postais da ria (289)


gente da ria
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conheço-lhes os gestos
por vezes os nomes
 
são muitos anos
ou
foram muitos anos
 
conheço-lhes os gestos
por vezes os nomes
adivinho famílias
 
artes de pesca
artistas alguns
no engano de
 
nas malhas dos dias
muitos ficaram aqui
não presos guardados
 
(torreira; safar redes; 2016)

postais da ria (288)


sopa de letras
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cirandar para a borda

 
a menina maria
e o ti zé augusto
foram os meus avós paternos
 
na ladeira das fontainhas
em setúbal
bairro de murtoseiros
e pescadores
tiveram uma mercearia
uma taberna e seis filhos
 
quando a sopa da menina maria
era mais cheirosa
o aroma corria pela ladeira
até casas menos abonadas
de onde vinham grávidas
com uma malga para uma sopinha
senão ficavam ógadas
sorria a menina maria
 
lembrei-me desta história
a propósito de certas visitas
a malga agora é outra
e a sopa é de letras
 
(torreira; cirandar; 2013)

postais da ria (286)


dos amantes
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o salvador e a maria do carmo, marido e mulher, camaradas

não sabem de pedras
mas de palavras e gestos
os amigos
perguntam antes de
sabem-te o bastante para
os amigos
não serem como amigos
os amantes
ou serem mais ainda
(torreira; safar redes; 2018)

postais da ria (285)


como o mário
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o diamantino arruma as redes, vai começar a época do berbigão

caminhos sonhos
homens mulheres
desencantos
 
o cansaço chegou às raízes
 
um assento de pedra
sólido mesmo se frio
onde poisar-me
 
o cansaço chegou às raízes
 
por entre as malhas da rede
escoam-se palavras
e silêncios
 
quero dormir como o mário
 
(torreira; arrumar das rede; fim da época dos chocos; 2018)