a beleza do sal (114)


é dia ainda

armazéns de lavos; carregar o dumper; 2019
 é dia ainda e já se ouve
 o uivar do lobo
  
 a memória acende
 nos lábios as palavras
 guardadas quase
 esquecidas necessárias
 
 é dia ainda e já se sente
 o fedor da besta
  
 junta-se na praça a alcateia
 vindos de longe
 respondem ao chamado
 sedentos de carniça
  
 é dia ainda e já sabemos
 que o uivo o fedor
 mau prenúncio são
  
 ao engano quantos irão 

a beleza do sal (109)


dos mortos

(reflexão breve em tempos de covid)

salina; armazéns de lavos; 2020
 
 o que é só o é
 porque deixou de ser
  
 porque é não o quero
 lembrar quando já não
 
 recuso-me a ver  
 o que é por não ser
 
 gravado na memória  
 o que foi permanece
 
 os mortos não falam
 e eu oiço
 
 ouvirei sempre
 porque vejo diferente  
 
 

a beleza do sal (46)


eu abri as portas da gaiola

(….eles passarão
eu passarinho
“mário quintana”)

não sei de bancadas
nem de lugar à sombra

gosto de sol e mar
e da força da vagas

ficou vazia a cadeira
que me guardaram

recuso o caminho palavroso
onde não nasceram gestos

cantam de poleiro
aves de arribação

eu abri as portas da gaiola
para voar
é tarde para me cortarem
as asas

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o meu amigo paulo formiga

(armazéns de lavos; mexer; 2016)