crónicas da xávega (249)


vejo sinto sou

talvez não fosse uma maçã
pode até nem ter havido paraíso
nem adão nem eva nem deus
cada um acredita no que quer

mas há a moeda
o fmi o bce o dólar o euro
o bitcoin pasme-se

há o homem e o fascínio
das moedas todas
lhe poderem dar tudo

talvez não exista céu nem anjos
nem inferno nem diabo
mas existe a ganância a cegueira
a lágrima a mágoa a alegria
a revolta a aceitação a ignorância
a fome o desperdício o luxo

existe ainda a propriedade
e os homens impróprios
isto não é crença é facto

e sei que existo eu
a questionar tudo isto
porque vejo sinto sou

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carregar o saco na zorra

(torreira; 2012)

crónicas da xávega (213)


o meu país

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o carregar do saco

o meu país é habitado
mora nas minhas fotos
nas minhas palavras

o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago

o meu país dói-me
e se luto faço
é porque luto
todos os dias

o meu país
é habitado
ainda

o meu país é de carne
osso e muito suor
mal pago

até quando?

(praia da leirosa; 2017)