postais da ria (555)


em português nos entendemos
língua velha que não raiz
árvore que a cada dia floresce

português falamos sotaques
vários nos separam e unem
na diversidade somos palavras

abraçamo-nos sem faca na
manga quantas cores quantas
origens se fundem em nós

não somos os herdeiros de um ontem
que derrotámos mas construtores do futuro
sem preconceitos e sem vergonhas

descobriram agora que os lusíadas
a lírica foram escritos numa língua esquizofrénica
envergonhada diz luiz se assim foi

curvo-me perante estes libertadores
e em português me ergo desavergonhadamente

(bateira a arribar da faina; torreira; 2015)

postais da ria (545)


que metáfora
para o sniper que alveja
uma criança indefesa
uma mulher que leva o filho pela mão
um homem que caminha

que metáfora
para o tiro certeiro
no peito na cabeça
para o assassínio preciso
sorridente impune de safari

que figura de estilo
para a terraplanagem 
o apagar da memória
o que tanto foi

que metáfora
para o genocídio impune
realimentado em dólares
e silêncio acomodado

que figura de estilo
falta ainda inventar 
porque tudo surpreende
quando pensávamos
já ter visto tudo

que metáfora
para esta merda de tempo
em que vivemos

(bateiras; torreira; 2013)

postais da ria (543)


poemas de amor 
gostava de os escrever
e de os entregar

aos senhores da guerra
aos donos da economia
assassinos de crianças

escorrem-me pelo rosto
amargura e vergonha
raiva e impotência

merda álvaro
também eu sou lúcido

não não sou daqui
recuso-me a ser

poemas de amor
não sei escrever

(porto de abrigo; torreira; 2009)