crónica no jornal “Notícias de Aveiro”


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Mais grave, não é atribuírem ao arrais Ançã o salvamento do Nathalie, grave é que para o fazerem ignoram completamente os pescadores da Torreira, eles sim os verdadeiros salvadores – e aí temos documentos que suportam a sua presença e coragem.”
O NAUFRÁGIO DO NATHALIE E O ARRAIS ANÇÃ (QUE NÃO ESTEVE LÁ) II
 
Em Dezembro de 2017, já lá vão dois anos, iniciei uma colaboração, com artigos de opinião, que se prolongaria por 13 meses. O primeiro artigo que publiquei tinha o mesmo título deste em que retomo o tema porque, se então demonstrei, e não houve contraditório expresso, que não havia qualquer evidência documental da participação do arrais Ançã no salvamento do Nathalie, fiquei sempre com uma questão em aberto:
 
Como teria começado esta estória que muitos transformaram em “história” com estórias?
 
A resposta encontrei-a num documento que já tinha consultado, mas não na totalidade – pesquisa em documentos físicos começa no seu início, em documentos encontrados pelo dr. Google leva-nos para onde ele nos indicou e, nem sempre, os lemos a totalidade. Foi um alerta com que fiquei.
 
Espero que com a crónica de hoje o caso fique esclarecido e que, se assim não fôr, venham os defensores com documentos coevos e demonstrem o contrário. Infelizmente estou habituado ao silêncio dos que não concordam com o que escrevo, mas também não têm argumentos que suportam a sua discordância.
 
Em resumo, e usando um ditado popular, “quem cala consente”…. era bom era, deixam que o tempo passe e, sem rebaterem teses com argumentos, lá vêm com as suas teorias.
 
Feita esta breve introdução entremos naquilo que importa: o início da “lenda”
 
 
Da história à “estória” vai uma proposta de lei
 
O documento que está na base da atribuição ao arrais Ançã do estatuto de “salvador do Nathalie “ é a Proposta de Lei nº 737-E, do Ministério da Marinha, apresentada à Câmara dos Deputados em 02 de Agosto de 1922
 
 
A proposta visava a atribuição de uma pensão de 100$ mensais, ao arrais Gabriel Ançã e foi aprovada.
 
Interessante a introdução à Proposta:
 
….. Desejava o Ministério da Marinha trazer ao conhecimento dos representantes da nação a longa lista dos actos de abnegação praticados por este benemérito da humanidade e para tal fim tinha encarregado a Capitania do Porto de Aveiro de colher os necessários elementos junto do próprio Ançã, visto que, não sendo funcionário público, a resenha dos salvamentos por ele efectuados, em barco ou a nado, não consta, na sua maior parte, no registo das estações oficiais.
 
Baldado intento, porque tendo o velho pescador considerado como simples incidentes da sua vida, e sem importância muitos desses salvamentos e ainda porque se lhe obliterou a sua lembrança, não pôde relatá-los tendo aquela capitania procedido à consulta de documentos e informações para poder apontar os seguintes factos: …..
 
Seguem-se as intervenções do arrais Ançã em diversos naufrágios, entre os quais se refere o naufrágio do Nathalie, nos seguintes termos
 
Em 1880 encalhou ao sul da Praia da Torreira, com cerração e mau tempo, o vapor francês Nathalie, começando logo a ser demolido pelo mar, tendo-se refugiado a tripulação, e alguns passageiros, nos mastros.
 
Tendo-se organizado um serviço de salvação com os recursos locais, foi Gabriel Ançã arrais do barco, que, depois de ter atravessado mais de 200 metros de perigosíssima rebentação, conseguiu recolher dezoito náufragos, entre estes uma senhora que numa violenta crise nervosa se lhe prendeu ao pescoço, obrigando-o a dirigir a manobra nesta crítica situação …..
 
E aqui começa a estória do “arrais Ançã salvador do Nathalie”. Quem consultar este documento, ainda por cima Proposta de Lei do Ministério da Marinha, e não for mais além, tem a consagração do salvador, com detalhes muito interessantes – então o da senhora francesa é excelente.
 
Apetece dizer, como na canção, que “afinal havia outro”. repito: o jornalista do Campeão das Províncias não escreveu que o arrais Ançã era o arrais do barco – coisa estranha numa notícia tão minuciosa. O Diário do Governo que identifica e distingue os salvadores do Nathalie, não refere o arrais Ançã, sequer para dizer que estando presente e sido o arrais do barco, lhe era destinada outra distinção noutro diploma.
 
Note-se, no entanto, que no preâmbulo da Proposta do Ministério da Marinha se pode ler: “ não sendo funcionário público, a resenha dos salvamentos por ele efectuados, em barco ou a nado, não consta, na sua maior parte, no registo das estações oficiais”. Logo não há registos oficiais de todos os salvamentos, pelo que as fontes de informação complementares, a que a Capitania do Porto de Aveiro poderá ter recorrido, serão a imprensa local ou depoimentos orais.
 
Entende-se agora porque motivo o Ministério da Marinha refere o arrais Ançã como salvador do Nathalie – há uma lei que o consagrou – e porque é que não há registos no Arquivo da Marinha de qualquer intervenção do arrais Ançã no mesmo naufrágio. Azar, mas este foi um dos registos que não foi feito porque ele não era “ funcionário público”, dirão os defensores da tese da sua participação no salvamento, que não encontram qualquer registo oficial que o confirme -, enquanto outros, como eu, dirão: não há no Arquivo da Marinha, mas também não há nos documentos/relatos à data produzidos – reportagem e Diário do Governo.
 
No caso do Nathalie as únicas fontes escritas conhecidas são a reportagem do Campeão das Províncias e o diploma do Governo de atribuição de medalhas de mérito aos cinquenta e um pescadores da Torreira. em nenhum se fala do arrais Ançã.
 
Mas, mais grave, não é atribuírem ao arrais Ançã o salvamento do Nathalie, grave é que para o fazerem ignoram completamente os pescadores da Torreira, eles sim os verdadeiros salvadores – e aí temos documentos que suportam a sua presença e coragem.
 
Em conclusão, a Capitania num acto, penso eu, de boa vontade, para dar maior força ao pedido de atribuição de pensão ao valoroso arrais Ançã, acrescentou, não sabemos como, o salvamento do Nathalie aos salvamentos feitos pelo arrais Ançã. Começa assim a “estória” do salvador do Nathalie ter sido o arrais Ançã.
 
Numa geração, como a minha, a quem ensinaram, na escola primária, que tinha existido uma “Escola de Sagres”, de que hoje ninguém fala e os que falam sabem que nunca existiu, há dois tipos de atitude face à informação: a confiança nas fontes ou a dúvida e pesquisa sistemática, ou ainda a aceitação passiva do que se escreve, ou vai escrevendo.
 
Tenho o maior respeito pelos homens e mulheres dedicados à escrita da chamada “história local” ou “pequena história”, e ao contributo fundamental que dão para o entendimento e conhecimento de factos a que os historiadores diplomados raramente se dedicam, mas lamento que quando vão para além do que conhecem, e alguns com formação de base em ciências exactas, romanceiem de tal forma os factos, que em vez de serem fornecedores de informação se transformem em incrementadores da confusão.
Certamente que, lá onde está, o arrais Gabriel Ançã muito se ri, e continuará a rir, quando lê certos documentos e, provavelmente pensará: estão-se a afogar e agora é que não os posso salvar.
 

crónicas da xávega (322)


escrever com os olhos
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leirosa; carregar o saco; 2019

para mim, chegou ao fim mais uma época de fotografia daquilo de que efectivamente gosto. também eu tive a minha safra: o semear artesanal do arroz no baixo mondego, a ria de aveiro, com as bateiras e os moliceiros, a xávega em lavos e na leirosa, o sal na morraceira e nos armazéns de lavos.
ficam muitos registos guardados no armazém, em bruto e por trabalhar, que até à próxima época aqui estarão a dizer o como foi, a serem a memória dos dias dos homens, das mulheres e das fainas que registei.
mais que palavras é a escrita dos olhos que vou por aí deixando, sem pretensões de arte, nem de “bonitos”, mas procurando registar as fainas na sua forma mais pura: sem encenação
obrigado a todos os que registei e que, de forma efémera, oferto aos olhos de quem passa.

a beleza do sal (67)


acabou a safra de 2019
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ilha da morraceira; tirar; 12/10/2019

 
a safra de 2019 chegou ao fim, foi feita a última redura, tira-se o sal e arruma-se no armazém.
 
as alterações climáticas há dois anos que se fazem sentir com maior intensidade na produção do salgado da figueira da foz – falo do que conheço, não sei como correu nos restantes salgados do país -, não conhecendo números, nem é essa a minha intenção, mas pelo acompanhamento, mais contínuo e cuidado, que faço desde 2016 do trabalho dos marronteiros, tenho a sensação de que “a coisa não correu muito bem”.
 
este registo,sendo dos últimos do ano, é um convite aos amigos fotógrafos para um olhar diferente, que espero ter conseguido e de que gosto muito – o carlos santinho, pelo menos, gostou do que viu no lcd.
 
os moliceiros têm vela (368)

os moliceiros têm vela (368)


uma imagem vale mais que mil palavras ?
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aveiro; ti zé rebeço e abílio carteirista; julho; 2019

 
(porque gosto muito deste registo, não o queria perder, nem que fosse mal interpretado, por isso sobre ele umas palavras breves)
 
uma imagem é só isso, livre de a interpretar fica quem a lê; palavras fossem e o mesmo poderia escrever.
 
neste caso, a leitura mais imediata das expressões será a da existência de uma controvérsia acesa entre os intervenientes. nada mais errado.
 
o que a imagem retrata – porque não encenada – são as posturas mais usuais de cada um dos intervenientes: o indicador da mão direita esticado (típico no ti abílio) e as mãos abertas (tão comum no ti zé rebeço).
 
a conversa foi acesa, sim, mas a três – o homem da máquina, eu, também entrou nela – e o acordo foi constante, falámos de moliceiros e das regatas.
 
a expressão gestual das opiniões ficou registada na imagem, não o seu sentido. por isso estas palavras que, não sendo mil, resgatam, de qualquer interpretação quase óbvia e errónea, o que de facto se passava: tão só conversa de amigos.
 
os moliceiros têm vela (365)

os moliceiros têm vela (365)


josé rendeiro (rebeço) e abílio fonseca (carteirista)
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à esquerda ti zé e à direita o ti abílio ( aveiro; regata da ria; 2019)

 
os dois a rondar os 80 anos, o ti abílio com mais alguns e o ti zé quase por lá, são os resistentes de um tempo que hoje se revê nos moliceiros.
 
sem homens não há barcos, e estes homens estão quase a passar o testemunho, a idade é mais forte que a teimosia e o amor que os liga à ria e aos moliceiros.
 
há muitos anos que tenho por eles admiração, respeito e amizade.
 
queria deixar aqui o meu abraço a ambos e o desejo de que quem direito lhes reconheça o valor e o amor que sempre dedicaram ao emblema da terra: o moliceiro.
 
bem haja ti abílio, bem haja ti zé. se a ria tivesse ruas ou praças, certamente que duas teriam o vosso nome.

“Algarve” de artur pastor – a estória do meu exemplar


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em 1965 artur pastor publicou o livro “Algarve”, em edição bilingue, fotografia e monografia do autor.

o ano passado, depois de muito procurar e não encontrar, falei com o filho, artur costa pastor, meu amigo no face, que me disse ser possível encontrar algum exemplar no brasil, para onde tinham ido os exemplares não vendidos em portugal.

com esta informação, não tendo dinheiro suficiente para a viagem, nem passaporte, entro no site dos “sebos” brasileiros e descubro um exemplar em s. paulo. mas…. se o preço estava dentro das minhas possibilidades, os portes – o livro pesa cerca de 3 kg – eram outro tanto.

começa então a funcionar a rede de amigos das redes sociais – as malditas. lembrei-me de dois amigos : mauro mattos filho e eduardo mello. depois de falar com ambos cheguei à conclusão que o eduardo era o ideal. logo se prontificou a receber o livro e até se dava o caso de ter uma irmã que vinha periodicamente a portugal. em 2019 viria,

assim o livro que tinha ido de portugal para o brasil, foi de s. paulo para o rio de janeiro, para voltar a portugal.

entretanto bolsonaro é eleito, e uma amiga de eduardo mello resolve vir para portugal e trouxe o livro para o porto – mais uma amiga

sábado proporcionou-se uma ida ao porto e … recebi o livro das mãos do marido – outro amigo – talvez cerca de seis meses depois de ter chegado.

obrigado eduardo mello, obrigado amigos.

com ele debaixo do braço fui ter com o antero urbano à livraria alfarrabista “paraíso do livro” e pedi ao prof. eduardo – um dos proprietários – que abrisse o embrulho. perguntou-me porquê e eu respondi que logo veria.

o prof. eduardo é de famila algarvia, de olhão.

e o “Algarve” quando foi desembrulhado, de regresso a portugal, foi visto pela primeira vez por um algarvio. estava completo o ciclo.

agora está ao meu lado à espera de ser lido e relido, visto e revisto.

há estórias que apetece contar, mesmo se de repente, mesmo se mal amanhadas….