a beleza do sal (218)


recordando antónio ramos rosa

não não posso adiar
o coração recuso-me
ucrânia gaza sudão

não vou escrever flor
nem falar de amoras
irão cuba venezuela

o meu mundo não tem
fronteiras raças donos
trump netanyahu putin

escrevo genocídio guerra
sangue tortura fome
não posso adiar o coração

(mexer; armazéns de lavos; 2019)

a beleza do sal (216)


em louvor da epifania

a epifania chegou rente
à hora de jantar
torradas iogurte e fruta
um chá a terminar

a epifania era culta e bela
sábia nas artes de amar

foi longa e breve a noite
epifania invulgar

perguntei se voltaria
havia um poema a acabar
era só uma epifania
mas disse-me que ia tentar

(sal do mar; armazéns de lavos; mexer; 2017)

a beleza do sal (213)


vêm de longe os amigos
cheguei dizem

trazem o abraço
preso nos dias vagos

falam a linguagem das aves
poisam e partem

é breve o encontro tão breve
quanto intenso

partem os amigos

estendo-me no tempo
aguardo o regresso
antes de ser noite

(carregar sal no dumper; armazéns de lavos; 2019)

a beleza do sal (202)


não vi o cogumelo
não foi ele que tudo arrasou
que fez das casas ruínas
das avenidas caminhos

a destruição não foi cega
foi precisa minuciosa
calculada e fria
telecomandada

não basta gaza
não basta uma faixa de terra
habitada junto ao mar
não basta

os campos de refugiados
as oliveiras seculares
raízes de um povo
também são alvo

some-se jenin nur shams
mais serão nada basta
limpar é palavra de ordem

subtrai-se humanidade

onde o homem
só vejo a besta

(flor de sal; armazéns de lavos; 2017)