postais da ria (288)


sopa de letras
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cirandar para a borda

 
a menina maria
e o ti zé augusto
foram os meus avós paternos
 
na ladeira das fontainhas
em setúbal
bairro de murtoseiros
e pescadores
tiveram uma mercearia
uma taberna e seis filhos
 
quando a sopa da menina maria
era mais cheirosa
o aroma corria pela ladeira
até casas menos abonadas
de onde vinham grávidas
com uma malga para uma sopinha
senão ficavam ógadas
sorria a menina maria
 
lembrei-me desta história
a propósito de certas visitas
a malga agora é outra
e a sopa é de letras
 
(torreira; cirandar; 2013)

postais da ria (286)


dos amantes
0 ahcravo_dsc2549_salvador e maria do carmo

o salvador e a maria do carmo, marido e mulher, camaradas

não sabem de pedras
mas de palavras e gestos
os amigos
perguntam antes de
sabem-te o bastante para
os amigos
não serem como amigos
os amantes
ou serem mais ainda
(torreira; safar redes; 2018)

postais da ria (285)


como o mário
0 ahcravo_dsc2587_diamantino

o diamantino arruma as redes, vai começar a época do berbigão

caminhos sonhos
homens mulheres
desencantos
 
o cansaço chegou às raízes
 
um assento de pedra
sólido mesmo se frio
onde poisar-me
 
o cansaço chegou às raízes
 
por entre as malhas da rede
escoam-se palavras
e silêncios
 
quero dormir como o mário
 
(torreira; arrumar das rede; fim da época dos chocos; 2018)

postais da ria (284)


escrevi-me
 
0 ahcravo_dsc_3390_ti zé costeira

o falecido ti zé costeira regressava de mais uma pescaria, a remar à ré como numa #caçadeira

recuso-me a ser água
onde barcos a navegar
barco serei eu
 
sou as minhas palavras
sinto-me nelas são-me
 
recuso-me a ser vaso
onde flores plantadas
flor serei eu
 
dentro da garrafa de belo rótulo
o vinho azedou
enganado foi quem o comprou
 
recuso o carnaval
só em veneza
belas as máscaras
 
sou e assino
escrevi-me
 
(torreira; 2013)