poema para os dias de hoje
os estrondos das bombas
os gritos das crianças mortas
os silêncios assassinos
(solheira; safar redes; torreira; 2019)
em português nos entendemos
língua velha que não raiz
árvore que a cada dia floresce
português falamos sotaques
vários nos separam e unem
na diversidade somos palavras
abraçamo-nos sem faca na
manga quantas cores quantas
origens se fundem em nós
não somos os herdeiros de um ontem
que derrotámos mas construtores do futuro
sem preconceitos e sem vergonhas
descobriram agora que os lusíadas
a lírica foram escritos numa língua esquizofrénica
envergonhada diz luiz se assim foi
curvo-me perante estes libertadores
e em português me ergo desavergonhadamente
(bateira a arribar da faina; torreira; 2015)
uma bomba caiu
dentro do poema
palavras estilhaçadas
mortas irreconhecíveis
escorrem sangue
é branco o sangue
das palavras
soma de todas as cores
a paz também
uma bomba caiu
dentro do poema
há letras perdidas
desaparecidas
amputadas mortas
é negro o sangue
das letras
ausência de todas as cores
a guerra também
(por caminhos de lama e ria; torreira; 2010)