à Labrega, porque o difícil é começar.

(os meus agradecimentos a Artur Costa Pastor pela autorização de utilização, nesta crónica, de fotos de seu pai, Artur Pastor)