postais da ria (210)


da ignorância e da sabedoria

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o carlos arato safa as redes da solheira

há os que não sabem
e não sabem que não sabem

e os que não sabem
porque não querem saber

respeito tanto os primeiros
como desprezo os segundos

indiferente a estas palavras
o homem cumpre a sua tarefa diária
de subsistir onde cada dia
é mais difícil

olho tudo como se estivesse
sabendo que nunca mais
estarei como estive

essa é a minha sabedoria

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o carlos arato safa as redes da solheira

(torreira; 2016)

postais da ria (209)


o real no virtual

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amanhã
quando falarem de mim
ou me esquecerem
como é normal

que fiquem estas imagens
de um tempo
de uma gente
de um modo de vida

a minha memória
será então
não um nome
mas o que ficou
espalhado
nas redes sociais

num mundo virtual
onde o real resiste
sem fronteiras

(torreira; 2016)

postais da ria (208)


o grito por dentro

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como se nada
ninguém

o olhar embebeda-se
de tanto

homem e mulher
camaradas

homem e mulher
um barco
uma arte
a vida da ria

homem e mulher
quantas vezes
tão pouco
para tanto

o silêncio
é um barco sem gente

oiço o grito
mais ninguém?

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(torreira; o alar da solheira)

postais da ria (207)


porquê

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faz um dia do teu tamanho
depois deixa-o crescer
e vai com ele
ao encontro do sol

há aves poisadas na ria
são barcos com homens
velas ao vento braços abraços
vencidos cansaços
dos dias cinzentos baços

o que vai em último
vai também
e isso faz dele
um primeiro diverso
o que resiste

faço o dia com
o meu tamanho
encho-o com uma
única palavra

porquê

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(torreira; s. paio; 2014)

postais da ria (200)


sou gorim

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e as raízes cresceram para a ria
atravessaram as conchas vazias
traiçoeiro chão
foram ao encontro das origens primordiais

olhei os rostos parados
poisados nas lápides de mármore branco
escutei as vozes antigas
e todas me disseram
és daqui gorim

erguidos os braços
as mãos saudavam-me de dentro das bateiras
do meio da ria
sabiam-me
em voz alta digo os nomes
chamo-os
reconheço neles a minha gente

voltei para partir?
não sei
só sei que estarei sempre aqui
como os que já cá não estão

os gorim

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(torreira; 11 de fev de 2017)

na bateira o henrique gamelas ciranda a parca apanha de berbigão. a vida não está fácil na ria