um seixo rolado plana
por sobre as águas
deixando pegadas líquidas
tudo é efémero
(sal do mar; rer; armazéns de lavos; 2019)
amanhã cá em casa
é dia da mulher
à hora mais ou menos
esperada
toca à campaínha
e entra
no fim da sessão laboral
a casa cheira bem
a roupa passada a ferro
a cama feita de lavado
e tudo tudo tão limpo
amanhã cá em casa
é dia da mulher
um dia à tarde
todas as semanas
a toca do lobo
fica um lugar habitável
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)
espírito criativo
nunca tive
não sei o que é
por isso escrevi os dias
como foram quando foram
de sol mar e vivos corpos
fui tudo o que escrevi
sou tudo o que escrevo
no tempo que me resta
sou espectador atento
deste mundo cada vez
mais merdoso e escrevo
meto as mãos na merda
agito-a mexo-a bem
depois
atiro com ela à cara
de quem posso
e é pouco
(sal do mar; rer; morraceira; 2016)