postais da ria (305)

postais da ria (305)


o que é cravo?
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torreira; safar redes; porto de abrigo; 2013

não escrevo o teu nome
falo de ti
como se da ria do mar
memória de um tempo
 
agora que o retornar
se aproxima
são mais fortes os gestos
os silêncios
as bateiras
as cabritas as redes
a ausência
 
imagino-te aqui
onde estás sempre
sem nunca teres estado
mas és tantos quantas
as imagens de ti
 
não escrevo o teu nome
porque não o podes ouvir
para me responderes
como era costume
 
o que é cravo?

postais da ria (303)


outro eu
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todos os dias
perco memória
todos os dias
me reaprendo
 
palavra a palavra
recupero do silêncio
as memórias idas
 
e o ter esquecido
é um outro eu
o eu aqui agora
 
como se outra casa
outra porta
para outro mundo
 
(torreira; safar redes; 2018)

postais da ria (295)


como na anedota
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(torreira; porto de abrigo; 2018)

 
sei que existem
pelo ruído
não pela voz
que a não têm
 
não sabem o que são
sendo o que não sabem
papagaios nocturnos
enganados nas horas
 
voam baixo como
as galinhas
na ilusão de águias
pescadoras
 
deixo-os poisar
como na anedota
(torreira; porto de abrigo; 2018)

postais da ria (291)


tremo muito
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safam-se as redes para que se não safem os chocos

 
vêm devagar as palavras
cansadas de tanto
 
carregadas de memória
vergam-se
 
está frio cada dia mais
cubro-me com 
letras nomes sons
 
tremo
tremo muito
 
vão depressa as palavras
urge guardá-las
 
(torreira; 2018)