há poetas que deviam
saber o que é
passar fome
não ter casa
viver o medo
e depois dizer
escrever como é
passar fome
não ter casa
viver o medo
há poetas que só sabem
escrever
(corrida de chinchorros a remos; s. paio; torreira; 2017)
que metáfora para o sniper que alveja uma criança indefesa uma mulher que leva o filho pela mão um homem que caminha que metáfora para o tiro certeiro no peito na cabeça para o assassínio preciso sorridente impune de safari que figura de estilo para a terraplanagem o apagar da memória o que tanto foi que metáfora para o genocídio impune realimentado em dólares e silêncio acomodado que figura de estilo falta ainda inventar porque tudo surpreende quando pensávamos já ter visto tudo que metáfora para esta merda de tempo em que vivemos
(bateiras; torreira; 2013)
poemas de amor
gostava de os escrever
e de os entregar
aos senhores da guerra
aos donos da economia
assassinos de crianças
escorrem-me pelo rosto
amargura e vergonha
raiva e impotência
merda álvaro
também eu sou lúcido
não não sou daqui
recuso-me a ser
poemas de amor
não sei escrever
(porto de abrigo; torreira; 2009)