crónicas da xávega (303)


 

alguns são meus amigos
0 ahcravo_Imagem 249 mira companha sra dos aflitos s

o carregar do saco 

 
não são capa de revista
não têm nome
são apenas um número
na estatística
 
sabe-se deles quando
à mesa peixe fresco
da costa fala do verão
 
são em fim de vida
o que no início alguns
voltam por ser pouca
a paga por tantos anos
parcas as reformas
 
deles só sei que
 
não são capa de revista
não têm nome
são apenas um número
na estatística
 
alguns são meus amigos
 
(praia de mira; 2009)

crónicas da xávega (272)


santa ignorância

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o sacudir do saco

espanta-me a ignorância
dos que sábios se dizem

predicando asneiras
como se verdades porque
por si proclamadas

assusta-me a velocidade
com que o erro se propaga
pela mão desta gente

o que foi já não é
santa a ignorância
que constrói os dias

(torreira; 2011)

 

crónicas da xávega (249)


vejo sinto sou

talvez não fosse uma maçã
pode até nem ter havido paraíso
nem adão nem eva nem deus
cada um acredita no que quer

mas há a moeda
o fmi o bce o dólar o euro
o bitcoin pasme-se

há o homem e o fascínio
das moedas todas
lhe poderem dar tudo

talvez não exista céu nem anjos
nem inferno nem diabo
mas existe a ganância a cegueira
a lágrima a mágoa a alegria
a revolta a aceitação a ignorância
a fome o desperdício o luxo

existe ainda a propriedade
e os homens impróprios
isto não é crença é facto

e sei que existo eu
a questionar tudo isto
porque vejo sinto sou

0 ahcravo_DSC_5819 s

carregar o saco na zorra

(torreira; 2012)