postais da ria (404)


infinitas manhãs

cais do bico; murtosa
infinitas manhãs
de gestos suspensos
no vazio de não haver tecto

infinitas manhãs
de impiedosas mãos desfiguradas
num enclavinhar de dedos
na lisura das paredes

infinitas manhãs
de doridos olhos encovados na palidez do rosto
arrastando-se fundos pelo dia imposto

infinitas manhãs
porque não me deixais dormir

cais do bico; murtosa

os moliceiros têm vela (468)

os moliceiros têm vela (468)


a luz corta o silêncio

a luz corta o silêncio
uma vela poisada na memória
acende os dias por

iluminado tempo este
que o silêncio habita

o sol fere magoa sara
a luz quebra-se na ria

o moliceiro cresce no vento
é ave e voa 
é a luz que corta o silêncio

(regata do emigrante; cais do bico; 2008)

os moliceiros têm vela (438)


amanhã

murtosa; regata do bico; 2009
 amanhã pode ser um dia
 longe
 
 quisera ser barco ir  
 com o vento
 abraçar as nuvens
 
 amanhã pode ser um dia  
 longe
 
 saibas tu ser barco  
 mas navegar
 nunca foi arte fácil
 
 amanhã pode ser um dia  
 longe
 
 vida de marinheiro é dura
 grande o mar  
 amanhã vamos navegar 

 hoje

os moliceiros têm vela (431)


português emigrante

ti abílio; regata do bico; 2019
 
 partiram de bolsos vazios
 e o país no coração
 
 sonhavam uma vida melhor
 uma casa a velhice diversa
  
 foram dos primeiros e  
 voltaram
 e no voltarem foram
 os últimos
  
 filhos e netos semearam
 que outras raízes criaram
  
 mais que uma bandeira
 são um povo
 orgulhoso das suas origens
  
 é uma honra ter entre eles
 tantos amigos 

os moliceiros têm vela (429)


é tão fácil

murtosa; regata do emigrante; 2012
 venderás o peixe no mercado
 aos fregueses fiéis
 
 
 comprar-to-ão por comodidade
 hábito e cansaço
 
 
 às quintas montarás banca
 na feira venderás coisas várias
 
 
 outros caminharão à tua sombra
 serás o chefe não o líder
 
 
 nas terras piquenas é tão fácil
 parecer grande