crónicas da xávega (371)


era uma vez o abraço

praia da leirosa; carregar a rede; 2019
 um simples gesto
 de quatro braços feito
 solidários amigos
  
 tocam-se cotovelos
 tão pouco para tanta fome
 a morrer nos olhos
  
 um abraço um abraço
 quantos por dar
 
 abraçamos a vida
 nunca um abraço  
 doeu tanto 

postais da ria (357)


sentar os amigos à mesa

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torreira; safar redes; 2019

 
sentar os amigos à mesa
da palavra
matar a fome de estórias
 
costume português este
o da mesa e nela nos juntarmos
para no repasto sermos
 
quantas mesas se vergaram
ao peso das ideias
 
ao longo da nossa história
quantas palavras
voaram por cima de toalhas
e foram alimento
 
sentar os amigos à mesa
apenas isso
viver para esse momento
 

postais da ria (355)


os amigos de

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torreira; jim; safar redes; 2019

 
sentava-me à mesa do café
lia poesia
 
os meus poetas à minha mesa
falavam-me
 
eu era jovem e o tempo imenso
 
sentava-me à mesa do café
sem urgências
 
as de agora com tanta fome
dos amigos de então
 

crónicas da xávega (342)


uma rede incerta

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torreira; 2012

 
morde por dentro
a incerteza dos dias
 
por sobre o vazio uma rede
muitas redes
alguns nós
tanto eu
 
morde por dentro
a incerteza dos dias
 
há ainda o mar e um
navio ao longe
ao longe
parte
 
nunca ser barco
foi tão urgente
 
por sobre o vazio
uma rede
incerta
 

crónicas da xávega (341)


sinto muito

 

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do sentir às palavras
que o dizem
os poetas
 
escrevo apenas
porque é outra forma
de estar comigo
 
sei que não me traio
sinto muito
as palavras dos outros
 
sinto muito
que sejam o que são