mãos (3)


(lembrando dois grandes mestres
fernando pessoa e josé gomes ferreira)
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querem
 
querem que eu tenha
o vosso tamanho
 
querem que desça
as escadas de mim
e fique na porta
de esperar sentado
 
estou aqui inteiro
com o tamanho de ser eu
não do sonho de mim
mas o de ser assim
 
queriam que eu tivesse
o vosso tamanho
 
deixem-me rir
 
(ao fundo um cantautor, senta-se ao piano e com a sua voz rouca inicia uma canção)
 
crónicas da xávega (299)

crónicas da xávega (299)


lavradores do mar
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abrem nas ondas regos
ao mar vão semear redes
sem saberem da colheita
 
chamam terra à areia
onde retornam espuma dorida
 
não lhes fales das serras
do silêncio do chilrear das aves
nunca o entenderão
 
são lavradores do mar
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(torreira; 2016)

crónicas da xávega (298)


ti henrique gamelas

ti henrique

trago no rosto
as memórias que o mar rasgou
fundas de haver história
linhas escritas com tinta de vento
e palavras de raiva
trago no rosto
a minha alma cansada de viver
estes olhos comidos pelo tempo
de tantas lágrimas sofridas
de tantas vidas vividas
trago no rosto
uma máscara que não podem
arrancar
trago no rosto
o mar
(torreira)

crónicas da xávega (297)


xávega, os rolos de corda

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o reçoeiro e a mão de barca são das duas cordas (cordadas) que fazem fixe no calão e através das quais se faz a alagem do aparelho.

cada uma destas “cordadas” é constituída pela união de “rolos de corda” ou “peças de corda” com 220 metros de comprimento.

o arrais marco, chega a utilizar 8 a 9 rolos num lanço, ou seja a rede é largada entre 1760m e 1980m da costa.

o enrolar dos rolos, no momento da alagem e a sua disposição correcta durante o aparelhar do barco, garantem um desenrolar sem problemas durante o “largar” do aparelho.

(torreira; companha do marco; 2010)

ti miguel bitaolra

crónicas da xávega (296)


a primeira flor
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
abrem-se no rosto trilhos
salgados de tanto mar
perdem-se no longe os olhos
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
falarei sempre do sonho
quando no infinito os olhos
inventarem um ser diferente
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
amanhã minha neta
que foste do meu sangue
a primeira mulher
não terás o rosto assim
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas são estes os rostos
que eu quero que lembres
e faças teus porque meus
deste ter sido aqui mais um
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas
hoje é o teu primeiro dia
e esta a flor que te ofereço
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(torreira; 2013)