postais da ria (285)


como o mário
0 ahcravo_dsc2587_diamantino

o diamantino arruma as redes, vai começar a época do berbigão

caminhos sonhos
homens mulheres
desencantos
 
o cansaço chegou às raízes
 
um assento de pedra
sólido mesmo se frio
onde poisar-me
 
o cansaço chegou às raízes
 
por entre as malhas da rede
escoam-se palavras
e silêncios
 
quero dormir como o mário
 
(torreira; arrumar das rede; fim da época dos chocos; 2018)

postais da ria (284)


escrevi-me
 
0 ahcravo_dsc_3390_ti zé costeira

o falecido ti zé costeira regressava de mais uma pescaria, a remar à ré como numa #caçadeira

recuso-me a ser água
onde barcos a navegar
barco serei eu
 
sou as minhas palavras
sinto-me nelas são-me
 
recuso-me a ser vaso
onde flores plantadas
flor serei eu
 
dentro da garrafa de belo rótulo
o vinho azedou
enganado foi quem o comprou
 
recuso o carnaval
só em veneza
belas as máscaras
 
sou e assino
escrevi-me
 
(torreira; 2013)
 

postais da ria (281)


mau feitio

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os rilho, pai e filho, a mesma faina

chamam-lhe rio
e é salgada a água

chamo-lhe memória
e é cada vez mais isto
imagens penduradas
nos olhos onde amigos
nascentes de sentir

chamo-lhe mar e digo
há outras praias
onde a mesma gente
com outros nomes
a mesma arte

tens mau feitio dizem
sabes não é fácil
ser rio de água salgada

(torreira; cirandar; 2016)

postais da ria (278)


recuso-me

0 ahcravo_DSC_2740 bw

o falecido carlos aldeia e o balde com o caranguejo para as enguias

na areia inventar
a pedra

nas nuvens erguer
muralhas

nos pulsos fechar
grilhetas

quebrei todas grades
de todas as janelas

recuso-me a esperar
a morte

continuo a correr atrás
do vento

(torreira; porto de abrigo; 2013)